Cheira-me a caldo verde

Escrevo na esperança de não ser censurado pela PETA. Ou pela comunidade pré-vegan da Internet que acabou de ver o Cowspiracy e vetou a carne de entrar pelas suas entranhas.
Eu também passo a vida a deixar de fumar.

Não me maquilho, nem fumo rena (desconheço a origem desta substância, mas pelo nome certamente é anti-vegan), portanto, partindo deste raciocínio, posso ser considerado um vegan em construção. Mas não.
Não sou vegan, principalmente, porque me incomoda incomodar.
Imaginem lá ter que obrigar a minha avó, em pleno dia de Páscoa, a calçar umas galochas da Decathlon para ir à horta tirar uma couve-roxa para juntar à massa de soja que lhe pedi para fazer, quando recusei o seu cozido à portuguesa. Não posso colocar assim em causa o meu patriotismo e as cataratas da minha avó.
Também seria um enorme problema para mim prescindir do Paracetamol do qual faço uso, quer para uma simples dor de cabeça, quer para um derrame.

Respeito os vegans que acreditam no seu propósito e sentem, de verdade, esta religião, embora não consiga imaginar um vegan dos puros que não seja masoquista.

Como será o dia de um vegan?

8h30, pequeno almoço, tofu mexido.
Na hora seguinte, o seu estômago, a rugir, reproduz a banda sonora da batalha de Álcacer-Quibir.
9h38, três panquecas.
10h46, leve desmaio devido à fraqueza do corpo.
Descanso.
Almoço, 13h15, francesinha vegetariana.
14h, costura de uma roupa para usar no churrasco da noite, num convívio de amigos.
17h, rejeita a enésima chamada da farmacêutica, que lhe liga devido à vacina do tetano que tem em atraso desde os 12 anos.
19h, já com banho tomado, a caminho do churrasco, de carro até ao local. Aproximadamente 5km de distância.
22h30, chega ao churrasco atrasado mais de uma hora , porque, primeiro, travou a fundo evitando atropelar duas lagartixas e, a meio do caminho, saiu do carro e voluntariou-se para ajudar um ouriço cacheiro idoso a atravessar a rua.
23h04, retira da sua mala térmica biodegradável dois tupperwares para comer junto dos amigos. Num tupperware tem almôndegas de grão de bico com cuscuz e molho de tomate picante. No outro, coxinha de carne de caju.
23h58, ainda com fome, passa pelo McDrive, um McVegan.
00h26, chega a casa, depois do convívio. e reza três avé-marias, de modo a pedir perdão, por ter pisado quatro formigas que jogavam à sueca numa passadeira para peões.
02h47, finalmente dorme, depois de partilhar nas redes sociais a bomba nuclear que a Síria plantou no Parque da Cidade, que infetou cinco espécies de patos diferentes.

Sou, indubitavelmente, a favor de uma morte honrada e um destino feliz pós-vida dos animais, assim como o melhor trato possível para eles durante a mesma. No entanto, na gigante maioria das vezes, é impossível saber o percurso daquilo que vejo no prato e, por isso mesmo, na impossibilidade de ser o Messias dos animais, prezo bastante a xixa que deleita o meu paladar.
Por essas razões e para não colocar em causa a minha sobrevivência, sou um autêntico vegan falhado.
Mas, em contrapartida, falo sempre de barriga cheia.

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