A piada e as suas técnicas

Afinal, o que é uma piada? Bom, é tão simples quanto isto: uma surpresa. Contar uma piada a alguém é ludibriá-lo para que caia numa espécie muito própria de armadilha, de truque. É enganar alguém, levando-o a pensar que o nosso discurso se encaminha num determinado sentido, para, inesperadamente, virarmos o volante a certa altura e tomarmos outra rota. Trata-se, na prática, de um engodo que não é esperado pelo recetor, o qual, antes de saber, já está a alinhar na brincadeira.

Dizer que uma piada é uma questão de timing trata-se de um cliché demasiado gasto. O timing é a mestria em se passar da história A para a história B. Para que a piada funcione, o interlocutor tem que reconhecer previamente algo no nosso discurso (a história A, designada por «set up») para saber que aquilo que vem a seguir não tem sentido (a história B, chamada «punchline»). Ter a capacidade para passar de um enredo para o outro no momento certo é o que faz a diferença.

A comédia, ou o humor (tanto faz), resulta quanto mais específica e geral se apresenta. Ainda que pareça um contrassenso, a fórmula é bem clara: deve pegar-se nos pequenos detalhes que habitualmente escapam aos olhos de todos (específico) e ser reconhecível por um grande número de pessoas (geral) – o facto de a generalidade dos rapazes empregar numa rapariga atraente o termo «boa como o milho» revela estupidez, pois, na verdade, em cada mil jovens, só 14 é que gostam realmente de milho. A este tipo de humor chama-se humor de observação, sendo muitas vezes iniciado desta maneira: «Alguma vez repararam que…?». Por exemplo: alguma vez repararam que a esperança média de vida de uns auriculares dos chineses é equivalente à esperança média de vida do vinho no copo do Jorge Palma? Esta capacidade em escolher um bom ângulo (como o facto de uns auriculares baratos não serem de todo duráveis) é meio caminho andado quando se procura construir uma boa piada. O que não é somente aplicável no humor de observação, mas deve ser transposto para outros tipos, como o humor de atualidade – e aqui em especial porque, por vezes, uma notícia está tão esmiuçada que é difícil falar de algo novo.

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