Tu podes ser o próximo Jesus Cristo

Sete da matina.

Jesus Cristo acorda ao lado de Maria Madalena que ainda dorme.
Ao deparar-se com aquela face angelical, provavelmente a sonhar com uma lua de mel paradisíaca, decide tirar-lhe uma fotografia para publicar no Instagram, tal como havia feito nos dois dias anteriores.
De seguida dirige-se à cozinha e, enquanto come o último pedaço de pizza que restou da maratona de Anatomia de Grey, que fizeram na noite passada, prepara um crepe Ferrero Rocher para surpreender Maria. São namorados oficiais desde há duas semanas, mas amigos no Facebook há um ano.

”Jesus foi por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas-novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo.”  Mateus 4:23

Jesus, como se sabe, é um fazedor de milagres dotado de várias competências. Não seremos, certamente, capazes de lhe atribuir uma única profissão, pois consegue dominar um pouco de tudo. Na sua relação com Maria, num mundo moderno, Jesus é capaz de cozinhar os seus pratos favoritos, de lhe tirar as melhores fotografias e também de lhe esticar o cabelo.
Podemos pensar que isto se deve a um eventual défice de capacidade que ela poderá ter, mas não, Maria é bem capaz. Todos os dias leciona no ginásio da cidade, pois Maria é professora de fitness.

Numa era evoluída como a nossa, onde ser ateu ou budista é uma opção credível e cada vez mais usual, este legado de Jesus Cristo continua bem presente nas nossas vidas.

No amor, perdem-se os Don Juan e os heartbreak kids, ganham força os players e os velhos depravados (ou, noutra perspetiva, as meninas com queda para paixões por homens de idade milionários que se encontram na puberdade da reforma).
No trabalho, os cérebros caem perante as máquinas. Sobrevivem aqueles que se convertem em robot’s com sentimentos, embora esse sentimento só se faça sentir em horário pós-laboral.
Na escola, os rebeldes que fogem da matemática correm o risco de passar a vida entre a confeção de fast-food e o estágio a recibos verdes.
Na vida, a alma das coisas mendiga-se por todos os poros. Acabam os movimentos culturais que se fixaram durante vários anos e marcaram gerações, dando lugar a modas que para muitos duram uma semana, como a Baleia Azul.

“How in the hell could a man enjoy being awakened at 8:30 a.m. by an alarm clock, leap out of bed, dress, force-feed, shit, piss, brush teeth and hair, and fight traffic to get to a place where essentially you made lots of money for somebody else and were asked to be grateful for the opportunity to do so?’’  Charles Bukowski, Factotum

As pessoas  que pensam e vivem com alma, fora da caixa, perdem a voz e procura-se alguém que diga o que a maioria quer ouvir. A comunicação social, que devia ter um papel educativo para a sociedade, só pensa nos resultados imediatos e no conteúdo efémero; sustenta o interesse do povo com base no lucro e na popularidade.
Quer-se um ser pragmático, um Jesus Cristo que saiba adaptar-se, que vive na necessidade de outrém. Alguém que se desenrasca em todas as vertentes, mas não descobriu ainda a sua vocação, porque não tem realmente tempo para descobrir novos mundos e investir naquilo que o faz feliz.

Será cada vez mais difícil alguém seguir um caminho ímpar sendo genuíno e audaz, perpetuando os seus ideais e legado por toda a parte. O mundo não está acolhedor para os loucos e românticos, mas sim para os consensuais e formatados que se assumem como sensei, já que lhes é concedido o espaço suficiente para manipular o que deveria ser serviço público.
Impingem-nos desde cedo que é o caminho a seguir em busca de uma vida correta e feliz, alimentando a ganância e o ego de algo ou alguém, ignorando os nossos interesses.

De facto, toda a gente pode ser este Jesus Cristo.

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