Portugal entre os dez maiores consumidores de álcool no mundo

Os efeitos nocivos do álcool são conhecidos desde a Antiguidade, sobre os quais podemos encontrar numerosas obras literárias referenciando o alcoolismo e também a necessidade de o evitar, como por exemplo no Antigo Testamento da Bíblia (Gênesis 9.21) que retrata Noé após o dilúvio: “bebeu do vinho e embriagou-se”. Esta é assim uma das antigas citações das consequências negativas da ingestão de bebida alcoólica no organismo. Este facto foi também registado na obra de Michelangelo, famoso pintor renascentista (1475-1564), A Embriaguez de Noé, no teto da Capela Sistina, no Vaticano.

O fenómeno do alcoolismo crónico era de certa forma ignorado nesta altura, apenas o embriagamento, era referido entre os transtornos ligados ao consumo. Somente no ano de 1952, com a primeira edição do DSM-I ( Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), o alcoolismo passou a ser tratado como doença.

Os dados de há 20 anos mostravam que cada português gastava, em média, 150 euros por ano em bebidas alcoólicas, um valor mais elevado do que a maior parte dos produtos alimentares, considerando-os isoladamente. É importante reforçar que no caso dos doentes alcoólicos este valor era multiplicado mais de 10 vezes, com gastos anuais superiores a 1.500 euros.

Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um documento no qual Portugal surge como um dos dez países com maior consumo de álcool por pessoa no mundo, sendo uma média de 12,5 litros de álcool puro per capita. Entre os 50 países da União Europeia, Portugal e Eslováquia dividem o oitavo lugar e a Moldávia lidera esse ranking , com um consumo equivalente a 17,4 litros de álcool puro per capita. O elevado consumo pode ser claramente relacionado com a forte produção de vinho e cerveja no país, e as tradições locais, sendo que Portugal é o décimo maior produtor de vinho no mundo.

O relatório da OMS de 2012 informa que 3,3 milhões de mortes em todo o mundo foram atribuídas ao consumo de álcool, ou seja, quase 6% de toda a mortalidade mundial. Em Portugal, uma das múltiplas causas de morte relacionadas ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas são os suicídios que corresponde a 20% na população masculina.

O aumento de 1 litro, no consumo “per capita”, produz um aumento de 1,9%, na taxa de suicídio masculino. No caso das mulheres não há uma correspondência significativa. O suicídio ligado ao álcool é muito manifestado na diminuição da “esperança de vida” do bebedor excessivo, quando comparada com a do bebedor normal.

Em relação à dificuldade para estabelecer o que seria ingerir excessivamente ou moderadamente álcool, a definição aceite pela maioria dos médicos é que devem ser considerados consumidores moderados de álcool os homens que bebem o equivalente a 25 gramas por dia (duas latas de cerveja ou dois copos de vinho ou duas doses de bebida destilada); e quanto às mulheres, devido às diferenças na capacidade de metabolizar o álcool, esse limite equivale a 12,5 gramas, ou seja, a metade dos homens. Dos acidentes causadores de mortes em estradas, 40 a 50% são causados pela a ingestão de álcool.

Nos Hospitais Gerais de Portugal, o alcoolismo representa 90% dos casos de hepatopatias e 60% das cirroses pancreáticas, assim como está relacionado com os elevados índices de doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e doenças oncológicas (maior índice de cancro da boca, faringe, laringe, esófago, fígado e mama). Segundo o “médico de família” do canal RTP, Dr. João Ramos, existe a estimativa que em menos de 15 anos, se nenhuma providência for tomada para o país, existirão 58.000 doentes alcoólicos (síndrome da dependência do álcool), o que significará, 7% de toda a população nacional e 750.000 bebedores excessivos (síndrome de abuso de álcool), o que se traduz em 9,5% da população nacional.

Na tentativa de sanar esse problema de domínio da saúde pública, foram criados os Centros Regionais de Alcoologia que têm como objectivo promover a prevenção dos problemas ligados ao álcool e coordenar as atividades no âmbito da doença e tratamento nas respetivas zonas de intervenção, de uma forma articulada com as administrações regionais de saúde, centros de saúde e hospitais psiquiátricos. Sendo que os que possuem unidades de alcoologia são: Hospital São Marcos, em Braga, Hospital São Pedro, em Vila Real e Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco.

Um dos tratamentos mais eficazes para o tratamento do paciente alcoólico e o acompanhamento de sua família, reconhecido no mundo inteiro, é o grupo dos Alcoólicos Anónimos (AA). Constituídos por homens e mulheres que partilham suas experiências, o objectivo destes grupos é resolverem problemas comuns e ajudarem-se uns aos outros.

Mais informação em : http://www.aaportugal.org/.

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