Miopia, a epidemia do século XXI

Ana Silva vê mal ao longe desde os três anos de idade, confessa que “ já tem uma coleção de óculos ao longo dos anos” e que as lentes de contacto que atualmente usa, “são muito confortáveis e práticas” e não corre o risco “ de esmagar os óculos ou parti-los como já algumas vezes aconteceu”.

Explica que o irmão teve uma graduação de miopia muito elevada e no ano passado submeteu-se a uma intervenção cirúrgica para colocação de lentes interoculares. “ O meu irmão tinha perto de 20 dioptrias em cada olho, não era possível ser realizada uma cirurgia a laser, teve mesmo de ser a córnea do olho circuncidada para colocar as lentes”, acrescenta.

“ A cirurgia a laser, solução que quero fazer quando a minha miopia estabilizar não era possível no meu irmão, pois as dioptrias que tinha não são tratáveis com essa correção a laser e exige sim, uma intervenção mais agressiva e perigosa mas que proporciona ótimos resultados! Atualmente o meu irmão vê melhor que eu, fico feliz por ele, mas nunca achei possível esse cenário. Os avanços tecnológicos são incríveis!”, enfatiza.

Ana acha que a miopia no seu caso é relacionada a questões hereditárias. Não acredita que com três anos, numa altura em que não existiam telemóveis, computadores e videojogos tão acessíveis às crianças quanto atualmente, fosse o fator prejudicial para ser diagnosticada esta patologia.

Para além do irmão ter miopia, o pai também usa óculos com lentes progressivas, e ela tem quase cinco dioptrias em cada olho. Ao longo dos anos até atingir o pico da adolescência, a miopia foi agravando-se. É hoje o dia que aguarda, ansiosamente, que a sua graduação estabilize para puder se submeter à intervenção tão desejada.

“ Quero muito ver naturalmente, sinto que as lentes ou os óculos provocam-me uma visão artificial. Vejo a 100% quando coloco um deles mas quando os tiro, sinto que o mundo ao meu redor não tem qualquer detalhe ou cor…”, sintetiza.

Segundo um estudo da revista NATURE, até ao final desta década 2,5 mil milhões de pessoas terão problemas de miopia no mundo. Quer nos Estados Unidos quer na Europa, metade dos jovens adultos já sofre de miopia. Na Ásia cerca de 90% das pessoas já lidam com este problema.

Hoje em dia existe um aumento exponencial da incidência desta patologia entre adultos e jovens nos últimos anos. As maiores causas são o uso constante de dispositivos eletrónicos e a diminuição das atividades ao ar livre.

Em Portugal, a miopia atinge cerca de 25% da população o que representa cerca de 2,5 milhões de pessoas. Contudo, incidência pode vir a aumentar entre os mais jovens devido ao estilo de vida atual, que leva a passar a maior parte do tempo em espaços fechados.

 

O que é miopia?

A miopia é um erro refrativo do globo ocular no qual a imagem dos objetos no olho é focada incorretamente, isto é, os objetos são focados à frente da retina, fazendo com que a visão dos objetos distantes pareça turva.

 

Tipo de Miopia

Convém distinguir duas dimensões da miopia:

Miopia simples, ligeira ou moderada que representa até 6 dioptrias, que se corrige com o uso de óculos, lentes de contato ou cirurgia.

Miopia elevada, acima das 6 dioptrias, também corrigida com os mesmo métodos, mas que, muitas vezes, vem acompanhada de complicações oftalmológicas sérias, como o deslocamento da retina ou baixa visão por alterações graves na retina, por exemplo.

 

Míope – significado

O míope é o individuo que padece de miopia e que apresenta dificuldade em ver ao longe. Um doente míope pode ler facilmente a tabela de Jaeger (leitura de perto), mas possui dificuldades para ler a tabela de Snellen (leitura de longe).

 

Sintomas

Um dos principais sintomas da miopia é ver mal ao longe. Uma pessoa míope vê claramente os objetos próximos, todavia os objetos distantes ficam turvos. Semicerrar os olhos pode fazer com que os objetos distantes pareçam mais nítidos.

 

Frequentemente, a miopia é notada pela primeira vez nas crianças na escola. Muitas vezes, as crianças não conseguem ver perfeitamente para o quadro, contudo conseguem ler um livro facilmente (diferença entre visão de perto e de longe).

 

A miopia vai piorando com a idade. Os míopes necessitam de trocar de óculos ou lentes de contato com frequência. Normalmente, a miopia estabiliza aos 20 anos de idade.

 

Outros sinais e sintomas da miopia podem surgir, como por exemplo, a fadiga ocular (“vista cansada”), dores de cabeça e o semicerrar dos olhos para ver melhor. Veja, de seguida, o que causa a miopia.

 

Causas

Embora se desconheçam de forma exata as causas da miopia, é sabido que as pessoas com história familiar de miopia apresentam mais probabilidade de vir a desenvolvê-la. A miopia afeta homens e mulheres de igual forma.

