Em Outubro de 2017, no Rivoli, a indiferença não venceu

Eu. Tu. Eles. Nós. Homem. Mulher. Criança. Eu. Branco. Preto. Negro. Cigana. Sapos. Estrangeira. Estranho. Eu. Judeu. Islão. Católica. Credo. Inclusão. Exclusão. Eu. Nacionalidade. Limite. Poder. Segregação. Muro. Fronteira. Cá. Lá. Atravessar. Migrar (em vez de Imigrar). Barco. Mar. Terra. Eu. Autorização. Visto. Quota. Residência. Casa. Bairro. Violência. Emprego. Cidadania. Dignidade. Eu. Direitos. Humanos. Respeito. Comunidade. Família. Vida. Morte. Miséria. Fome. Guerra. Ódio. Eu. Ilegal. Conflito. Segurança. Insegurança. Vigilância. Refugiado. Medo. Ocidente. Oriente. Norte. Sul. Eu. Outro. 

O Teatro Rivoli voltou a abrir as suas portas contra a indiferença ao receber, de 13 a 15 de Outubro, a quarta edição de uma iniciativa que luta pela consciência e responsabilidade social, de cada um de nós. Isto é, somos, também, o que vemos e, por esta razão, o projeto MICAR – Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista, assumiu o desafio de dar um rosto às palavras, de se aproximar à realidade de quem as habita e de derrubar muros. Este é um evento de cinema que combate o racismo e prima pela participação crescente de cidadãos e cidadãs, amantes do cinema e da diversidade. Afinal, o cinema tem esse condão: não nos deixar indiferentes e não deixar cair o outro na indiferença.

2017 marca a 4ª edição da MICAR, sendo que os últimos 3 anos foram para o SOS RACISMO – promotor deste evento – uma enorme aventura e aprendizagem. A Mostra abriu ainda espaço ao debate e à reflexão a partir das conversas que antecedem e que se seguem aos filmes, dos convidados que partilham a sua experiência de viva voz e aqueles que colaboram com os seus textos para a publicação que acompanham as estratégias de publicidade do evento.

Feita ao encontro de todos, crianças e adultos, a MICAR manifesta “a necessidade de cada vez mais sermos unos na luta por sociedades sem desigualdade no respeito pela diferença”. Representam formas de luta e de esperança, de cooperação e de alerta que nos despertam a todos para a necessidade de cada vez mais sermos unos, na luta por sociedades sem desigualdade.

Mais de 30 filmes – entre curtas e longas metragens, ficção, animação e documentário – sobre as temáticas da imigração, do racismo, da xenofobia e da discriminação, dão forma e conteúdo à iniciativa. Entre eles, exemplo como:

 

Não sou o teu negro, de Raoul Peck

“I am not your negro” é um documentário sobre as palavras do escritor e ativista James Baldwin, que na década de 1970 anunciou o seu propósito de contar a história dos EUA, através da história de três amigos assassinados: Medgar Evars, Malcolm X e Martin Luther King. A viagem de Baldwin tem como propósito analisar o racismo na América e as suas origens, abarcando também os seus principais motores, como a cultura e a indústria cinematográfica, peças essenciais na construção da imagem do negro como um “outro” inferior.

Broken Silence, de Orhan Galjus e Bob Entrop

Orhan Galjus, ativista cigano e repórter de rádio, procura encontrar-se com a História e com o destino dos ciganos Sinti e Rom, durante a Segunda Guerra Mundial. Numa altura em que as comunidades ciganas europeias enfrentam grandes desafios, no que diz respeito à sua sobrevivência e inclusão social, Orhan aproveita este périplo para perceber também como é que, hoje, tais comunidades estão organizadas.

 

A série “Racismo à Portuguesa” incide sobre diversas áreas em que as desigualdades raciais em Portugal se registam de uma forma institucional e estrutural na sociedade e o #infomedia, no passado dia 15, assistiu à sessão apelada de “Racismo em Portugues | Racismo à Portuguesa” – dividida em três curtas metragens – cada uma com um tema só tema e registou algumas intervenções.

