À conversa com: André Nunes

A agenda de André Nunes torna-se cada vez mais preenchida com o passar do tempo. O baterista está envolvido em vários projectos musicais tais como Retimbrar, Mar Di Gras ou Pulha Seltzer, e também ocupa grande parte do seu tempo a dar aulas de percussão aos mais jovens em escolas de música. Para além disto, tem vindo a preparar o seu próprio trabalho a solo nos últimos tempos – e já apimenta a curiosidade ao antecipar que novidades chegarão muito em breve.

No passado dia 31 de Maio, o #infomedia privou com o André numa conversa informal e bem-humorada em que discorreu sobre o modo como consegue aplicar-se com energia a todas estas actividades. Falou ainda da felicidade que sempre retira de poder fazer aquilo que mais o apaixona, e foram abordados tópicos tão vastos como as suas principais influências, a vitória de Salvador Sobral na Eurovisão e o estado da arte nacional.

A banda Retimbrar foi uma das primeiras a ser mencionadas na entrevista. O grupo apresenta uma forte vertente de música tradicional no seu som. André é rápido a explicar de onde veio o seu interesse pela mesma: “tem a ver com aquilo que eu ouvia quando era mais novo. Os meus pais tinham discos do Fausto, do Sérgio Godinho, do Zeca Afonso, e aquilo tinha ali uma fusão incrível. A paixão veio logo a partir daí.” O espectro de referências é vasto no universo do conjunto, como só podia ser. André insiste que é desprovido de sentido analisar a música por categorias: “Temos que a ver como um todo. Ah, isto é pop, isto é rock, isto é jazz, isto é folk… confunde-me,” afirma entre sorrisos.

O disco de estreia dos Retimbrar intitulado “Voa Pé” foi lançado na primeira metade de 2016, e foi relativamente bem-sucedido entre a crítica. Revistas como a BLITZ elegeram-no entre as melhores ofertas nacionais do ano. Mas os membros do grupo rejeitam a ideia de se sentirem pressionados para se excederem em trabalhos futuros. “Tenta-se sempre fazer o melhor,” é o que André refere. “Mas isso também é uma coisa que já surge de há alguns anos. Quando lançamos um disco, queremos mesmo que apareça e que as coisas comecem a ser divulgadas. O processo é mesmo esse.”

Também foi possível falar com ele sobre o EP lançado pelos Mar Di Gras em fevereiro do ano passado, no qual participou. Este projecto tem uma roupagem rock que contrasta mais com o estilo dos Retimbrar. No entanto, ele considera que a mentalidade com que se avança para as duas bandas é essencialmente a mesma – “Temos que fazer pequenos ajustes mas isso é um mecanismo natural.”

Esta banda tem como principais mentores Pedro Maia e Vasco Loja – eles assumem o papel de escrever a maioria dos temas. “Mas a nível rítmico tenho lá a minha marca,” sublinha André. E dá para notar: a sonoridade jazz – “um género com o qual me identifiquei desde cedo,” garante – que por vezes pode ser ouvida no EP remete para os inícios do baterista como aprendiz e ouvinte ávido de artistas marcantes do estilo.

A carga de trabalho leva a uma necessidade constante de estar alerta: é precisamente isso que André tem a dizer. “No fim-de-semana tenho de fazer aquilo para o teatro, agora vou ter isto para o meu projecto, depois tenho que preparar as aulas… Precisas de pensar em tudo. Por isso é que dizem que nós andamos sempre noutro mundo,” refere num tom humorístico. “Se realmente vives disto tens que estar sempre ligado,” remata.

As dificuldades económicas com que o artista nacional se depara constituem uma problemática já muito discutida e considerada. André refere que se tem dado bem nesse aspecto, mas admite: “é uma coisa incerta. Até com o próprio dinheiro que é feito a dar as aulas isso se verifica. Há anos em que há mais, outros em que há menos… nada é fixo.”

Apesar disso, a alegria de transmitir os seus conhecimentos aos mais novos através das mesmas mantém-se. Ressalta que também para os professores esta representa um local de aprendizagem. “Obviamente há pessoas que ficam espantadas quando digo isto,” refere a rir-se. “Como é que um miúdo de 5 anos te vai ensinar? Se calhar, ele faz aquelas duas ou quatro colcheias de uma maneira que tu nunca farias. É muito interessante ver como fazem e pensam as coisas.”

A palavra “professor” é uma que o André preferiria deixar de lado. “Somos mais orientadores do que outra coisa,” explica. “Nós mostramos um caminho de fazer as coisas… agora, se eles quiserem ir por outro lado, tens que perceber que a perspectiva deles também pode estar correcta. O teu dever é fazer com que fiquem com uma boa técnica. Mas a partir daí, é deixá-los seguir em frente.”

Na parte final da entrevista, ainda houve a possibilidade de comentar sobre o panorama actual da música portuguesa, e o modo como a mesma é reconhecida. André reconhece em artistas como Salvador Sobral uma “mais-valia.” Refere que “nunca tivemos muita sorte em exportar o nosso material, nunca nos deram muito crédito.” Parece acreditar que isso “também é um problema interno: temos o mau hábito de dar pouco valor ao que se faz cá. E a verdade é que temos muitos bons artistas.”

André conclui o seu ponto dizendo que “a vitória do Salvador pode até abrir a mentalidade das rádios mainstream, incentivá-las a passar mais coisas. A música dele é simples mas tem o seu toque emotivo. E o que é certo é que resulta. Embora eu seja muito contra a ideia dos concursos: acho que a música nunca deveria ser vista como tal. Ou é boa ou é má. A partir do momento em que nós mudamos a mentalidade e consumimos mais o que é nosso, se calhar exportamos mais. E as rádios têm mesmo que fundamentar a cultura, levá-la a toda a gente.”

Antes da conversa ser encerrada por definitivo, o #infomedia pediu ao André que ele partilhasse alguns conselhos com jovens que estejam agora a dar os primeiros passos no mundo artístico. A sua receita é simples: muito trabalho e esforço. “Sempre que te fores dedicando cada vez mais, acabas por conseguir grandes resultados e por sair da casca, sem dúvida.” Embora o André tenha reservas em se considerar um músico estabelecido – “nunca sei as voltas que a minha vida pode dar” -, o seu percurso poderá ser um exemplo a seguir.

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