Alfarrabistas: o admirável mundo velho

Chamam-lhes alfarrabistas. Dedicam-se à comercialização do livro usado. Na cidade do Porto, existem dezenas destes vendedores. Em tempos, eram muito procurados, mas o aumento da popularidade do livro eletrónico tornou a continuidade do negócio uma incógnita.


Luís Moutinho é proprietário da Livraria do Candelabro desde 2005. Situada no centro do Porto, chega a receber em média três clientes por dia. O movimento já foi bem maior. Ainda assim, aquilo que vende ainda lhe permite obter algum lucro.

Do interior da loja, o cheiro a papel antigo impera. O ambiente rústico e delicado convida ao respeito pela literatura. É aqui que Luís se sente em casa. Licenciou-se em Economia, mas o amor pelo livro esteve sempre presente. Quando surgiu a oportunidade de adquirir a livraria, não hesitou. Há uma década, comprou o espaço à família do senhor Barros – o proprietário original – que o inaugurou em 1952.

Hoje, Luís percebe o impacto que a crise económica nacional teve no negócio. É que a diminuição do poder de compra também impactou a venda dos livros usados.  A si, e aos seus colegas de profissão, restam-lhes o lucrativo negócio das “raridades”. “Repare, a crise afetou a classe média, que procura mais os livros correntes, muito baratos,” diz. “A classe alta continuou a interessar-se pelo mais caro.” No ano passado, Luís vendeu um exemplar da primeira edição da Mensagem de Fernando Pessoa por 2000 euros. É algo que de que se orgulha.

Mas nem tudo lhe agrada. Luís é do tempo em que as livrarias mantinham os mesmos empregados durante vários anos. O que já não acontece. O cliente não conhece o vendedor, e o vendedor não conhece o cliente. “Ainda hoje em dia se fala de antigos empregados, um senhor chamado Fernando Fernandes, que trabalhou na livraria Leitura durante décadas. Já está reformado há muitos anos e as pessoas ainda falam dele,” relembra o alfarrabista.

Adaptação

São vários os fatores que levam os alfarrabistas à necessidade de se adaptarem aos tempos. O rápido avanço tecnológico da sociedade é o fator determinante. Há quem peça uma mudança de paradigma. E Teresa Soares acredita ter a solução. Coproprietária do alfarrabista José Gomes Soares, divide o trabalho com a irmã, e o pai. Situada na Avenida dos Aliados, no Porto, a loja mantém-se no mesmo há quase 50 anos. No ano de 2008, decidiram mudar a forma de comercializar o seu produto. Criaram um website o alfarrabista.eu. Com ele, a forma de trabalhar alterou-se, e passaram a apostar nas encomendas à distância. Ter os livros catalogados online ajudou a organizar tudo de forma mais eficiente. “Agora temos mais noção daquilo que temos e onde se encontra cada produto,” conta a comerciante.

Já Luís Moutinho não partilha da mesma opinião. Criou o seu website em 2011 e ainda não notou grandes diferenças. A internet proporciona-lhe mais visibilidade mediática. “Ao nível do volume de vendas, a mudança foi pouco significativa.”

No Futuro

Quem pode ajudar a perceber melhor o estado do negócio dos alfarrabistas no Século XXI é Amélia Coelho. Após quase três décadas no comércio de livros, Amélia, 52, decidiu comprar a sua própria loja. Há seis anos,  abriu o “Paraíso do Livro”, no centro do Porto. Sobre o futuro da profissão, partilha de uma visão mais pessimista. Se tivesse netos, não os imaginava a continuar o negócio.

A indústria editorial portuguesa tem vindo a acumular quebras na ordem dos 20% nas vendas, desde o ano de 2008. Segundo o estudo “Sectores Portugal e Indústria Editorial”, publicado pela Informa D&B, só no ano de 2014, o sector recuou 3,2 pontos percentuais. A isto junta-se a falência do setor da distribuição livreira.

Num artigo do Público de 31 de dezembro de 2012, lê-se que o desperecimento de muitos destas empresas levou as editoras a criar a sua própria logística de distribuição. Estratégias autónomas que fizeram com que as empresas registassem prejuízos na ordem dos 100 mil euros.

A difícil situação económica das editoras portuguesas não afeta apenas os funcionários ou os revendedores de livros como Luís, Teresa ou Amélia. Os escritores também sofrem. Como por exemplo, Valter Hugo Mãe, que em 2012, expressou o seu descontentamento na página oficial do Facebook pela forma como o grupo Santillana – empresa que lhe edita os livros em Portugal – resolveu o problema da falência da distribuidora CESodilivros.

O desinteresse pela compra e venda de livros aumenta se a população mais jovem começa a preferir outras formas de entretenimento. Assim pensa Luís Moutinho: “O público jovem já não compra livros e está a fugir à literatura.”  Mas Teresa Soares discorda: “Ainda recebemos muitos pais com dificuldades em conseguir adquirir todos os livros que os filhos lhes pedem”.

União e Comunidade

A comunidade de alfarrabistas do Porto é diminuta, mas existe um forte sentido de união. Luís Moutinho mantêm boas relações com a concorrência. “Quando não tenho um livro específico, não tenho problemas em encaminhar o cliente para outra loja que o tenha.” É com entusiasmo que vê a criação de uma associação de alfarrabistas Portuenses.

Entre os alfarrabistas portuenses existe um fascínio pelos autores do passado. Amélia adora Vergílio Ferreira. Já Luís e Teresa veneram Eça de Queiroz muito por causa da qualidade intemporal das narrativas. O gosto pelos clássicos leva-os a ignorar muito dos autores mais contemporâneos. Para Amélia, muito do que hoje se escreve dificilmente se tornará clássico. “Existe uma saturação de conteúdo no mercado livreiro. Se calhar é isto que nos está a arruinar. Há muita parra e pouca uva,” diz.

Apesar das dificuldades e dos sucessos da profissão de alfarrabista, existe consenso entre Luís, Teresa e Amélia: o amor incondicional pela literatura.

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