ILHA – Imagens que nascem na lente de Paulo Pimenta

O que é uma ILHA?

O que é estar dentro e estar fora de uma Ilha? Como é viver num espaço onde as janelas se abrem para muros e as vidas se tecem em arquipélagos de corredores estreitos? Que memórias perduram inscritas nas pessoas e nas paredes das casas? Onde nos cruzamos nesta cidade feita de Ilhas – Casas e Ilhas – Pessoas?

 

E assim arranca mais uma exposição de Paulo Pimenta, fotojornalista do jornal “Público”, desenvolvendo esta atividade desde 1997.  Iniciou a sua formação com o Curso Superior de Fotografia na Escola Superior Artística do Porto (ESAP), concluindo o curso em 1994. Já colaborou com o jornal “Tal e Qual”, com a extinta revista “HEI” e com a revista “Visão”.

Em declarações ao Porto olhos nos olhos, por Mariana Correia Pinto -texto- e Manuel Roberto -fotografia, este conta um pouco daquela que é a história da sua vida. “ Sou genuíno do Porto. Nasci em casa da minha mãe, na praça Carlos Alberto, no Natal. Dia 24 de Dezembro. A minha mãe fez questão que nascesse em casa e foi fixe porque à noite ela já pôde comer bacalhau. Sou do Porto e isso é importante para mim — sinto-me muito ligado à cidade e toda a minha história se fez aqui. “

Acrescenta, “o meu despertar para a fotografia aconteceu na Escola Superior Artística do Porto. Trabalhava lá, a tirar fotocópias e a dar apoio aos alunos, e comecei a ligar-me à escola. Houve uma pessoa que me incentivou a pensar na fotografia a sério e, por essa altura, comecei a fotografar. Às tantas decidi que tinha de fazer o curso superior — e o único que existia no Porto nessa época era exatamente na ESAP. Decidi trabalhar de dia, pagar os meus estudos e apostar na fotografia. Cheguei a trabalhar na Escola Superior de Educação, onde dava apoio à biblioteca e onde já fotografava muito. A partir daí as coisas começaram a acontecer”. Com trabalho reconhecidos por todos, Paulo Pimenta expõe com regularidade, individual e coletivamente, os seus trabalhos, alguns deles ganhando um destaque avultado: “10 Espetáculos 10 Mulheres “, projeto de Luísa Pinto com as reclusas de Stª Cruz do Bispo (representação de 10 Divas do Sec XX); “As Três Primeiras Músicas“ – 12 anos de concertos; “Vou ao Porto “ na estação de metro do Campo 24 de Agosto, projeto desenvolvido com famílias de bairros sociais do Porto (Bairro São João de Deus, Lagarteiro, Cerco do Porto, Vale Campanhã).

“O tema social comecei a acompanhar mais de perto quando entrei para o jornal. O meu primeiro baque, uma das experiências que mais me marcou: foi vivido com a Ana Cristina Pereira (…) quando fomos passar o Natal a uma fábrica abandonada com toxicodependentes. E com o José António Pinto, o grande Chalana, que me ensinou e continua a ensinar muito. Foi a primeira vez que convivi tão de perto com toxicodependentes, num cenário de mortos vivos. (…) noutra ocasião, também com a Ana Cristina e com o Chalana, fomos às duas da manhã para uma fábrica abandonada na rampa do Freixo, em Campanha. Estávamos a fazer um trabalho sobre sem-abrigo. Chovia torrencialmente. Nunca mais me esqueço que havia um senhor que estava num colchão completamente alagado. (…). Fica-se completamente desarmado, sem saber o que fazer.”

É por este sentimento de insatisfação com as desigualdades sociais que o fotógrafo reitera “ já não me chegava ir fazer a notícia ou a reportagem para o jornal. Comecei a pensar que tinha de fazer qualquer coisa através do meu trabalho que pudesse também ajudar a denunciar, alterar, incentivar”. Esta “ansiedade e esta obrigação de estar sempre a fotografar e sempre em busca de algo”, que o fotojornalista usa “(…) a fotografia como um caminho para chegar às pessoas, para dar coisas e receber também.”

“Este trabalho faz-nos ver e sentir de outra maneira. E cria uma ansiedade permanente de querer fazer mais alguma coisa através dele (…)”

Por isto mesmo, ILHA é uma exposição desenvolvida no âmbito do projeto “Retratos das Ilhas – Bonfim para além das fachadas” promovido pela Rede Inducar, financiado pelo programa PARTIS da Fundação Calouste Gulbenkian, e tem como objetivo a promoção de espaços de participação e construção coletiva no sentido do reconhecimento das ilhas enquanto património imaterial, humano e comunitário, através da fotografia participativa e do teatro comunitário. Ao longo de dois anos, foi desenvolvido um trabalho de criação artística com a comunidade do Bonfim, envolvendo um grupo inter-geracional a partir destas interrogações em que a fotografia e as artes performativas se complementaram e contagiaram mutuamente.

Sábado, 25 de Novembro, o CPF – Centro Português de Fotografia, no Porto estará, com certeza, mais rico em conteúdo e qualidade.

 

 

Para mais trabalhos: http://fotospress.blogspot.pt/

 

 

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