
Como é viver com uma perturbação obsessiva-compulsiva?
Fernando não sai de casa, ou vai dormir, sem verificar uma série de vezes se os bicos do fogão estão bem fechados ou se as portas estão bem trancadas. Passa as mãos por água sem motivo algum e não deixa ninguém entrar na sua casa sem tirar os sapatos e calçar uns chinelos que tem, exclusivamente, para as visitas. Limpa as solas do calçado infinitas vezes e limpa todo e qualquer móvel, ou objeto que apareça à sua frente, ainda que não tenha pó. Penteia-se com muita regularidade ao longo do dia.. Fernando penteia-se para ir dormir, para andar nas lides domésticas ou simplesmente num ato inconsciente de quem, naquele momento, não tem nada para fazer. O que é ainda mais estranho é que Fernando é careca.
Fernando Toscano é doente psiquiátrico e sofre de uma perturbação obsessivo-compulsiva.
“Quando a nossa mente adoece é complicado”, confidencia.
Desde que tem memória que a vida dele é assim: disciplinada em gestos repetidos.
“ De criança, na minha antiga casa, quando vivia com os meus pais já havia confusão por causa disso. Às vezes havia garfos sujos e eu mandava com eles no chão revoltado com a falta de limpeza e tudo.”
O facto de não poder fazer as coisas à sua maneira, deixava-o nervoso e impedia-o de descansar o cérebro.
“ Até adormecia a trabalhar. Já fui na altura, muitas vezes apanhado a dormir pelo encarregado.”
Os pais nunca deram importância a estes sintomas, pensavam apenas que seriam traços da sua personalidade. Só depois de casado é que Fernando foi a primeira vez ao psiquiatra e não gostou da experiência.
“Como os meus pais não se preocuparam em criança com estes meus sintomas e a doença agravou-se cada vez mais, o psiquiatra deu-me apenas cinco anos de vida pois o meu estado de saúde mental estava muito avançado. Mas era mentira pois ainda estou aqui! “
A esposa de Fernando quis que o marido continuasse a ser seguido numa unidade de psiquiatria pública. Agora, é a Unidade Hospitalar de São João da Madeira que recebe, duas vezes por ano, este doente especial que não sabe bem que doença é que tem. Não sabe o nome. Já lhe disseram, mas continua sem perceber porque é assim e não sabe como pode mudar.
“Dão-me calmantes mas não sei bem se é para isso, porque continuo a fazer as mesmas coisas vezes seguidas. Quando os meus filhos me dizem que fizeram algo, não me acredito neles e vou confirmar de novo. Até nem mesmo eu me acredito em mim e tenho de conferir tudo. Se vir um pingo no chão já limpo, é doença eu sei…mas não sei o nome, nem porque sou assim, … se eu não fizer isso fico ainda mais nervoso”
O que é?
João Pais, médico psiquiatra esclarece que “A perturbação obsessiva-compulsiva é uma doença psiquiátrica, que se caracteriza sobretudo pela existência de pensamentos recorrentes, que as pessoas reconhecem como sendo pensamentos delas, mas que são causadores de grande ansiedade, e que elas tentam contrariar. O que chamamos de ideias obsessivas.”
A principal característica da doença é a dúvida patológica que consiste numa preocupação em verificar se algo está bem fechado ou se por exemplo o corpo ou uma superfície está limpa. E a contaminação. Limpar de novo algo que não tenha sido usado por ninguém e averiguar um número considerável de vezes o mesmo.
Causas
Esta perturbação pode ser proveniente de doentes com anteriores depressões. Pode também ter causas genéticas, biológicas ou comportamentais.
Aparecimento
Entre os 19 e 20 anos, contudo pode acontecer mais cedo, em criança. Geralmente surge mais cedo nos homens do que nas mulheres.
Tratamentos
Os antidepressivos e os psicóticos são fármacos que administrados potenciam e aumentam os níveis de dopamina. A dopamina é um neurotransmissor do cérebro que tem a função de motivar, focar e trazer produtividade ao doente. Este tratamento é o principal que controla os impulsos.
A psicoterapia cognitiva-comportamental também é outra forma de tratamento que consiste na reformulação de pensamentos e situações que o doente faz para contrariar estas obsessões.
Esta medida combinada com a prescrição dos fármacos adequados, tem melhores resultados pois um tratamento potencia os resultados do outro.
Prevenção
Não consumir álcool, uma dieta equilibrada e exercício físico têm um grande impacto positivo em todas as doenças psiquiátricas.
Em caso de suspeita deste transtorno
Consultar de imediato um médico psiquiatra que avaliará os seus comportamentos e traçará o diagnóstico.
Apoios
A Domus Mater é uma Associação de Apoio ao Familiar e Doente com Perturbação Obsessiva-Compulsiva que com uma equipa técnica credenciada e idónea e com vários anos de experiência clínica nesta área da Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), oferece ajuda a estes doentes, com sede em Lisboa.
A ADEB é uma associação de apoio aos doentes depressivos e bipolares, situada em Lisboa. Tem como principais objetivos : Implementar respostas de cuidados continuados integrados de saúde mental; Promover, educar e formar, de forma especializada, na área da Saúde Mental; Apoiar e orientar os jovens e adultos associados da ADEB em situação de desemprego e Desenvolver o Fórum Sócio Ocupacional, com base na legislação em vigor aplicável.













