Como ser fixe nas redes sociais: Manual para totós

Quando penso no uso genérico que dão às redes sociais não consigo dissociá-lo do Santuário de Fátima.
No fundo, os pregadores espalham a palavra sem acreditarem, de verdade, no seu sermão. Contribuem com opiniões rebuscadas de achismo, mas há sempre quem compre uma velinha na esperança, pura, puramente inspiradora, de ser contributiva para a sua vida. Já o andar de joelhos à volta da(s) palavra(s) sagrada(s) pode ser noutro sentido.

O moralismo intrínseco nos iluminados das redes sociais contagia uma legião que parece vir do outro mundo. As redes sociais permitem-nos acompanhar situações em tempo real, de maneira imediata e próxima, mesmo que essas aconteçam na outra ponta do mundo. Hoje em dia, já é possível identificar um totó moralista, cheio de verdades universais, noutra parte do país, quase na mesma altura em que ele profere calamidades.
São a malta fixe das redes sociais. Como não conseguiram (ainda) passar para o sétimo ano, encontraram várias escolas onde são catedráticos. Os alunos adoram estas aulas, principalmente se o professor tiver um six-pack bem definido ou uma copa C, estrategicamente, à mostra.

Este admirável mundo novo das redes sociais permite-nos mostrar o nosso lado competitivo e psicopata.
Um diálogo constante com a namorada que foi de Erasmus para o Brasil, de modo a não perde-la de vista, embora ela esteja demasiado ocupada a comer tapioca; colocar um anúncio de uma torradeira, que não usamos, para obter um comprador que ainda não conheceu a bimby; ou até mesmo encontrar o amor da nossa vida, depositar likes nas suas fotos como um ritual de pavão, quando abre as suas penas para galar as damas pavoas. Podemos ser todos Zézé Camarinha. Depois, claro, a declaração pública de modo a extrapolar todo o nosso sentimento, de preferência com mais de 500 carateres. É a nova geração de cavalheiros, sem esquecer o vídeo do pedido de namoro para as amigas ficarem com inveja.
Só imagino melhor no mundo encantado da Leopoldina.

A malta fixe, das redes sociais, tem vários seguidores que os admiram, e, portanto, a veracidade das suas afirmações são inabaláveis. O problema reside na manipulação da informação e/ou no cuidado, pouco comedido (ou inexistente), na verificação das fontes.
Quando penso no uso genérico que dão às redes sociais não consigo dissociá-lo do Santuário de Fátima. No fundo, os pregadores espalham a palavra sem acreditarem, de verdade, no seu sermão. Contribuem com opiniões rebuscadas de achismo, mas há sempre quem compre uma velinha na esperança, pura, puramente inspiradora, de ser contributiva para a sua vida. Já o andar de joelhos à volta da(s) palavra(s) sagradas pode ser noutro sentido.

Nesta órbita da facilidade automatizada emergem os rebanhos de opinião, os nazis da malta fixe, que fazem o trabalho sujo por eles. Têm uma missão comum: espalhar a palavra do pastor que assume o papel de sábio supremo e excomungar quem pensa o contrário, um pouco à medida do que se sucede nas praxes académicas.
Partilham poucos afetos entre si, mas revelam um altruísmo acentuado na altura de defender os seus companheiros contra a malta que não quer ser fixe.

O modus operandi deste exército é delicioso. Aguardam, minuciosamente, por uma opinião diferente; de seguida, chamam reforços da sua espécime (o resto da malta fixe), de modo a aniquilar quem pensa o contrário. A aniquilação é, por norma, a parte mais prazerosa e voraz destes predestinados, já que raramente ofertam um outro ponto de vista. Pouco dispostos à discussão saudável e lúdica, contrariam de toda e qualquer forma a opinião de pobres coitados com a mania que são inteletuais, só porque são especialistas na área, investindo num sério arsenal de dinamite em cada comentário.

Esta formatação diária que chega, esbofada, ao nosso feed, é umas das causas da exígua mentalidade do nosso país, alimentada por velhos do restelo, cada vez mais jovens.
A popularidade é um fenómeno crescente e influencia inúmeros estandartes da nossa sociedade. Traçar um caminho independente e quebrar estereótipos está a tornar-se escasso para se ser alguém e poderá vir a ser necessário caminhar de mãos dadas com a estupidez, fazendo parte da manada. Uma espécie de vários gémeos siameses com óculos de garrafa.

Deixa um comentário