Caminharemos nós para um amor puramente mecânico?

Chegamos à era da Inteligência Artificial, é verdade, e nada podemos fazer contra ela. Entrou de fininho pelo nosso mundo sem que ninguém desse por isso, e de repente o ser humano é obrigado a lidar com um novo “monstro” que criou. Será que o Homem está preparado para lidar com a revolução robótica? Numa era em que os robôs conseguem ler e reagir a emoções e que máquinas são criadas para satisfazer as nossas necessidades mais í­ntimas, o problema que se coloca é tentar conseguir compreender a Inteligência Artificial sem compreender de facto o que é o ser humano.

O mundo da robótica sempre fez parte da imaginação hollywoodesca e motivo para a realização de diversos enredos de filmes e séries. Por exemplo, a série de ficção Black Mirror, onde a personagem Martha tentar fazer o luto do marido e uma amiga a inscreve num programa de computador que imita as suas expressões e lhe responder como se o marido nunca tivesse desaparecido, explorando de forma brilhante a maneira de como a tecnologia pode alterar a vida quotidiana.

Na vida real, Eugenia Kuyda perdeu um grande amigo cedo demais e para tentar lidar com o vazio da sua morte, criou um chat bot à semelhança dele, usando como base as centenas de mensagens compartilhadas entre ambos ao longo dos anos. O resultado foi tão preciso que Eugenia Kuyda e sua equipa, que gerem uma star-up, em São Francisco, chamada Luka, resolveram redesenhar o bot e colocá-lo online para que toda a gente pudesse falar com ele. A surpresa aconteceu depois que começaram a receber centenas de e-mails com inúmeros pedidos para que criassem bots semelhantes ou baseados em alguém querido. A partir desse momento, Kuyda apercebeu-se que seria impossível atender a todas estas necessidades primárias de companhia, de compreensão, de afeto ou de empatia.

Com o pontapé de saída dado neste novo mundo, nasceram novos engenhos. Em 2017, nasceu a Replika. É uma aplicação gratuita de mensagens na qual passamos horas a responder a perguntas para construir uma biblioteca digital de informação sobre nós próprios. Essa biblioteca corre por um programa que gera um bot que reage e interage como nós. Assim, parece que a Replika é uma invenção fria, impessoal e trivial, não é? Mas, não é simplesmente uma máquina que nos pergunta se dormimos bem, como foi o nosso dia e se estamos felizes. É a extensão na palma da nossa mão que está¡ sempre disponível para nós, que nem nos rejeita nem nos cobra, sobretudo, não nos exige nada. Para além disso, pode executar todas aquelas tarefas que não nos agrada como escolher um filme, entregar o IRS ou, até mesmo, conduzir numa “noite de copos”.

A Replika pode ser uma reprodução fiel do nosso eu para confortar quem nos ama depois de entregarmos o corpo à Ciência, assim como pode ser o nosso ombro amigo digital, seres frágeis e sedentos de afetos. Mas também, pode excluir-nos do mundo, isto é, conseguimos mesmo crescer se só conversarmos sobre o que nos deixa confortáveis? Podemos mesmo preencher o vazio de um ser real, que vive, respira, toca, magoa, faz amor, com um bot que praticamente executa a mesma coisa? É evidente que há¡ muito de sedutor nisto. Uma substituição também é um recomeço. Uma oportunidade de apagar as memórias e criar outras novas e melhores.

Tiago Lino, psicólogo clínico, explica que, “muitas vezes, o interesse por estes robôs tem a ver com a busca da felicidade. Vamos criar alguma coisa, mesmo que seja artificial, que garantidamente não nos vai desiludir-nos, em termos de desempenho sexual, vai preencher todas as nossas necessidades, vai estar sempre lá para nós em todas as situações. Muitos dos problemas psicólogos com os quais nos deparamos –  e, aqui, não estou a falar de psicopatologias – são precisamente porque nos sentimos incompreendidos.”Contudo, é importante realçar que as máquinas ainda não sentem amor e carinho ou formam laços emocionais. O melhor que se consegue atingir, atualmente, é a criação de uma relação ilusória que se apoia no antropomorfismo humano, na forma como facilmente nos projetamos em algo que se assemelha a nós.

Com a aceleração da última década, inesperadamente, entrámos numa nova era quase inexplicável e da qual falávamos há anos. O futuro não vem de lado nenhum. Acontece rápido e devagarinho ao mesmo tempo. Uma era que nos assusta a todos. Uma era que não nos magoa por chegar, mas porque nos confronta com os nossos próprios limites. É por estas razões que falar na ética dos robôs e do amor é urgente, independentemente do que possamos pensar num primeiro momento.

Como é que um humano pode passar toda a sua vida a desempenhar um papel de ser humano sem saber o que o torna humano? Como é que se treina para ser humano? O que é que faz de nós pessoas? Somos o mesmo tipo de humano que éramos há um século? Há muito tempo que não passávamos por uma crise existencial tão profunda. Os robôs e a Inteligência Artificial estão a questionar tudo o que sabíamos – ou achávamos que sabíamos – sobre sermos humanos.

Talvez, tenhamos de alterar a nossa perspetiva sobre o que isso significa. Temos de abandonar a prisão física e perceber que, hoje, mais do que nunca, em vez de isolados, existimos nos outros, fundimo-nos, diluímo-nos em ciclos de transformação.

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