Linha de prevenção do suicídio: o trabalho mais importante do mundo

Qual é o maior medo que nós podemos ter na vida? Será o medo de ficarmos doentes? Da guerra? De sermos incapazes de sustentar a nossa família? De sentirmos que ninguém nos ama?
Como é óbvio, é difícil responder a uma pergunta como essa. Mas talvez o mais perigoso medo de todos seja o de nos sentirmos incompreendidos. Afinal de contas, de que nos serve procurar alguém com quem tenhamos a possibilidade de falar sobre os nossos problemas se ninguém irá, verdadeiramente, entender a base das nossas dores?

Este é um pensamento que afecta profundamente milhares de pessoas que sofrem de depressão. É um distúrbio que pode levar a níveis extremos de sofrimento e, em muitos casos, tal pode dar lugar a severas ideações suicidas. Felizmente, existem as tão importantes linhas de prevenção, que oferecem aquilo que muitos dos pacientes precisam: alguém que fale com eles e os oriente naquele que é um árduo e muitas vezes assustador processo de reabilitação.

O Infomedia teve a oportunidade de conversar sobre o assunto com a Sophia Macedo, uma jovem brasileira de 24 anos que já fez voluntariado nesta área no seu país de origem. Naquilo que à problemática apresentada diz respeito, confessa que a severa e muito delicada situação vivida pelo seu irmão constituiu um verdadeiro sinal de alerta na sua vida (pelo devido respeito à sua privacidade, manter-se-á em segredo o conjunto de detalhes que dá forma a esta história). Em poucas palavras, resume ela: “o medo de o perder para a sua doença fez-me querer saber como ajudar outras pessoas em situações semelhantes”. Após concluir os estudos universitários, a Sophia decidiu voluntariar-se numa linha de prevenção de suicídio, localizada perto da sua residência. “Todos os que querem oferecer os seus serviços recebem primeiro uma pequena formação durante algumas semanas, de modo a estarem devidamente capacitados para o trabalho. Essencialmente, aprendemos como dar a melhor resposta aos diferentes estados de humor que as pessoas a ligar possam apresentar.” Segundo a óptica dela, o único problema prende-se com a aderência a estes projectos, que nem sempre é a maior. “As várias linhas disponíveis têm horários de atendimento diferentes, mas devido à falta de voluntários é difícil manter uma aberta durante as 24 horas do dia. Isso é o que mais me entristece, porque queremos estar disponíveis para ajudar em todos os momentos. Mas também é compreensível: é uma tarefa intensa e delicada, que exige muito de qualquer um.”

“Nós damos o máximo para ser acolhedores e fazer com que quem está a ligar se sinta perfeitamente à vontade.” É deste modo que a Sophia descreve quem está por detrás da linha: “As chamadas são anónimas e regemo-nos por um código de sigilo: tudo o que se fala, ali fica. Para ajudar as pessoas a poderem deitar para fora aquilo que as perturba mais facilmente, há quem faça questão de sublinhar logo isso no início da conversa. E podemos falar daquilo que lhes apetecer. É todo um processo de aproximar a interacção a uma conversa com um amigo, muito mais do que uma consulta médica ou algo do género.” Para a Sophia, a dificuldade em articular os problemas é o que mais se pretende evitar; “tentamos aumentar o nosso alcance tanto quanto pudermos, para que todos saibam mesmo que não estão sozinhos e que realmente há quem seja capaz de oferecer um mínimo conforto. Quando estamos a atender aquele telefonema, estamos cientes do poder que as nossas palavras podem ter. Temos de ser extremamente cuidadosos com o que dizemos e até com a forma como falamos. Um descuido pode ser o suficiente para despertar toda uma reacção negativa. E, especialmente depois de ter visto o meu irmão nos seus piores momentos, eu sei muito bem qual pode ser o nível de fragilidade emocional de cada um.” É essa fragilidade que a Sophia quer ajudar a contornar. “É necessário quebrar a noção de que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Já tive quem desse início à chamada em lágrimas e, passados 10 minutos, desligasse a agradecer pelo apoio e dizendo que se sentia muito melhor. Isso é fantástico. Se for capaz de inspirar esse tipo de mudança positiva nas pessoas todos os dias… não há melhor sensação no mundo.”

De facto, há momentos em que as dificuldades se amontoam sem que se acredite num fim à vista. Porém, não há necessidade de suportar nenhum fardo sozinho, por mais pesado que seja. Telefone da Amizade ou SOS Palavra Amiga são apenas algumas das várias linhas de prevenção do suicídio que se encontram em territórios portugueses. O suicide.org tem tudo o que se  precise de saber sobre o assunto, para além de também disponibilizar uma série de contactos muito úteis a nível mundial. A cada dia, novos voluntários se chegam à frente, com o mesmo objectivo da Sophia: apoiar quem mais carece de auxílio; oferecer uma mão amiga. O tempo de adversidade é duro e pode parecer impossível de ultrapassar, mas é temporário; já o suicídio é permanente.
Pode ser difícil de acreditar, mas é verdade: existem ajudas a apenas uma linha telefónica de distância.

Telefone da Amizade
228323535 (16h-23h).

Linha Jovem
800208020 (9h-18h).

SOS Estudante
239484020
969554545
915246060
(20h-1h, excepto férias escolares).

Voz de Apoio
225506070 (21h-0h).
A Voz de Apoio também atende por carta (Apartado 1052, 4101-001 Porto), e-mail (sos@vozdeapoio.pt), chat (Skype) e face-a-face (às sextas-feiras, no Porto, com marcação prévia). Se quiserem contactá-los por carta ou e-mail, também podem escrever em francês e inglês.
Visita o seu site para ter acesso a todos os dados informativos adicionais que forem necessários.

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