Os teus segundos na estrada

Calma. Não tenhas pressa, não queiras ser o mais rápido e o primeiro. Respira fundo, não buzines tanto.  Deixa que eles passem por ti, que tenham a música alta, que não sigam todas as regras. Segue-as tu. Garante que cumpres tudo o que aprendeste, tudo o que o código te diz. Não te esqueças disto, acima de tudo: as coisas acontecem em segundos e, por vezes, um milésimo de segundo é tudo.

Esta poderia perfeitamente ser uma introdução de uma qualquer campanha publicitária. Poderiam acompanhar este artigo várias fotografias de acidentes automóveis originados pelos mais diversos motivos – telemóvel, efeito do álcool, distração. Mas não. Este é um artigo real carregado de histórias verídicas, memórias e mazelas que não se vão embora. É um alerta para ti. A ti que andas diariamente na estrada, que tiras uma selfie enquanto vais a 150 km/hora, que entras em corridas com o carro que te ultrapassa. A ti que passas por um camião sem tentares perceberes se há algum veículo à frente. A ti que tomas várias cervejas naquela festa, esquecendo-te que tens de ir de carro para casa. A ti que vais atualizando as redes sociais e respondendo à mensagem do teu mais-que-tudo. A ti, que por segundos, tiras os olhos da estrada. Não o faças de novo, por favor. Por ti, pelos outros condutores, por todos nós que andamos na estrada.

A estrada é ocupada por todos nós: pelo pai que leva o filho à escola, de manhã; pela mãe que está a chegar a casa do trabalho; pelo avô que vai buscar os netos à piscina e pela tua amiga que está a ir ver um jogo de futebol. O amigo com quem combinaste ir almoçar também vai lá ter de carro.  E não te podes esquecer que prometeste à tua prima que hoje a levavas ao ballet. Vês como partilhamos todos o mesmo espaço? Alguma destas pessoas tem culpa que o teu Facebook precise de ser atualizado? Ou que estejas demasiado ocupado a ouvir uma música e olhes para o lado enquanto ultrapassas a mais de 120 km/hora?

A condução é uma responsabilidade. A Automóvel Club de Portugal (ACP) – em informação disponibilizada no website, diz que a “ingestão não moderada de álcool acarreta graves consequências, nomeadamente ao nível dos inúmeros acidentes de viação”, uma vez que o consumo de álcool “diminui a coordenação motora e os reflexos, afectando as aptidões perceptivas e cognitivas, e, inevitavelmente, as nossas capacidades de antecipação, previsão e decisão”. O excesso de álcool é responsável por cerca de 17000 mortes, por ano. E números semelhantes são provocados por outros fatores, tais como: a fadiga e a sonolência – por exemplo, após 17/19 horas de privação de sono o desempenho dos condutores é semelhante aos que possuem uma TAS (taxa de álcool no sangue) de 0,50 g/l; toma de medicamentos que afetam o sistema nervoso, como ansiolíticos, sedativos, analgésicos, xaropes antitússicos, anti-histamínicos. E, ainda, estados de doença e emocionais alterados – tristeza, euforia, preocupação, stress.

A 3 de Dezembro de 2004, Paulo Bandeira, 46 anos, sofreu um grave acidente de viação. Enquanto seguia para Águeda, subindo uma via com duas faixas, foi atingido por um veículo que mudou para a faixa da esquerda, onde ele circulava. O veículo de Paulo rodopiou sobre si e foi projectado para a outra faixa rodoviária onde um camião lhe embateu. “Eu tive sorte”, reflete, “tive sorte por me ‘safar’ desta situação. E lamenta: “Infelizmente há tanta gente a morrer nas estradas, a ficar com sequelas irreversíveis, por vezes com acidentes menos aparatosos, e eu… estou aqui”. A experiência traumática mudou o rumo da sua vida.“Também tive sorte por passar por isto. Descobri um novo mundo. Um mundo onde a união e ligação das pessoas é um ponto fulcral para o nosso estado emocional e psicológico, mesmo pessoas que nós não conhecemos”. Paulo acredita que a mente humana é “alimentada pelas mentes positivas dos que nos rodeiam”, conseguindo assim “‘fazer milagres’, em situações delicadas”. É por isso que, segundo nos conta em testemunho-directo, é preciso “aproveitar cada segundo e cada momento para viver em pleno, sem nos chatearmos porque o nosso carro anda pouco, porque ganhamos mal, porque a vida é dura, por isto e por aquilo”.

