Ele o campeão, ela a porca

Os tempos mudaram – mas terão mudado assim tanto? Muitos dos nossos comportamentos continuam a ser monitorizados por olhares alheios e vítimas de julgamento pelos outros. As redes sociais, como que um Big Brother nas nossas vidas, só aumentou essa facilidade de controlo. Expomos o nosso dia, as nossas fotografias, e do lado de lá alguém observa, analisa cada pormenor, e julga. Julga o sorriso que tens na cara – “porque estás tu feliz, afinal?”; julga aquela fotografia na praia porque até tens um exame amanhã e devias estar a estudar; julga a roupa que tens vestida – “não tinhas nada mais curto, a sério?”. O julgamento está lá, às vezes até na hipocrisia de um like.

Mas este artigo não é sobre a nossa vida on-line e como a escolhemos ou não viver. Este artigo é sobre três elementos-chave: as conquistas, a desigualdade de género e uma sociedade crítica. Haverá uma diferença na forma como são vistas as conquistas masculinas e femininas? Será ele, de facto, um campeão que consegue muitas raparigas e ela uma porca porque se envolve com muitos rapazes?

Foi isso mesmo que o #infomedia procurou descobrir, num inquérito feito a 23 jovens – 12 raparigas e 11 rapazes. O inquérito funcionou on-line, com base no anonimato para que não houvesse uma tentativa de “parecer bem na figura” e todos fossem o mais honestos possível. Gostaria de trazer a boa nova de que somos todos uns porreiraços e que ninguém se importa com o que cada um faz, a vida é de quem a vive. Mas infelizmente os resultados foram assustadores.

As perguntas realizadas não foram de escolha múltipla. Apelaram a uma resposta, a uma perspetiva mais ou menos detalhada. Quatro delas eram de cariz pessoal – como viam um rapaz e uma rapariga que conquista muitas pessoas e como viam aqueles que não se envolviam, aparentemente, com ninguém. Duas delas, uma sobre o rapaz e outra sobre a rapariga, questionavam num nível mais geral, se há ou não um preconceito enraizado na sociedade. E, por último, se alguma vez julgaram consoante a vida amorosa de alguém e como se vêem a si próprios.

Das 23 respostas conseguidas, 16 são julgadoras (oito rapazes e oito raparigas). As raparigas são vistas como umas porcas, umas fáceis, umas sheilas (que popularmente este termo significa prostituta), que não se valorizam a elas próprias, desavergonhadas, “umas quaisquer”. Eles são os reis, os garanhões, os bagaceiros (alguém que anda com muitas meninas apelidadas de bagaços), os maiores, “os verdadeiros galãs”. E se não querem ninguém, elas é porque são feias, e eles gays.

Apenas sete dos questionados assumiram que não têm nada a ver com isso, que cada rapariga e cada rapaz sabe de si, e eles não são ninguém para julgar.

Todos assumem que socialmente as raparigas não são bem vistas e os rapazes, por outro lado, são felicitados pelo sucesso no engate. Alguns assumem o fardo de algo que não é possível mudar, enquanto outros apelam a que essa sociedade crítica se altere, que não faz mais sentido ser assim.

Individualmente, e numa perspetiva própria sobre si mesmos, apenas oito disseram nunca ter julgado alguém consoante a vida amorosa. Porém, seis deles apresentaram espírito crítico e feroz nas respostas anteriores.

Em resumo, apenas dois inquiridos se manifestaram completamente indiferentes com a forma de cada um viver a vida.  

A, ainda, desigualdade entre homem e mulher encontra-se na música de Lily Allen, “Hard Out Here”. A cantora mostra-se revoltada com as diferenças ainda existentes consoante o género, por exemplo, no seguinte excerto:
If I told you ‘bout my sex life, you’d call me a slut/ When boys be talkin’ about their bitches, no one’s makin’ a fuss.*

Já o grupo Oasis, em Whatever, diz-nos que somos livres – livres de sermos, fazermos e dizermos o que quisermos:
I’m free to be whatever I, whatever I choose and I’ll sing the blues if I want. I’m free to say whatever I, whatever I like, if it’s wrong or right it’s alright.*

*Se eu te falar da minha vida sexual, chamas-me p*ta/ Enquanto que os rapazes falam das suas “gajas” e ninguém liga a isso.
*Sou livre para ser o que eu escolher ser e cantarei os blues se quiser. Sou livre para dizer o que gosto, certo ou errado, está tudo bem.

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