No rasto da mulher na arte

Percorrendo os caminhos da História da Arte, é possível encontrar diferentes variações não só na representação, como também da inclusão da mulher. Cada momento histórico revela uma perspectiva diferente para com elas.

Os primeiros registos da presença feminina são pré-históricos, onde os objetos artísticos representavam uma tentativa de controlo das forças da natureza. Vénus de Willendorf é a primeira representação da mulher, na Pré-História. A estatueta em pedra e com atributos avantajados simboliza a fertilidade. Representavam a mulher como a mãe, o alimento, a força da natureza e da vida.

Alguns séculos mais tarde, entre XI e XII, surge uma nova forma de representar o corpo feminino: as Sheela-na-Gigs são talhas figurativas de mulheres nuas com o órgão sexual exagerado. Era possível encontrá-las em igrejas e castelos, ao lado de figuras masculinas. Estas figuras pretendiam impor aos homens o poder escondido no interior profundo, escuro e misterioso do ventre feminino.

Avançando até à Idade Antiga, período desde 4000 a.C (antes de Cristo). a 35000 a.C. até 476 d.C. (depois de Cristo), a mulher passou a ser retratada na forma de busto ou estátua quando assumia um papel importante na história. Contudo, esta representação estava sempre associada ao homem. As imagens da Virgem Maria e Eva, simbolizadoras da maternidade e pecado, respetivamente, eram as representações mais comuns.

Na Idade Média, entre o século X e XV, a mulher era representada na pintura e escultura como um vulto, tornando-se objetos de adoração. O corpo feminino adquire, nesta época, conotações mais mundanas e é desassociado da ideia estritamente religiosa. A mulher assume um papel terreno. As mulheres são ícones que representam o binómio vida/morte e são a idealização da sexualidade humana.

Chegando à Idade Moderna, entre 1453 e 1789, a arte procura representar o sexo feminino com as devidas proporções humanas e rigor científico. É nesta fase que surgem os modelos de beleza feminina ideal demarcados pelos padrões estandardizados de beleza e gosto, que irão influenciar toda a sequência artística.

A Idade Moderna, caracterizada pela visão burguesa humanista conservadora, permite à mulher surgir na arte como um elemento libertador e que expressa ideias. No final do século XIX, o corpo feminino passou da tela para a fotografia, onde mais tarde adquiriu várias formas. Tratada como objeto sexual, a mulher estava associada às representações ao ar livre ou com luz natural.

Na viragem para o século XX, a personagem feminina surge nos movimentos de emancipação da mulher. Numa configuração diferente da habitual, as mulheres são reproduzidas em pinturas a óleo, essencialmente compradas pelas elites. Mãe ou esposas, inseridas em anedotas familiares, a mulher é assim representada, deixando de ser considerada o centro do binómio sagrado/pecado e torna-se uma humana moderna e ousada.

A partir de 1930 e até aos dias de hoje, a mulher assume vários papéis na arte: tanto podendo surgir como heroína ou como objeto submisso ao homem. Nos anos 40, do século XX, a “Super Mulher” surgiu para desenvolver o conceito de mulher que pode e manda, semelhante ao “Super Homem” que já era adorado por milhares. Hoje em dia, a mulher é percecionada socialmente em países considerados desenvolvidos como independente, na arte e não é necessariamente representada como uma dona de casa, única e exclusivamente responsável pela família, mas sim como um ser trabalhador e capaz.

 

Como é a mulher percecionada na arte, pelos jovens?

Numa sociedade onde a mulher tem batalhado pelo estatuto social e reconhecimento nas mais diversas áreas, a arte tem-se transformado e adaptado aos ideais que a sociedade tem para com o sexo feminino. E hoje, como é que os jovens encaram o papel da mulher na arte?

Afonso Duarte, 20 anos, é estudante da licenciatura de Comunicação Audiovisual e Multimédia, na Universidade Lusófona do Porto. Acredita que o “papel da mulher na arte fa-la tornar-se mais aberta. Mais liberal. Se a mulher não estiver tão ligada à arte, eu acho que o pensamento e a mentalidade fecham algumas portas daquilo que é a arte”. Maria Inês Pinho, 20 anos e também estudante da mesma licenciatura, partilha da mesma opinião, considerando no entanto que há ainda um longo caminho a percorrer. “As mulheres começaram a destacar-se na arte pela via do feminismo. Foi a imposição delas na sociedade porque mesmo a cultura e o mundo estando em crescimento, as mulheres ainda ficam muito a perder nestas áreas, é como se não fossem levadas a sério”. A estudante, natural de Santa Maria da Feira, acrescenta ainda que “há mulheres artistas com trabalhos incríveis e com reconhecimento, mas acho que enquanto não se mudarem completamente as mentalidades de que uma mulher é tão capaz como um homem, haverão sempre muitas barreiras”.

Fábio Oliveira, 24 anos, explica ao #infomedia que “grandes nomes como Helena Almeida têm contribuído para a evolução da arte quer pintura ou performance e são artistas que aprofundam sempre de um ponto de vista muito diferentes. Assim, enriquecem tudo que é arte, ainda para mais quando vivemos num tempo em que a arte contemporânea se propaga a olhos vistos”. O aspirante a realizador de cinema acredita que “a mulher desempenha o papel de evolução”.

Eduardo Costa, 19 anos, atualmente estudante da licenciatura de Engenharia Informática no Instituto Superior de Engenharia do Porto, salienta a importância da mulher para os artistas. Para ele, “a maior parte dos artistas tinha como inspiração uma mulher, direta ou indiretamente”. E é Ana Rocha, de 24 anos e a exercer na área da Enfermagem, quem salienta a presença feminina na arte masculina, uma vez que “não há homem sem mulher. Eles precisam de mulheres para se sentirem inspirados e completos, sendo que a arte é a expressão dos seus pensamentos. Logo, se um homem tem a mulher no pensamento, irá sempre representá-la. Portanto, a mulher é a peça fundamental e essencial do puzzle da arte”.

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