Introdução ao riso

Antes de mais, escrever comédia, por estranho que possa parecer, não é uma tarefa nada fácil. O próprio ato de escrever é, em sim, um processo laborioso, sendo que, muitas das vezes, há pessoas que preferem contar uma piada e receber dela uma gratificação imediata, do que dedicar horas do seu tempo à transcrição de um sketch ou de uma crónica que, na sua mente, fervilham e se afiguram soberbos, mas que na verdade não passam de uma ideia parva que tiveram durante a apanha da uva. Além disso, escrever comédia é particularmente injusto, pois nunca o poderemos fazer sem o objetivo de a mostrar a outras pessoas. Não resulta produzir um texto humorístico para em seguida o enfiar na gaveta, assim como rirmo-nos da própria piada não oferece o mesmo “sabor” (e se oferece deveremos consultar um médico).

Árdua é também a aventura de escrever comédia, pois esta tem como finalidade provocar o riso no interlocutor. O humor pode ter outras funções, como alertar ou criticar, mas não restam dúvidas quanto ao seu papel principal: fazer rir. E o que é, então, o riso?

Ora, há um lado do nosso riso que será eternamente indissociável ao imediatismo e irreflexão da nossa infância. Rimo-nos com gosto é rimo-nos como se fossemos miúdos travessos, nada ralados com as manchas de lama que nos cobrem a roupa – e isto é válido independentemente do motivo, quer seja uma piada sofisticada de Ricardo Araújo Pereira, ou um arroto selvagem de outra pessoa qualquer. Mais ou menos apurado, o riso sincero é aquele que faz cócegas irrefletidas no nosso cérebro, aquele que dá ideia de o bloquear na tentativa de encontrar uma lógica perdida. Rimo-nos porque oferecemos um repasto incrível aos nossos neurónios, que ficam com uma mão cheia de realidades paralelas e, sabe Deus como, são capazes de descortinar uma ligação inesperada entre elementos que pareciam condenados a viver em universos diferentes (ou até incompatíveis).

Uma sugestão de bibliografia é o livro da Susana Romana, guionista nas Produções Fictícias, Canal Q, Inimigo Público, e formadora de humor.

A um nível biológico, o riso pode ser explicado como um mecanismo de defesa, o levantar de um número indeterminado de barreiras mentais que nos conferem a sensação de proteção – não sobre um crocodilo furibundo a abrir a boca, mas sobre uma situação. O escritor e humorista norte-americano, Mark Twain, definia o humor como “tragédia mais tempo”, e, com efeito, nós rimo-nos perante o trágico. Ocasiões deste género acontecem (seja um amigo nosso que tropeça e se esbardalha redondo no chão, ou um terrorista desvairado que provoca um atentado) e, demorando mais, ou menos, haverá seguramente uma altura em que servirão de motivo para nos rirmos. Além disso, chegamos a rir-nos em funerais, quais bestas demoníacas desprovidas de bom senso. E porquê? Porque, para nós, enquanto rimos de situações tristes ou complicadas, ou sobre as quais não temos controlo, demonstramos que elas não nos afetam. Sentimo-nos superiores, olhando de cima e, quem sabe, cuspindo com desprezo cá para baixo, por mais nojento que isso possa parecer. Rir, muitas vezes, é fintar o medo ou a insegurança. Mas é também ser apanhado de surpresa, um modo de mostrar que fomos assaltados pelo imprevisto e que estamos a lidar com isso. Além do mais, o riso é igualmente – bolas, que o riso é tanta coisa, detesto isto – um ato social, no sentido em que, além de rirmos com quem se ri das mesmas coisas que nós, preferimos rir-nos em conjunto do que se estivermos sozinhos (as gargalhadas enlatadas das sitcoms servem justamente para exercer em nós um efeito «pavloviano» que nos faça rir, igualmente).

No entanto, que razão existe para justificar o riso? É simples: rimo-nos porque estamos conscientes da nossa morte. Não é coincidência o facto de sermos os únicos seres animais que, além de saberem que a vida acabará um dia, são também dotados dessa capacidade extraordinária que é o riso, o sorriso ou a gargalhada. No fundo, rimo-nos porque sabemos que a morte nos espera, daí encarando tudo com uma certa relatividade inata, a qual, por vezes, nos é impercetível.

Deixa um comentário