Goreti Ribeiro, 54 anos, tem uma história de superação. O milénio tinha começado à pouco quando um acidente de viação levou a que amputasse a perna direita, submetendo-se a seis cirurgias na tentativa de não amputar a perna esquerda. “O sofrimento era muito e a recuperação era lenta devido às várias complicações que teimavam em complicar o desejado. Queria levantar-me mas havia sempre algo ou alguma coisa que [me] atirava para aquela maldita cadeira. Foram dois anos de cadeira de rodas em que me limitei a ver a vida passar”. Só quando conheceu a Associação Nacional de Amputados é que, através de um longo processo, de colocação de prótese, pôde dar um rumo diferente a esta história, provocada por uma distração na estrada.

Mari Almeida, de 39 anos, é também uma história de luta. Desde os 15 anos que tem a perna esquerda amputada como consequência de um acidente de mota. “Sinto-me como um exemplo de determinação e superação não só para pessoas com deficiência, mas para a grande maioria das pessoas que  me conhecem”, é assim que se define. A condução sob o efeito de álcool alterou o curso de Mari que, em 2016, representou o Brasil nos Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, na modalidade de vela adaptada. É também a atual recordista brasileira no salto em distância e no arremesso de dardo e foi a primeira desportista amputada a completar a prova de São Silvestre, com o auxílio de muletas, em 2012. A mãe de três filhos e também modelo fotográfico participa em várias campanhas publicitárias que visam a promoção de uma condução responsável e a consciencialização dos perigos na estrada.

Estas são histórias próximas. Dos nossos vizinhos, de familiares, possivelmente tuas, minhas. Também eu agi tal e qual como tu. Achei-me, por momentos, dona da estrada. Não andei à velocidade aconselhada e, provocada por outro carro que me ultrapassou pela direita, cedi. Falhou-me o controle sobre o meu carro e embati contra o muro central da auto-estrada. O resto da história é previsível: capotei por mais de 150 metros e o meu veículo só parou do outro lado da faixa de rodagem. INEM, bombeiros, polícia. Vim para casa com um colar cervical e um carro na sucata, o meu primeiro carro. “Quando fui junto ao seu carro, achei que iria ver lá uma pessoa morta”, disse-me um senhor que me prestou assistência, em primeira instância. “Não sei se acredita em Deus ou não mas que o que aconteceu aqui foi um milagre, aí isso foi”, ouvi da boca dos que viram o acidente e pararam para me ajudar. Tudo isto porque eu não fui responsável. Todos as noites sem dormir, todo o medo de voltar a conduzir, todo o nervosismo quando relembro a noite de 10 de março de 2017, apenas e só porque eu não tive o cuidado suficiente.

Agora lanço-te uma questão. Sim, a ti que neste ponto do artigo estás a rever todas as imprudências que cometes na estrada. Estás a pensar em todas as mensagens que envias enquanto conduzes, todos os snaps que repetes e que envias ao teu grupo de amigos. Queres que esta seja a tua próxima história?

Não bebas se fores conduzir; não excedas a velocidade indicada; não ultrapasses pela direita; não conduzas se tiveres sono. Tem cuidado. Lembra-te que a estrada é de todos. Não queiras ser a próxima notícia.

1 comment

  1. Marco Teixeira 21 Maio, 2017 at 14:42 Responder

    Parabéns pelo teu testemunho! Que tudo te corra bem e acredita que um desastre traz-nos uma janela aberta a brilhar a seguir. Grnde abraço!

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