” Um dos objectivos que tínhamos era no fundo ver as marcas do colonialismo português ainda hoje nas sociedades que foram colonizadas (…) porque não é o processo que acaba com a descolonização (…)”, afirma Joana Gorjão Henriques.

Racismo em Português – Guiné Bissau (No tempo em que ser guineense não era suficiente para ser cidadão, 2015) – 24’

Durante o período colonial, na altura em que era Guiné Portuguesa, estas foram apenas algumas das imposições que marcaram a Guiné-Bissau. Quarenta e dois anos após a independência, para a qual o país avançou unilateralmente, é fácil para os guineenses encontrarem vestígios dessa dominação.É a segunda parte da série Racismo em Português, sobre o colonialismo português em África e centra-se, por isso, no racismo contra os negros. Justiça, habitação, emprego, educação, activismo e as marcas do colonialismo em Portugal são as áreas abordadas.

Racismo à Portuguesa – Justiça (“A lei pinta o suspeito de negro”, 2017) – 17’

Filmado em Portugal no decorrer deste ano, inicia com a história de José Semedo Fernandes, sendo que este recorda uma das muitas situações em que, à saída do Bairro de Santa Filomena, onde cresceu e foi mandado parar por um polícia. Nesse dia quis saber qual o fundamento que o tornava suspeito. O polícia respondeu-lhe de forma directa: “um preto é sempre um suspeito.”

Um em cada 73 cidadãos dos PALOP está preso. É dez vezes mais do que a proporção que existe para os portugueses. Magistrados e outros agentes do sistema judicial reconhecem que há duas justiças, uma para negros e outra para brancos.

Racismo à Portuguesa – Educação (Dos manuais às universidades, onde está o racismo na escola?, 2017) – 21’

De que forma, e ao longo das várias etapas do sistema de ensino, os alunos negros são avaliados e escrutinados? E como surgem representados temas como o colonialismo e a escravatura nos manuais escolares portugueses?

” Este trabalho retrata aspetos diferentes do colonialismo português (…) que foi diferente em cada país, sim, mas teve traços comuns: o racismo como instrumento de dominação (..) características que se predominam em Portugal”, Joana Gorjão Henriques.

 

No final e com a presença dos autores: Joana Gorjão Henriques – prémio de Direitos Humanos da comissão portuguesa da UNESCO, na categoria de imprensa escrita por reportagem e menção honrosa pela série de trabalhos e entrevistas “Racismo em Português” – e Frederico Baptista, também jornalista do Público, disponibilizaram-se para a discussão dos temas abordados, análise de questões especificas relacionadas com a raça, tratamento do negro na sociedade portuguesa e análise detalhada de algum dos casos reais abordados.

 

” Os 5 meses que estivemos em campo (…) foi uma revelação. Foi como encarar essa realidade (…)  hoje em dia o que temos pode não ser de forma direta, mas há outras formas de inferiorização das minorias (…) foi terrível aperceber-me disso “, revelou Francisco Baptista.

 

” Passaram 2 anos e este tema do racismo à portuguesa (..) não sabíamos quando o volta a pôr em pratica (…) e foi este ano (…) talvez até até devido às próprias comunidades que deram essa continuidade. Acho adequado haver este intervalo, reitera Joana Gorjão Henriques.

 

Neste seguimento, os autores – numa relação aberta à discussão com o público – , divulgam alguns pormenores, curiosidades e alguns dos aspectos que os deixaram  mais conscientes do que é ser negro, numa sociedade do século XXI. Até que ponto somos nós uma sociedade contemporânea e na corrida à resolução eficaz de problemas tecnológicos e digitais, alienando-nos dos problemas reais, de todos os dias, bem perto do nosso ego?

 

Em Outubro de 2017, no Rivoli, a indiferença não venceu.

 

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