Menina estás à janela…

Escrever sobre o amor é, à partida, um desafio ingrato.
Não por faltarem ideias para o exportar em texto, mas sim porque as dúvidas bambaleiam-se constantemente. No fundo, não passam de pensamentos errantes que carecem de explicação.
Um texto sobre amor deverá ser algo inóspito. Ressalvando os amontoados de frases de plástico, claro. Os típicos ”atrações físicas são comuns, conexões mentais são raras” ou ” aquilo que ninguém sabe, ninguém estraga”.
Isso deve ser para quem se apaixona na novela seguinte.

O amor é, por definição, um prémio sem mérito.
Se uma mulher me diz: eu amo-te porque tu és inteligente, porque és uma pessoa decente, porque me dás presentes, porque não andas atrás de outras mulheres, porque sabes cozinhar, então eu fico desapontado.
É muito melhor ouvir: eu sou louca por ti embora nem sejas inteligente, nem uma pessoa decente, embora sejas um mentiroso, um egoísta e um canalha.

Milan Kundera, “A Lentidão”

Eu duvido que saiba algo sobre o amor, não mo ensinaram na escola.
Não consigo apalpá-lo docemente com olhos famintos de desejo; tal como sou incapaz de o agarrar por completo e esbofeteá-lo em verso, ou prosa. Arrisco a tentação de me apaixonar todos dias. No entanto, ridicularizo-me, enforcado, na soberania onde me iludo sob um ”eu” inconsciente que me enjaula.
É quase uma psicopatia, à qual estamos sujeitos e submissos, que nos rouba o poder de escolha e a vontade que deveríamos ter sobre nós. Uma voz, entre vozes, na nossa mente que guerrilha e conquista o seu espaço todos os dias.
Quanto mais tento evocar o meu direito de o controlar, independente e orgulhoso, mais ele se desgasta.
Depois, naquele que me parece ser um ato desesperado de submissão, parece persuadir-me a boicotar qualquer outro pensamento. É aí que rebolo numa espiral onde o meu ser se acomoda e viajo embevecido por um caminho cujo trajeto e razão desconheço.
Quando penso, menos tempo me resta para apreciar um cenário inocente carregado de ternura, o que me faz tropeçar pouco lúcido, como um ser reles, nas veias da vida. É como se tivesse sido atirado aos lobos no primeiro pestanejar do dia. É ser um servente em cada minuto. No fim, à medida que anoitece, é rebolar anestesiado por uma alegria contagiante à espera de um sono que teima em aparecer, porque a única coisa que tememos é não acordar.

Isto do amor tem muito (pouco) que se lhe diga.

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa, ”Presságio”

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