Metro infernal, nova era shit party

Reparei que já era tarde demais para voltar atrás quando senti a asfixia desenvolver-se em torno do meu esófago a meio daquela viagem de metro, onde seguia esmagado pela quantidade anormal de população em trânsito – um número excessivo de matéria humana que se conservaria pouco recomendável mesmo se, na paragem seguinte, debandassem dois terços dos ocupantes. O meu físico apertava-se cada vez mais à medida que ia sendo comprimido por forças que me subjugavam com tantos newtons como aqueles que cientistas forenses atribuem a uma pisadela de elefante. Respirar depressa galgou caminho rumo ao topo das minhas prioridades, se bem que a hipótese de estar apenas a desperdiçar energia fosse considerável. Pelas minhas contas, à velocidade com que diminuía o espaço reclamado por mim naquele meio de transporte, restavam-me sensivelmente sete minutos no estado sólido. Isso significava que estava prestes a morrer, o que era especialmente trágico porque me tinha esquecido de tirar uma fotografia decente para a secção de óbitos do jornal. No dia seguinte, a fronha que embelezaria o meu artigo de necrologia seria certamente a mesma que ostentei na primeira comunhão, durante uma sessão fotográfica pouco abonatória, que me faria seguramente perder a final de um concurso de beleza para alguém acabado de sair de um atropelamento por camião. Pelo menos, foi o que disse a minha mãe.

A propósito, isso fez-me recordar as duas almas que me conceberam e toda a história do meu nascimento. Na altura, os meus pais, hesitantes em levar a gravidez avante devido a dificuldades económicas – nomeadamente um certo subsídio estatal de rendimento mínimo a que estaria a ser mais difícil pôr as mãos do que o previsto –, acabaram por decidir através do lançamento de uma moeda ao ar cancelar o aborto clandestino ao médico indiano não menos licito, doutor Ahkmed. Um método que até hoje me pareceu acertado, pois graças a Deus saiu «coroa». Como é conveniente a um bom filho, faço questão de não alimentar uma preferência especial por qualquer dos progenitores relativamente ao outro, muito embora saber que foi o meu pai quem escolheu «cara» ofereça indicações suficientes sobre aquele que menos mágoa me causaria ao ver seguir deportado para África num contentor. Não obstante, agora que os meus olhos se iriam fechar para sempre, senti que devia a ambos algumas últimas palavras.

– Ei, Roger, por favor leva um recado aos meus pais. – balbuciei aos gritos.

– O Roger está morto há dez minutos, abécula! – fui incapaz de identificar de onde vinha a resposta.

– Scooter, és tu, imbecil?

– Sou. Do nosso grupo acho que já só cinco é que continuam a inalar oxigénio aqui dentro.

– Diz aos meus pais que nunca os amei e que enfiem a moeda de vinte cêntimos no mesmo sítio por onde evacuam.

– Devias ir a um psicanalista, mas como queiras, amigo – a voz dele adotou um tom mais abafado, mas permanecia audível. – Uma condição, só!

– O que é? Diz depressa – pressenti que os meus últimos segundos no mundo consciente estavam finalmente a esgotar-se.

– Legas-me a tua Playstation 4? – o seu descaramento irritou-me.

– Querias tu, jumento. Só por cima do meu cadáver!

– Caso não tenhas reparado, meu grande idiota, é precisamente essa a ideia!

Sentia-me cada vez mais ofegante, desesperado por todas as moléculas do oitavo elemento da tabela periódica que os meus pulmões conseguissem reivindicar naquele lugar bafiento. Estava tão sedento de atmosfera que, com os nervos, respirei por engano algum do enxofre proveniente das axilas do tipo com cara de porco-espinho que tinha à minha frente, e cuja compleição semelhante à de um lutador de sumo contribuía generosamente para me esborrachar os órgãos em leite creme. Pela maneira como transpirava, deduzi que o tipo poderia perfeitamente servir de fonte de energia a uma barragem, se assim o quisesse, e esse foi o último pensamento que me atravessou a cabeça, antes da minha visão se desfocar e tudo à volta começar a girar num redemoinho disforme. Aí desmaiei.

