Chris Cornell e a morte dos nossos heróis

Já se passaram 3 semanas desde que a notícia da trágica e inesperada morte de Chris Cornell deixou o mundo da música em estado de choque. O mítico líder dos Soundgarden – que também ofereceu os seus talentos a projectos como Temple Of The Dog ou Audioslave – foi sem dúvida uma das mais icónicas vozes e mais respeitadas mentes criativas da sua era.

Os tributos a Cornell já apareceram em quase todos os cantos do mundo. Família e amigos próximos, companheiros de banda e outros artistas prestaram as suas homenagens e despedidas, cada um à sua maneira mas todos com o mesmo sentimento. Uma semana após a sua morte, no passado dia 23 de Maio, um grupo coral oriundo do Canadá e composto por 225 pessoas cantou “Black Hole Sun” – talvez o maior sucesso comercial dos Soundgarden –, num tributo emocional e marcante.  Na noite de 3 de Junho, num concerto dado na Alemanha, o vocalista Serj Tankian juntou-se à banda Prophets Of Rage – que conta com os três músicos que partilharam o palco com Cornell nos Audioslave – para cantar a famosa e muito celebrada “Like a Stone”.

Mas o tributo que certamente terá causado maior impacto foi o de Eddie Vedder. O líder dos Pearl Jam, que colaborou com Chris em fases iniciais da carreira e cultivou uma forte e significativa amizade com ele desde o ínicio dos anos 90, deu um concerto no dia 27 de Maio no qual se mostrou visivelmente abalado. O espectáculo durou quase 3 horas, e segundo um dos membros da audiência confidenciou, todo ele “foi praticamente sobre o Chris sem ele alguma vez ter sido directamente mencionado.”

“Dava para ver que o Eddie não se encontrava em condições de falar muito sobre o assunto”, continuou. “Ele mencionou como o processo de cura pode começar com a música, e fez várias referências ao sofrimento que estava a enfrentar. Por vezes, parecia que estava a um passo ou dois de começar a chorar incontrolavelmente. Foi desconsolador, mas também uma das mais corajosas actuações possíveis”. Músicas como “Immortality” ou “The End” carregaram naquela noite um tom muito mais intenso, sentido profundamente tanto por Vedder como pela plateia.

Agora resta fazer o luto pela sua morte. É um processo moroso e assustador, tanto para os colegas, que coloriram de perto a sua viagem, como para nós. Nunca estive com ele em pessoa, mas sinto que o conhecia muito bem. Melhor ainda: sinto que ele me conhecia a mim. Sinto que o Chris sabia precisamente quais eram os meus problemas e inseguranças, quais as minhas tristezas e os meus medos. Cantava sobre eles, e oferecia uma voz a essas tragédias com um poder, alcance e criatividade que poucos conseguiriam igualar por mais que tentassem. Fazia-o com uma honestidade inexprimível, e ajudava-me a ver que, por mais que as adversidades parecessem impossíveis de superar, eu não estava sozinho no mundo. Ele estava a passar pelo mesmo, e estávamos os dois a tentar descobrir o que fazer com a nossa vida.

Tinha o hábito de dizer – presumivelmente em tom de brincadeira – que os Soundgarden tinham sido uma das várias bandas que salvaram a minha vida durante a escola secundária. Agora penso se havia um tom de confessionalismo por detrás de tudo isto. Agora realmente posso perceber a importância que ele tinha, a falta que faz e o vazio que deixou. Não só em mim, mas em tantos outros fãs como eu.

Para trás fica a sua música, e é através desta que o seu legado se manterá vivo. E mesmo perante a possibilidade de nunca mais ser capaz de ouvir músicas icónicas como “Fell On Black Days” ou “Say Hello To Heaven” da mesma maneira, a sua voz continuará a ser um conforto para milhões. Não faz sentido lembrá-lo pelos sofrimentos que teve de suportar e pela fatalidade do seu fim. Faz sentido lembrá-lo pelo homem engraçado e inteligente que era, pela fonte inesgotável de inspiração que foi e continuará a ser. Ainda assim, a dor é enorme. Nunca pensei que viesse a escrever estas palavras para ele, ainda para mais tão cedo. Sinto que perdi um enorme amigo. Na verdade, perdi mesmo.

“Here in the cold
Where no one stands behind me
I’ll be on my own side
You know where to find me”

Soundgarden, “A Thousand Days Before”.

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