Retrato. Fonte: Pixabay

A vida num contentor

Há vários casos de famílias carenciadas. Este é um deles. Foi numa sexta-feira de manhã que Rui pegou numa mochila com roupa e saiu de casa. De espontânea vontade procurou ajuda para enfrentar uma nova vida. Uma vida dura mas de sossego quando chega a casa.

Rui Silva (nome fictício) tem 56 anos. É alto, magro, tem cabelos brancos, e enquanto falava mostrava serenidade no olhar com as mãos entrelaçadas e um ligeiro sorriso no rosto. A vida decidiu pregar-lhe algumas partidas. A família desestruturou-se,  a relação com a companheira não estava a correr bem e atrás de uma discussão vinha sempre outra. “A minha mulher tinha problemas com o álcool e eu não estava a aguentar toda a pressão. Acabei por sair de casa, de livre vontade, sem dizer nada a ninguém, porque sabia que as coisas não estavam a correr bem”. Foi após esta decisão que perdeu o contacto com a mulher. “Cada um foi para o seu lado”, confessa Rui Silva.

Rui estava desempregado quando saiu de casa. Segundo a PORDATA, em 2016 haviam 573,000 indivíduos à procura de emprego em Portugal.
Depois de sair de casa deixou os cinco filhos para trás e não sabia o que fazer. Optou por recorrer ao apoio dado pela Câmara Municipal de Espinho para ajudar as famílias carenciadas e acolhê-las em apartamentos. “Pedi para me arranjarem uma casa, para mim e para o meu filho que tem 23 anos. Éramos para ir os dois, mas como não havia um t1 ficou sem efeito. Então vim pedir ajuda ao Manuel, onde estou agora”. Os filhos sabiam o que estava a acontecer e, apesar da decisão do pai, nunca lhe viraram as costas, sempre com a consciência de que estaria presente na vida deles, mas agora de uma forma diferente.  

Manuel Alves, sucateiro, já conhecia Rui “há cerca de 20 anos”. Quando lhe foi pedir ajuda, Manuel não pensou duas vezes. Deixou-o ficar num contentor que tem disponível. Rui confessa que “as condições não são as melhores, mas é a minha casa”.  Tem uma casa de banho e uma cozinha, onde coloca, todos os dias, um colchão para dormir. Isto em poucos metros quadrados, pouco maior do que uma pequena sala. Mas Rui não esquece as ajudas do amigo. “Só não dá mais porque como não tenho frigorífico as coisas estragam-se. Ele e a esposa são pessoas espetaculares, que ajudam muito e só não ajudam mais porque não podem. Se algum dia conseguir sair daqui, nunca vou deixar de trabalhar para eles”.

Apesar de já ter trabalhado “algumas horas” para Manuel Alves, a “tratar dos animais e arranjar peças para automóveis”, confessa que “as coisas não eram como são agora”. Após sair de casa e arranjar um local para viver, decidiu ir à procura de um trabalho e, com algum sacrifício, conseguiu. “Agora que tenho um trabalho na construção civil sei que vou ter um ordenado. Antes tinha apenas o dinheiro que ganhava aqui”.
Com o trabalho que arranjou pretende concretizar um sonho: ter a sua própria casa e poder receber os filhos, principalmente o mais novo, Manuel José, que neste momento está a estudar. “É o maior desejo que posso pedir por agora”.

Não foi a vida que escolheu para si, mas a vida num contentor permitiu que Rui tivesse uma casa, pois considera que ”é um abrigo, um lugar que me acolheu, é onde posso pensar no que me aconteceu”. A esperança faz parte do ser humano que é e acredita que aos poucos o futuro será melhor.

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