#Entrevista: O conservador-restaurador Marcos Muge e a nova escultura

Marcos Muge tem 48 anos e é natural da cidade de Ovar. Desde pequeno “sempre quis estar ligado às artes plásticas”. A curiosidade e o “interesse por saber como é que as obras de arte de há mil anos perduram até aos dias de hoje” levaram-no  a fazer uma formação em conservação e restauro.  Segundo o artista, a profissão dos conservadores e dos restauradores ainda tem “muitas cartas para dar”. Durante a entrevista, realizada junto à obra de arte, falou sobre a sua profissão e desvendou o que o levou a fazer a escultura “Mãos Divinas”.

Projeto “Mãos Divinas” de Marcos Muge

Projeto “Mãos Divinas” de Marcos Muge

#infomedia: Sendo conservador e restaurador como vê o papel da profissão? Pensa que é uma área que é pouco falada? Qual é a sua opinião sobre este assunto?

Marcos Muge (MM): As pessoas que trabalham nesta área têm de ter respeito e prazer por aquilo que desempenham, isto é, têm de dar sempre o seu melhor e fazer um trabalho rigoroso. É verdade, pouco se fala deste trabalho, mas penso que ainda não está esquecida, nem em declínio, porque ainda há muitos trabalhos de conservação e restauro.

#infomedia: Quais são os procedimentos e os cuidados que um conservador e restaurador devem ter antes de começar um projeto?

MM: Em conversação e restauro, primeiro temos de olhar a obra de arte, porque existem obras tão valiosas, que quase nem devem ser mexidas. Isto é, há obras que têm tanta qualidade que deve ser feito o mínimo possível, normalmente só é necessário uma limpeza. Se a peça for em madeira, pode precisar de um tratamento mais específico para não ser destruída pelos bichos. Mas isto requer uma boa capacidade de avaliação antes de iniciar o processo. Um bom artista analisa e só modifica aquilo que é necessário, assim funciona o método da conservação. Por sua vez, na técnica do restauro o especialista deve ter em conta o material que se vai acrescentar na obra de arte, para não a alterar e ter em conta o efeito reversível. Isto significa que em qualquer altura o cliente pode querer remover o material que foi aplicado e este sai facilmente. Alerto para o facto de ser necessário um relatório onde esteja todo o procedimento utilizado ao longo do projeto.

Trabalho de conservação e restauro, num altar, na Igreja Matriz de Ovar

#infomedia: Já recusou fazer algum trabalho por ver que não era necessário fazer uma intervenção?

MM: Eu intervenho nas peças sem qualquer problema e, para já, ainda não recusei nenhum trabalho, porque tenho a preocupação de ter uma conversa com o cliente, onde explico aquilo que deve ou não ser feito na obra de arte.

#infomedia: E quanto tempo demora a fazer um restauro ou conversação?

MM: Isso depende muito da peça e do estado em que ela está! Mas é um processo que pode demorar meses. Posso dar como exemplo o trabalho que fiz na igreja matriz de Ovar onde demorei mais de um ano.

#infomedia: Recentemente arriscou-se no campo da escultura. Como surgiu o projeto “Mãos Divinas”? Qual é a importância desta escultura visto que é o seu primeiro trabalho de raiz?

MM: Bem, tudo começou no dia 19 de janeiro de 2013, num dia de temporal. O vento e a chuva eram fortes e eu decidi ir à igreja ver como estava o meu  trabalho. Quando chego ao adro da igreja vejo árvores tombadas e ramos espalhados pelo chão que pertenciam as árvores envolvidas no projeto. Neste espaço de tempo e ao olhar para as árvores tive a visão das esculturas. No dia 21, segunda-feira, fui à câmara municipal, pedir aos responsáveis pela manutenção do jardim, para não cortarem as árvores, porque eu ia esculpi-las. No mês de agosto iniciei o projeto. Peguei em andaimes e coloquei em volta das árvores. Estava muito ansioso, porque nunca tinha esculpido uma árvore, nem nunca tinha trabalhado uma escultura a motosserra. Além disso, sabia que as árvores tinham perto de 150 anos e que eram muito especiais, por serem em madeira de cedro, que é uma madeira bíblica e simboliza a longevidade. Com estas informações decidi fazer uma interpretação de temas bíblicos apenas com mãos, que é uma coisa completamente diferente, ou seja, estou a tentar fazer uma nova linguagem plástica que ficará para os vindouros. O nome desta escultura surgiu por causa de todos os fatores apontados e porque acredito que isto teve algo divino.

Processo de construção da escultura “Mãos Divinas” de Marcos Muge

#infomedia: E qual é a sua perspetiva para esta escultura?

MM: Esta escultura tem uma base que é bastante desgastante. A madeira de cedro carece de uma boa manutenção, além disso a escultura encontra-se ao ar livre, e o clima, chuva, sol, frio, não ajuda na sua conservação. Por isso cabe aos vindouros preservar esta obra de arte. Eles têm três alternativas: ou deixam-na no próprio local colocando umas proteções, por exemplo em acrílico; ou retiram-na daqui e colocam num lugar seguro, por exemplo um museu; ou então destroem-na.

 

Atelier Marcos Muge:

Morada – Rua Ferreira Menéres, nº63 Ovar

Contacto – 917136112

Email – muge.marcos@gmail.com

Site – http://www.studentsoftheworld.info/sites/arts/marcos-muge.php

Deixa um comentário