#desportoemsutiã com Jéssica Rocha

“Se és boa no que fazes, não há margem para ‘preconceito’”

 

Falar com a Jéssica Rocha não é fácil: não pela ocupação e colisão das agendas, não pela dificuldade em fazer perguntas, não pela necessidade de pedir que desenvolva as respostas. É difícil porque há muito para falar: tanto podemos conhecer a jovem desportista que desde a escola primária tem o hábito de jogar à bola com os rapazes, ou a mulher recém-licenciada em Jornalismo que após terminar o curso começou a “formar um roteiro de desportos alternativos para dar a conhecer através das [minhas] reportagens”. Com 23 anos, agradece o apoio à família que nem por um segundo, deixaram de me apoiar”. Ao #infomedia, numa entrevista por e-mail, Jéssica contou acreditar que “há cada vez mais uma homogeneidade desportiva”, lamentando que a agenda semanal – “pessoal e profissional” – só lhe permita “treinar uma vez por semana”. Aos mais jovens, deixa o conselho – ainda que não goste de os deixar – de manter a humildade como um foco, uma vez que “temos tanto a aprender uns com os outros”, afirma. Segundo a desportista, esta é uma mensagem importante não só “no jornalismo, no desporto” mas também “na vida”.

 

P: Como surgiu o teu interesse pelo desporto?

R: É difícil dizer concretamente onde e quando tudo começou. A verdade é que nascemos todos com aquela veia de CR7 a pontear a barriga da mãe, mas acho que não foi aí que tudo despoletou. Recordo-me de, já na escola primária, enquanto todas as meninas andavam a colocar o seu lado de cabeleireira em prática, penteando harmoniosamente as suas bonecas, eu dedicava-me a almoçar rápido para ir fazer concursos de guarda-redes com os rapazes. Acho que é um forte indício de onde esta ligação começou…

P: Que desportos já praticaste? Hoje em dia, praticas algum? Qual?

R: Andava eu no 6º ano quando comecei a ter como atividade extracurricular o primeiro desporto em que me aventurei: o andebol. A verdade é que foi uma espécie de amor à primeira vista, ao qual me mantive fiel até que começaram as lesões “à séria”, a falta de tempo, a faculdade…era um amor em decadência que não resistiu. Já no último ano de faculdade, e por culpa da Unidade Curricular Jornalismo Televisivo, melhor dizendo, por culpa da audácia do prof. Hélder Silva, que nos atirava aos leões todas as semanas, com uma reportagem televisiva, conheci o meu atual, e acho que efetivamente, verdadeiro amor desportivo: o futebol Americano. É como se diz…a cada dia, descubro e gosto ainda mais deste desporto.

P: E tens alguma rotina de treino ou de prática de exercício físico?

R: Poderia “pintar-me” e dizer que sou a sócia do mês do ginásio da minha zona, ou que conheço os trilhos do parque da cidade como a Rosa Mota conhecia todas as pistas em que venceu a maratona, mas não seria verdade. Neste momento, a minha agenda pessoal e profissional só me permite treinar uma vez por semana. Não há desculpas, eu sei. Ao domingo, logo pela manhã, é dia de futebol americano. E, apesar de ser apenas uma vez por semana, vale pelos treinos de uma semana inteira. Física e psicologicamente.

P: Qual acreditas ter sido a maior dificuldade quando entraste neste desporto? A tua família sempre aceitou os desportos que praticaste?

R: A maior dificuldade quando comecei com este projeto – criação da primeira equipa de futebol americano feminina, em Portugal, as Mutts Women – foi arranjar “corajosas” que entrassem de “cabeça” comigo. O Futebol Americano é um desporto desconhecido para a maioria das pessoas, pelo menos pelo que me tenho apercebido durante estes dois anos de contacto com a modalidade. Por outro lado, há quem conheça, mas com uma conotação muito negativa. O futebol americano não é só “pancadaria”, aliás, é um jogo que requer bastante inteligência…e um desporto pelo qual te apaixonas muito facilmente!

Tive muita sorte com os pais que me “calharam na rifa”. Por outro lado, eles já não podem dizer o mesmo. Sempre tive uma mente revolucionária – acho que as Mutts Women falam por si – e eles, nem por um segundo, deixaram de me apoiar. A minha mãe, ainda que sempre de coração nas mãos, fica orgulhosa a cada conquista, lembrando-me sempre que as chuteiras estão na varanda: “não te esqueças delas”! Já o meu pai, apesar de ser mais reservado, não esconde o orgulho, sempre que me pergunta se hoje é dia de jogar com o “melão” (nome que ele dá à bola oval de futebol americano).

P: Alguma vez sentiste preconceito, por parte de amigos ou desconhecidos?