Fotografia que caiu da carteira do indivíduo que estava à minha frente. No verso pode ler-se: «Luta de namorados. Amo-te Fanny».

Só haveria de acordar meia hora depois, estendido na relva de um espaço verde qualquer, perto da estação de metro de Matosinhos.

– Até que enfim abriste os olhos, maluco. Chegámos a fazer apostas sobre o veredito do teu julgamento no Purgatório. – a expressão de Scooter denotava mais tristeza do que alegria pelo facto de eu continuar a bombear sangue.

– Quantos sobreviveram? – perguntei, soerguendo-me no chão, meio abananado.

– Tu, eu, o Chico e o Wallace. Quatro.

A contagem das baixas surpreendeu-me. Supostamente seríamos oito, mas aquela viagem reduzira-nos a metade, muito longe de chegarmos ao destino. Íamos para a Nova Era Beach Party, na praia, juntamente com toda a cambada que encheu o metro, se bem que eu já não metia as mãos no fogo por essa afirmação. De repente tive dúvidas se a peste negra não estaria de volta e o governo estaria a usar toda a linha de transportes públicos para evacuar o Grande Porto.

Diante de nós, esperava-nos ainda uma caminhada tão grande como a de Frodo Baggins para destruir um certo anel, pelo que não tardamos, os remanescentes, a fazermo-nos à estrada. Relativamente aos cadáveres, fiquei a saber pelo Scooter que o Roger fora o primeiro a tombar devido ao seu problema de asma, obviamente. Deixou cair a bomba de ar com a pressa, descuido que se revelou fatal dada a impossibilidade de conseguir mexer sequer os mindinhos das mãos lá dentro, quanto mais baixar-se a seguir para apanhá-la.

O Carl e a Rebecca, que haviam entrado connosco na mesma carruagem, foram os próximos. Eu sabia que uma anã não deveria arriscar a travessia e bem a avisei, mas ela não me deu ouvidos. A multidão amassou-a de tal forma que, quando deu por ela, tinha a cara enfiada no rabo do cliente do ano do McDonald’s dos Aliados, prémio que arrebatara pela segunda vez consecutiva, e morreu sufocada. A seguir, o Carl foi possuído pelo desgosto amoroso e jurou recusar-se eternamente a inspirar mais uma partícula gasosa que fosse num mundo onde a sua camomilazinha não apresentasse um sistema cardíaco funcional. Cumpriu a promessa e aguentou quase cinco minutos antes de quinar, como acontece a todos os bons homens de palavra. O Ned foi um caso mais sério. O combinado foi ele entrar noutra estação e a gente encontrar-se durante a viagem. Digamos que à sua beira alguém lidou mal com o facto de ir enchouriçado, e começou a conquistar espaço à dentada, iniciando ali mesmo, na extremidade oposta da composição, um surto violento de canibalismo do qual, segundo dizem os rumores, o Ned escapou ileso mas psicologicamente distante dos mínimos requeridos a um cidadão equilibrado. Tiveram de interná-lo, o que foi mais fácil do que se havia previsto, assim que chegou a terceira unidade do Exército. Eram os únicos com carta para guiar os tanques. 

Malta que saiu da carruagem com o Ned.

A meio do trajeto, parámos numa esplanada. O Wallace e o Scooter vinham a carregar o Chico, que mal metera os pés em terra na estação de Matosinhos entrara em estado de choque ao reparar que as suas meias não casavam. Aproveitámos e bebemos ali um copo de água antes de prosseguirmos. Refeitos das atribulações anteriores, eu próprio fui ficando mais animado. Mas contente, mesmo, só depois de concordarmos todos que, embora eu tivesse deixado o telemóvel e as chaves de casa na esplanada sem os ter reavido quando voltei lá, a festa ia ser épica.

