A viver de e pela tradição

É em Alfena – capital do brinquedo – que Manuel Ferreira, “encrenca” por legado familiar, reside. É um dos mais antigos fabricantes de brinquedos em madeira do nosso país. Desde os 9 anos de idade que trabalha na área e, nos dias de hoje, com 84 anos, continua naquela que foi a paixão da sua vida: criar brinquedos e reavivar memórias.

Começou na indústria de Quinquilharias de Ermesinde, que, desde 1946, foi a maior unidade industrial de produção de brinquedos em Portugal. Manuel Rocha Ferreira, na altura com 20 anos, abandonou a fábrica: esta terminou com a secção de produção de brinquedos em madeira e unificou-se na produção de brinquedos de metal e plástico. “Tinha os meus vinte anos e aquilo virou para o plástico e eu gostava da madeira, e pus aqui a oficina até hoje. Já trabalho aqui há 60 anos. A minha vida foi sempre isto.”

O #infomedia visitou a oficina do artesão. Recalcada pela passagem do tempo, continua a ser central na sua vida profissional. “Eu estou em casa e estou sempre a lembrar-me nisto (…) tenho de vir para aqui,” desabafa o sr. Manuel.

Nas paredes, os rastos de tinta dos brinquedos que foram adquiridos – quatro máquinas, cobertas pela serradura e já com desgaste – enchem parte da sua oficina; brinquedos espalhados pela mesa do processo final da produção preenchem a mesa da D. Juliana.

“As tintas são anilinas e, depois, aqui a dona Juliana – a minha mulher -, que é a que faz estas coisinhas, dá o acabamento nas pinturas.” Responsável pela última fase de produção dos brinquedos – a decoração – a D. Juliana, com a sua voz doce, afirma: “Trabalho há 30 e muitos anos com ele (…)”. Desde que estão casados, esta é a sua responsabilidade e explica-nos que “para isto é só madeira de pinho, senão não dá as cores brilhantes (…) madeira estrangeira já não aprova nisto. Tem de ser pinho” no que toca às tintas. A D. Juliana explica que só as anilinas conseguem alcançar a qualidade desejada. “Tem de ser água quente, porque com a água fria fica tudo morto.”

Na execução dos brinquedos, o Sr. Manuel revela todos os segredos. Desde sempre usa os mesmos moldes – vindos da primeira fábrica -, que são à base da madeira de pinho, e, entre um suspiro, confessa: “(…) antes encomendava madeira às camionetas, mas agora umas poucas para mim já dá.” Cada tábua de pinho dá cerca de 400 a 600 peças, visto que chegam a ser cortadas 4 vezes na sua largura, dependendo do brinquedo. “(…) Aqui nesta tábua tem para 600 ciclistas (…) eu vou já ligar a máquina que eu não posso estar parado. Vamos lá.”

No tempo da constante mudança e na corrida para o que é novo, poucos são os que se agarram à tradição. “Antigamente era 4 golpes e estava feito. Hoje em dia é tudo perfeito,” e reitera, “Já cheguei a trabalhar sem máquinas isso é que era o artesanato, o que é, é que se fazia poucas.” Questionado pelos tempos que já lá vão, explica:

Havia aqui muito. Uns 7 ou 8 mas depois foram para o estrangeiro, outros já faleceram e eu é que ainda vou resistindo.

O 25 de Abril foi um ponto de viragem para o negócio dos brinquedos e aqui o sr. Manuel recorre à sua memória. “Depois do 25 de Abril, houve aí uns anos que foi a melhor altura para vender (…) Muitos têm isto já guardado. Isto é já muito antigo.”

Como uma moeda tem duas fases, o negócio também passa por vários momentos. Neste caso, é o esquecimento. “Desde que vieram estes brinquedos novos (…) quem compra isto são pessoas mais antigas que se lembram para os netos, e depois há aquela pessoa que gosta de ter porque se lembra que já brincou com isto (…) É uma memória da infância”, reiterou Juliana.

Mas do passado não se vive o presente, e o artesão confessa que este é um trabalho que agora não está na melhor das alturas. “Agora está fraco, mas já vivemos bem (…) fizemos aquelas casas toda e aqui, foi com isto. Foi isto. Agora (…) agora é plásticos e chineses. Mudou muito. Oh menina, já deu mas agora estou a trabalhar aqui por desporto. Também se me falha isto vou para a cova”, diz entre risos que enchem a oficina já grande para os dois.

Apesar de tudo, o negócio sobrevive principalmente devido aos clientes que desde sempre o conhecem. “Ainda há clientes antigos (…) Vai para Lisboa, Vila Verde, Viana do Castelo, Mirandela, Cartaxo, muito lados. Depois vêm lá os espanhóis e levam (…) mas onde se vende mais é na feira de Vila do Conde. A menina que vende, vende para os estrangeiros (…) uma vez, venderam 1200 pombas.”

Questionado pelo futuro, o artesão não vê continuidade na arte dos brinquedos tradicionais: “Não dá para viver. Se não tivermos outra fonte de rendimento não dá para viver (…) Não dá para sustentar a família (…)”, avança a mulher.

“Eu, parece-me que deixando, acabou. Isto é uma coisa muito miudinha e é preciso a gente ter paixão por isto, como eu (…) foi sempre de pequenino,” reitera o sr. Manuel.

Não estando doente, é sempre. É todos os dias que às 8 e pouco estou aqui.

Sr. Manuel é dos poucos que ainda resiste à passagem do tempo e, mesmo sendo um ícone da cidade de Alfena e da cultura portuguesa, sente-se um pouco à mercê da sorte, desprovido de apoios. Contudo, é notável a força de vontade que tem em lutar contra a corrente dos tempos.

Eu vou ver. Quem me dera estar aqui até aos cem anos a fazer isto. Quem me dera.

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