Álcool, Drogas e Rock and Roll

Atualmente o mundo do álcool, das drogas e do sexo é uma banalidade nos jovens e é vivido sem qualquer constrangimento e sentido de responsabilidade. Não é a internet, não são os livros, não são as estatísticas que o dizem, mas sim os próprios testemunhos de adolescentes e jovens adultos que já têm episódios nas suas vidas dignos de cenas de filme.

Márcia Lemos é estudante de Direito e tem 20 anos. Já experimentou drogas leves, e confessa um episódio que inconscientemente aconteceu: “ ingeri uma bebida alcoólica na noite de passagem de ano por engano, pois troquei a minha bebida com a de um amigo meu que continha droga e fiquei logo alterada.“ Com um ar angustiante, prossegue e acrescenta: “ Primeiro pensei que tinha sido o funcionário do bar, depois percebi o que se tinha passado. Fiquei alterada e bastante enérgica. Só tinha vontade de dançar.” Termina, explicando o que realmente a marcou: “ No regresso a casa, só fixava pontos sem motivo aparente. Estava completamente vidrada. Custou-me a adormecer, não tinha sono.”
Márcia conta que ”nunca estive em coma alcoólico mas já vomitei muitas vezes por excesso de bebida.” Faz uma pausa e afirma: “ Atualmente namoro com uma pessoa que consome diariamente substâncias ilícitas, mas eu não, só tabaco.”
O que acontece na noite é para a estudante o resultado da educação dos pais que “dão liberdade a mais aos filhos e não lhes ensinam a comportarem-se quer na noite, quer em sociedade, pois assim preveniam muitas situações de risco.”

O Relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) calcula que cerca de 5% da população adulta, ou 250 milhões de pessoas entre 15 e 64 anos, usou pelo menos algum tipo de droga em 2014.

Ana Silva é estudante de Psicologia e tem 20 anos. É no café com as amigas que relembra uma situação que marcou a adolescência: “ Uma vez estava a consumir álcool e a fumar tabaco com um grupo de amigos, onde alguns deles estavam a fumar droga. Depois apareceu a polícia e revistou toda a gente. Por acaso, ninguém tinha quantidade suficiente para ir dentro.“ Continua, afirmando: “Nós já sabemos identificar os narcóticos, conhecemos a matrícula e o modelo do carro e aí, já sabemos se temos de esconder as coisas ou não.”
Quando fala de álcool acha que as bebedeiras não a fazem perder a consciência das suas ações pois conhece os seus limites e não “cai em exageros.” Aponta que os adolescentes saem cada vez mais cedo e por não terem idade, “não têm consciência daquilo que fazem e entram logo na má vida.”

Numa lista de 34 países da Europa, Portugal surge no nono lugar no que se refere à média anual de consumo de álcool puro per capita, com 13,43 litros. Esta é uma das leituras mais imediatas que encontra nos dados revelados do relatório de Álcool na União Europeia segundo a Organização Mundial de Saúde, com o patrocínio da Comissão Europeia.
César Santos é funcionário de um bar numa cidade do Norte mas afirma não ser exemplo para ninguém. Tem 25 anos e diz já “ter fumado drogas leves e pesadas” mas o episódio numa discoteca em Ibiza é o que hoje, ainda recorda com grandes marcas. “Estive dentro de uma discoteca com o proprietário a fechar um negócio e ele questiona-me: O que queres beber e mandar?” Perplexo e desconfiado, respondeu: “Pedi uma garrafa de água. Vi o meu amigo em quem confio, à vontade, então alinhei e mandei um risquinho. No fim da tarde, acabei todo minado.” Rapidamente relembra outra situação: “ Num dia consumi ao mesmo tempo Speed e MD pela primeira vez e estive 3 dias sem dormir”
Falar de álcool para este barman é falar de verão e festivais na praia. Foi num desses que apanhou uma “grande bebedeira” e acordou no ”paredão da praia às 11 da manhã sem documentos e roupa, apenas de boxers.” Posteriormente contaram-lhe que “antes já tinha enterrado a cabeça na areia. “ Acrescenta: “Não sei, não me lembro. Nunca mais fui a esse festival com a vergonha. “
Para este jovem o problema da noite é outro. “ Os pais prendem muito os filhos até à altura da faculdade, a partir daí eles têm a liberdade toda. Casa e dinheiro no bolso, e não conseguem gerir tudo isso. Depois sucedem-se os comas alcoólicos, as drogas e as comidelas.”

Será que sair à noite é um acontecimento? Ou nos primeiros tempos, constitui um ritual? Escolher a roupa certa e fazer os últimos contactos, de modo a garantirem umas horas de divertimento é uma etapa obrigatória.
Será importante saber com quem o jovem vai sair e ter o contacto de um ou dois desses amigos, para que se possa contactar numa eventualidade? Sim! Mas nunca para contacto frequente ou para medidas de controlo.

Sobretudo é preciso entender que o sair à noite é um teste à confiança que os pais depositam no jovem e à maturidade que o mesmo possui nesta fase. Deverá ser encarado como um processo normal e até útil no desenvolvimento do adolescente. Retirar-lhe esta fase ou retardá-la demasiado poderá ter consequências complicadas ao nível da sua socialização e autonomização, antecipar demasiado também poderá ter o perigo de expô-lo demasiado cedo a situações para o qual poderá não estar preparado.

Importante é pensar que deverá haver diálogo, confiança e respeito no seio da família, para que não haja assuntos tabu nem necessidade de esconder o que deve ser conversado, de uma forma aberta e responsável.

Portanto álcool, drogas, sexo e noite devem ser abordados de modo a prevenir possíveis episódios desagradáveis. A Márcia, a Ana e o César são exemplos de adultos, que já foram adolescentes e que sabem que hoje têm memórias, mas que não querem “ repetir o mesmo”.

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