Chegados ao areal da praia, aguentamos na fila e éramos para nos sujeitar à vistoria de narcóticos dos seguranças, mas o Wallace disse que não conhecia nenhum dealer e a mãe sempre lhe dissera para nunca aceitar nada de estranhos, o que, por correlação, permitia inferir que Wallace nunca tivera acesso a drogas, sendo assim desnecessária qualquer revista. O segurança agradeceu a informação e deixou passar o grupo todo ileso. Mal entrámos, o Wallace pegou num megafone e começou a gritar: «Erva, pastilhas, cocaína, e coisas piores. Há tudo, incluindo veneno de ratos. De que estás à espera, jovem endrominado? Oferta de um vale de 5 euros para o futuro em compras iguais ou superiores a 50 paus. Aproveita já». Fechou alguns negócios e ficámos a curtir um bocado a música e a ver a paisagem de modelos femininas.  

A situação descambou a partir do momento em que nos encaminhamos até ao balcão das bebidas e eu acabei por trocar involuntariamente o meu copo com o de um sujeito mexicano interessado no stock do Wallace. Partilhei com o pessoal a bebida e, sem ninguém suspeitar, acabámos todos a ingerir uma tequila patrocinada por Albert Hofmann. Dez minutos foi quanto bastou para o Chico ficar sem cuecas e desatar a bater no peito com o vigor de um touro, enquanto vocalmente imitava o timbre de um gorila que, segundo ele, era suposto ser Frank Sinatra. Mas os efeitos do LSD só se denunciaram assim que nos apercebemos que cada um de nós era um Power Ranger. Para comemorar, fizemos em conjunto a coreografia do haka da seleção de râguebi neozelandesa, mas depois o Scooter insistiu que a cor dele era o laranja, apesar de não existir nenhum Power Ranger dessa cor, tendo sido impossível demovê-lo daquela ideia absurda. Alinhámos na cena, mas o ambiente ficou desnecessariamente embaraçoso e humilhante a partir daí. Ainda fomos a tempo de salvar o universo de meia dúzia de Transformers maquiavélicos da altura do Burj Khalifa antes dos seguranças nos escorraçarem para fora do recinto. Agradeceram exuberantemente o nosso heroísmo, apesar de eu não ter ouvido; era uma convicção minha, só. Pontapearam-nos a todos dali para fora, exceto ao Wallace, com quem quiseram falar em privado. Ele explicou-nos mais tarde: os seguranças admiraram a personalidade dele na entrada, estiveram a trocar contas de facebook, e pediram-lhe desculpas pelo inconveniente, mas que havia uma festa melhor na esquadra para a qual estávamos convidados. Então, agora estamos todos aqui. O inspetor que nos recebeu foi buscar bebidas; estamos à espera. Entretanto, vamos respondendo a umas perguntas sem perceber porque é que teimam tanto em perguntar se temos a certeza de o querer fazer sem a presença de um advogado.

Tanto quanto me recordo, foi assim que eu cheguei a Matosinhos.

Ah, a viagem até aqui foi porreira. Viemos no banco de trás do unicórnio da polícia, um novo modelo com alta tração, só para forças da autoridade. Sem querer ser chibo, mas acho que o inspetor a caminho daqui passou o azul num semáforo; disse-lhe que podia estar tranquilo, não íamos contar a ninguém. Agora estou sentado numa cela a ver as horas passar. É um espaço bonito, com boa vista para o arco-íris na outra parede. As minhas mãos estão atadas por algas a arder, estranho. De repente, um flash causou-me uma espécie de faísca no cérebro e recuperei uma ténue percentagem de consciência. Alguma coisa não batia certo. Lembro-me de ter pensado anteriormente que já era tarde demais para voltar atrás, mas não consigo precisar muito bem quando foi isso.

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