A extinção do Internacionalismo revela-se uma imposição?

Ao longo do milénio, a cooperação económica e política tem apresentado um entendimento bastante crítico. O historiador alemão Mark Mazower na sua obra “A Governação do Mundo: A História de uma ideia” repensa a questão problemática desde 1815, que é igualmente abordada por Miguel Bandeira Jerónimo e José Pedro no prefácio rigoroso da tradução portuguesa, lançada oficialmente em 2012.

A corrente política que atende a uma maior cooperação económica e política entre nações, com a finalidade de edificar um benefício mútuo, tem sido alvo de muitos desacordos. O Internacionalismo, intensificado desde a década de 90, com a formação da Liga Comunista Internacionalista (LCI), afirma a necessidade das nações em retirar vantagens recíprocas, através do foco político de longo prazo, que permitam o envolvimento de todos os países.

Segundo Mark Mazower, “Os historiadores cujos escritos celebram o internacionalismo como o triunfo gradual de um sentimento virtuoso de comunidade global não costumam considerar que valha a pena fazer esta pergunta, e o mesmo acontece, de forma controversa, com os especialistas que consideram as instituições meras máscaras dos desígnios das Grandes Potências.”, revela o historiador na obra.

Obra na versão portuguesa, oficializada em 2012.

O livro evidencia um conjunto de problemas históricos e historiográficos pertencentes ao passado e ao presente que revelam uma informação muito ponderada e estudada.

Segundo as reflexões que o autor vai apresentando ao longo da sua obra,  as Grandes Potências nunca sentiram a necessidade de obter auxílio de entidades como a Liga das Nações, o Comintern ou a ONU. E, devido a tal, necessita de uma explicação que permita compreender o investimento e capital político que os britânicos e americanos incitaram na criação de instituições internacionais.

De acordo com a pré-publicação de Miguel Bandeira Jerónimo e José Pedro Monteiro,  “Apesar das suas limitações, em parte determinadas pelo seu apreciável alcance histórico e pela riqueza de tradições intelectuais e instituições que examina, “A Governação do Mundo” providencia instrumentos indispensáveis para uma reapreciação crítica da história do internacionalismo, do diálogo, da cooperação, mas também dos conflitos internacionais.”

A obra é resultante de uma investigação minuciosa que tenta compreender uma evolução delineada por limites cronológicos, geográficos e temáticos, destacando-se pela rigorosidade e pela prática experimental que se vai edificando ao longo da mesma.

Os professores e historiadores portugueses destacam a crítica aos nacionalismos disfarçados que surgem em consonância com o desconstruir dos discursos internacionalistas, assumindo-se politicamente essenciais e “sempre autorizados por oráculos da nação” que, como os mesmos afirmam, apenas procuram o reconhecimento público ou institucional e o desmembramento do intitulado “globalismo”.

Atendendo às perspetivas edificadas ao longo do livro, o término do internacionalismo revela-se mais próximo do que nunca, algo que vem a apresentar uma evolução desde o século XIX. Sendo um livro escrito no período trágico da crise financeira mundial, seguindo-se às crises europeias que se iam evidenciando, a obra na versão portuguesa revela ainda as intervenções norte-americanas no Iraque e Afeganistão e a intervenção aérea da NATO na Líbia.

Os investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra afirmam ainda que, “As sucessivas operações de contextualização histórica e geopolítica dificultam julgamentos mais precipitados, ou instrumentalizações calculadas. A debilidade de visões triunfalistas ou catastrofistas, em ambos os casos teleológicas, dos vários internacionalismos que emergiram nos últimos dois séculos é exposta.”

Um “Einstein” da História Contemporânea?

O historiador da Europa contemporânea, focando-se inicialmente período da Segunda Guerra Mundial na zona dos Balcãs, contraiu os esforços para revelar visões renovadas e detentoras de veracidade da história do continente. Autor de obras como “Dark Continent: Europe’s Twentieth Century” (1998) e “What You Did Not Tell: A Russian Past and the Journey Home” (2017), sendo a sua obra mais recente, o #infomedia tentou compreender melhor a sua perspetiva, uma vez que, como os próprios historiadores indicam, os internacionalismos revelam o seu desaparecimento com a ascensão dos nacionalismos.

Com um percurso indescritível, o autor com a obra “A Governação do Mundo” pretende constituir um “tour d’horizon” sobre os indivíduos, as diversas organizações e todos os processos ultrapassados que, hoje, nos permitem determinar o que é “global”, ou mais propriamente, “o internacional” e os  internacionalismos que se encontram acometidos, com uma previsão que advém acerca de dois séculos atrás, e que atualmente se revela uma preocupação.

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