As causas da miopia podem ser três:

1º Alteração da curvatura da córnea (a mais frequente), isto é, a córnea é mais curva que o normal e leva à formação da imagem dos objetos antes de chegar à retina.

 

Axial – a miopia ocorre quando o comprimento do olho é maior do que o comprimento ótico. Tratam-se de miopias de grau elevadas e, geralmente, evolutivas ao longo da vida.

 

3º Miopia de índice – é uma miopia tardia que aparece, normalmente, depois dos 60 anos, quando as pessoas têm cataratas nucleares. Estas levam ao aumento do índice refrativo do cristalino, permitindo uma boa acuidade visual ao perto, mesmo sem óculos.

 

Diagnóstico

Relativamente ao diagnóstico da miopia, existem diferentes exames que devem ser efetuados. O exame oftalmológico, pode incluir:

Teste de refração para determinar o grau correto do erro refrativo;

Acuidade visual à distância (Snellen) e de perto (Jaeger);

Exame da retina, mácula e disco ótico;

Exame na lâmpada de fenda do segmento anterior do olho;

Medição da pressão ocular (Tonometria);

Teste de visão das cores;

Testes dos movimentos oculares;

Pentacam (mapas topográficos e paquimetria).

Graus de miopia – dioptrias

Miopia degenerativa

A maioria dos casos de olhos com miopia são saudáveis, mas um pequeno número de pessoas com miopia desenvolve uma forma de degenerescência da retina, designada por miopia degenerativa ou maligna. A miopia degenerativa também é conhecida como miopia progressiva ou miopia patológica, sendo uma importante causa de cegueira nos países desenvolvidos. Trata-se, por isso, de um tipo de miopia grave.

A alta miopia está, muitas vezes, associada com o alongamento excessivo e progressivo do olho que resulta numa multiplicidade de alterações fundoscópicas associadas a diferentes graus de perda visual.

Este tipo de miopia é, normalmente, acompanhada de lesões retinianas (membranas neo-vasculares) com consequências graves na visão dos doentes. Estas lesões neo-vasculares são tratadas, habitualmente, com substâncias anti-angiogénicas com bons resultados, na maioria dos casos.

Miopia infantil

Atribui-se a designação de miopia infantil quando o erro refrativo afeta as crianças. Até aos 5 anos, 1% das crianças padecem de miopia. Aos 10 anos sobe para os 8% e aos 15 anos aumenta para 15% o número de crianças com miopia. A miopia infantil é ligeiramente mais frequente no sexo feminino.

O fator genético é importante, mas não é o único nas causas para a miopia infantil. Caso os pais sejam míopes, provavelmente, os filhos também serão míopes.

É importante que os pais estejam atentos a eventuais sinais e sintomas e efetuar consulta com o médico oftalmologista para despiste de eventuais erros refrativos.

 

Tratamentos

A miopia não tem cura, contudo, se corretamente diagnosticada pode ser tratada de modo a corrigir o erro refrativo. Os meios para corrigir a miopia, na atualidade, permitem restituir uma vida perfeitamente normal aos míopes. De igual modo, a miopia com astigmatismo também não tem cura, mas podem ser corrigidos os dois erros refrativos, restabelecendo uma boa acuidade visual aos doentes.

 

Correção de miopia

No que diz respeito ao tratamento ou correção da miopia, esta pode ser corrigida com óculos, essencialmente, até aos quinze anos de vida, podendo a partir desta idade também ser tratada com lentes de contacto.

A correção da miopia através de cirurgia também é possível depois dos vinte anos e caso a miopia esteja estabilizada (veja mais em tratamento cirúrgico).

O médico oftalmologista, após uma observação atenta do doente e dos resultados dos exames, deverá decidir qual o tratamento para miopia mais indicado. Ou seja, existem diferentes formas para corrigir a miopia, sendo que a melhor solução para um dado doente, pode não o ser para outro.

 

Cirurgia

A partir dos vinte anos, caso a miopia esteja estabilizada, esta pode ser corrigida através de laser (cirurgia de miopia LASIK ou PRK) até às 8 dioptrias ou através de lentes intra-oculares de câmara anterior ou posterior, se não existir indicação para cirurgia a laser.

A miopia pode também ser corrigida em doentes com mais de 45-50 anos através de lentes intra-oculares multifocais colocadas no saco capsular após facoemulsificação.

Os resultados são ótimos se tivermos em linha de conta as indicações e contra-indicações das técnicas cirúrgicas, embora nem todos os doentes possam ser sujeitos a este tipo de cirurgia. Os maiores riscos e complicações estão mesmo relacionados com a má seleção dos doentes a serem submetidos a este tipo de intervenção cirúrgica.

 

Sociedade Portuguesa de Oftalmologia

A SPO foi fundada em 1939 com o objectivo zela para que não seja posta em risco a saúde das pessoas, nomeadamente através da prática de atos médicos por profissionais não médicos ligados a atividades meramente instrumentais em relação à oftalmologia e aqui encontra todo o possível apoio que necessite.

http://www.spoftalmologia.pt/

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