Estou emocionado, “p’ra” caraças

Depois de o homem ter pisado a lua, em 1969, num programa televisivo bem aclamado, arrasou completamente com um dos grandes mitos à escala mundial: o do inalcançável. Afinal, os famosos, ou as figuras públicas, têm sentimentos banais, problemas e nem sempre a sua vida é um mar de rosas. Resta saber se também fazem cara feia na prática daquelas necessidades comuns a todos. É o melhor que têm para oferecer aos espetadores? Convidados cheios de experiências e, certamente, relíquias capazes de educar e sensibilizar quem vê, e acabam todos por usar uma máscara “a la” Gustavo Santos.
As pessoas adoram identificar-se com alguém que sinta o mesmo: choram, refletem e,  claro, também partilham estes testemunhos exclusivos e próprios dos entrevistados nas redes sociais.
Os excertos destas entrevistas estão para os sites brasileiros de citações como a Pull & Bear está para a Primark. Ambas pecam na qualidade da roupa, mas a Pull & Bear tem mais pinta.

A mudança está na cabeça das pessoas. Os movimentos sociais não tomam o poder. Eles dissolvem o poder por meio da transformação mental.  Manuel Castells

Serão mesmo as pessoas que escolhem o conteúdo disponibilizado pelas estações? Para além de serem espetadoras, o serviço é para elas. O grande objetivo é servi-las e conseguir o maior número de audiência. Nessa medida, o gosto e a cultura assente num país (e respetiva sociedade) é cultivado por todos e quem ganha é a maioria. Uma maioria que se entretém pelo fácil. Porque é fácil emocionar-se na estreia do quarto filme da saga Twilight ou pela lírica camoniana do novo hit dos D.A.M.A.

Há de toda uma complexidade nas coisas difíceis que, por serem difíceis, a maioria está disponível para dedicar o seu tempo, como filmes de Kurosawa ou uma música de Ray Charles. Complexo. A meta é aquilo que não custa a pensar, que se engole e o sabor transborda; tem de haver uma sensação imediata, caso contrário não presta.
A meta tem sido um trajeto pela reflexão, porque se reflete mais do que o que se pensa. Não há tempo para ir mais além e tentar descodificar toda a genialidade de um filme de Manoel de Oliveira, nem há paciência para descortinar a imensidão da música de Nina Simone.

De facto, não há espaço sem filtros naquilo que é dito como serviço público e cada um é cúmplice desta geração formatada. Mas, felizmente, temos bom coração. O que dizem os teus olhos?

A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar. Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

 

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