R: Nunca! No andebol sempre foi tudo muito neutro. Apesar de nos escalões seniores se verem várias disparidades em termos de apoios financeiros e de profissionalismo – com todas as condições que esta palavra implica – da modalidade, nunca tive percepção de situações menos agradáveis por ser mulher. Agora, no futebol americano, por incrível que pareça, a questão coloca-se ao contrário: sentes reconhecimento? A resposta é rápida e simples: muito! Não sei se é por ser um desporto associado a homens, lá está, mas é incrível a admiração e apoio que sentes por quem te vê jogar. Há muita gente, homens e mulheres, a reconhecerem o trabalho – neste caso falo pelas mulheres com quem treino – das Mutts Women. Treinamos semanalmente, desde a nossa formação, com homens e nunca, e não estou a dourar nada, nunca sentimos qualquer tipo de marginalização. Na minha opinião, hoje em dia, já não podemos falar nesse preconceito/sexismo…o que lhe queiram chamar. Há cada vez mais uma homogeneidade desportiva. Se és boa no que fazes, não há margem para “preconceito”!

 

P: A nível profissional, que relação tens com o desporto?

R: Quando decidi que queria dar voz aos outros – leia-se “ser jornalista” -, dois cenários se  formaram na minha cabeça: jornalismo de Guerra e jornalismo desportivo. Como ainda estou na fase de experimentação, e a guerra convém manter-se longe, comecei a formar um roteiro de desportos alternativos para dar a conhecer através das minhas reportagens. Futebol Americano, Roller Derby, Downhill, Hóquei, Pólo Aquático, Ginásio…mas foi com o futebol americano e o futsal que me “instalei” mais profissionalmente. Neste momento, estou vinculada aos Mutts – equipa de futebol americano masculino -, acompanhando-os nacional e internacionalmente. Produzo conteúdos multimédia, faço reportagens vídeo e dou uma pequena ajuda na gestão das redes sociais.

P: Consideras que é fácil uma mulher afirmar-se enquanto profissional no desporto?

R: Mais uma vez, coloca-se a questão do “seres boa no que fazes”. Claro que se falarmos de nomes de jornalistas sonantes no mundo do desporto, vêm-te sempre à mente nomes masculinos. Ainda há alguma ideia de que “as mulheres não percebem nada de desporto”. Mas e então a Cláudia Lopes, uma referência no jornalismo desportivo da televisão nacional? E a Cláudia Martins, mentora do site Zero.Zero, a bíblia online do futebol? Apesar de serem as duas Cláudia, não é este o segredo. O segredo, que não é segredo nenhum, é fazeres um jornalismo isento, imparcial, mas, acima de tudo, colocares todo o amor que tens à profissão em tudo o que fazes! Não há machismo que ganhe a um bom jornalismo no feminino! Mas, e também não vou estar aqui a enganar ninguém: é difícil. É. Mas é aqui que tens de mostrar a garra que caracteriza as mulheres, indo à luta, sem esperar que as coisas aconteçam. Trabalhar muito, é o segredo. E até é giro, ver uma mulher entendida, num mundo que o vulgo julga ser de homens.

 

P: Como está o panorama do jornalismo desportivo feminino, atualmente?

R: Há uma ascensão das mulheres no mundo do desporto, é inegável. Há uns anos, era quase impensável veres uma mulher a apresentar, a comentar, desporto. Nos canais generalistas não conseguimos ter tanto esta percepção, mas nos canais ligados aos “três grandes”, já é mais fácil apercebemo-nos. Por exemplo, no Porto Canal, a Ana Filipa Gomes, está sempre a acompanhar os jogos de andebol, participando ativamente no relato feito durante a partida. Na Sporting Tv, durante a final four do futsal, foi sempre uma jornalista a acompanhar os jogos. Até como moderadoras em debates desportivos já conseguimos ver as mulheres a “usar as calças”! Há cada vez mais “ar fresco” nesta área e não é só graças “às carinhas larocas”, como se julga. Cada vez mais nos começamos a afirmar neste mundo, mostrando que, se calhar, não é só de homens. Aqui o Adão também vem beber alguma – eu acho que muita, aliás! – sabedoria à Eva.

P: Por último: que conselho podes deixar para as jovens mulheres que queiram entrar no mundo do desporto? E as que o queiram fazer a nível profissional?

R: Não gosto de lhe chamar conselhos, porque não sou exemplo para ninguém, mas há coisas basilares que penso que todos deveríamos seguir. Primeiro, e uma lição que levo na vida: não fazer nada pela metade. Se queremos, devemos ir à luta! Não esperar nada de ninguém. É difícil, mas tudo tem outro sabor quando sentimos na pele o sacrifício e o reconhecimento pelo mesmo. Segundo, respeitar sempre os outros, pois toda a gente, e não é cliché, sabe sempre algo que nós não sabemos. Temos tanto a aprender uns com os outros. E esqueçam títulos. Aqui somos o Manuel, a Maria, a Inês a Jéssica: pessoas! Humildade é a palavra chave. No jornalismo, no desporto, na vida! Por muito que a corrente vá para sul, por que não, dar umas braçadas para norte, se é essa a nossa visão?

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