José Magalhães, uma lenda viva do nosso país

Natural de Lousada, cedo foi para Alfena – que acolheu como sua terra de adoção – aplicando total dedicação ao seu clube de sempre, o Atlético Clube Alfenense. O ex-Atleta Olímpico e atual Diretor da Associação de Atletismo do Porto, José Magalhães é uma lenda viva do desporto em Portugal.  

No inverno de 1973, desaguou em Alfena. O seu pai já estaria pelo Porto a trabalhar há algum tempo e, “como cada qualquer pai, quer os seus filhos e família por perto”. Conseguiram “com as dificuldades deles (…) construir uma casa e ficámos todos juntos aqui”: um lar nesta que, na altura, era ainda uma aldeia escondida entre os vales. Tentou o futebol – durante um breve tempo – depois o ciclismo, durante um instante, mas acabou por seguir outros caminhos. Habituado aos ares de tranquilidade que se respiravam “na Nossa Senhora da Aparecida, minha terra natal”, sentiu dificuldades “em fazer amigos” Usava como seu escape para esta falta de ligação à terra onde, agora, o correr como elemento de distração. “O meu escape, para eu me ambientar (…) era o atletismo. Na altura, alienado de quão rico era o atletismo nas suas modalidades,  José Magalhães confessa que, no início, “sabia que o atletismo era correr, mas como não fazia a mínima ideia”. Numa competição por equipas, levou 2 amigos: ficaram em 2 segundo lugar “por equipa com Unidos ao Alfenense”. Explica que, naquela altura, ainda não estavam agregados ao Alfenense: clube que, na data, registava o mínimo de atividade na modalidade do atletismo. Entretanto, a próprio conta e risco, construiu a secção de atletismo no Alfenense. Posteriormente, filiando-se na Associação de Atletismo do Porto, em 1977. “Fiquei sozinho nesse percurso (…) os meus outros dois amigos abandonaram”.

Foi ao atletismo que, José Magalhães, acabou por dedicar a sua vida: como trabalhador, treinador e atleta – simultaneamente – fazendo o seu percurso no atletismo enquanto intencionava “tirar os miúdos da rua e chamá-los a fazer o desporto mais saudável (…) mais bonito: correr pelo cansaço, pelo espírito de equipa (…)”. Depois de uma jornada intensa de trabalho na empresa – que o acompanha há 44 anos até aos dias de hoje – seguia para a rua “Treinar os outros e depois fazer os meus treinos”.

No decorrer desta conversa com o #infomedia, o ex-Atleta Olímpico reitera a ideia que o atletismo era e é de todos, para todos: “fiz o percurso como atleta e treinador (…) no meio desse percurso, como o atletismo é rico em várias disciplinas, todos dentro do seu perfil humano encaixam-se nas disciplinas do atletismo”. Atleta com mais de 40 anos de carreira e representante do clube “desde 5 de maio de 1975” tentou todas as disciplinas do atletismo, contudo foi nos 50 quilómetros da marcha atlética que José Magalhães, se destacou. Numa posição de impotência perante o monstro que é o futebol, no nosso país, foi obrigado a treinar na rua, vendo a sua equipa reduzir progressivamente. “Comecei a perceber que as instalações ficaram a ficar cheios no futebol, todos os miúdos do atletismo foram para o futebol (…)”

Em 1987, Augusto Cardoso – atleta que é hoje também uma referência no desporto nacional – demonstrou grande aptidão para a marcha atlética e devido à necessidade de acompanhar o atleta que tinha alguma vergonha de praticar o desporto sozinho, José Magalhães iniciou a sua caminhada para a glória. Caminho este que reforça que só “quem sofre, sabe. Só quem sofre, consegue coisas bonitas (…)“ Sendo o atletismo, um desporto tão esquecido na sombra de outros desporto que movem multidões, as más condições para treino estiveram sempre em primeiro plano, na vida do atleta. “Dado às más condições de treino, fomos obrigados a ir para as ruas que atravessavam toda a vila para fazermos marcha atlética”. Num Portugal, ainda, mentalmente atrasado, a marcha “pela técnica que dispõe muito característica”, os tornou alvo de “bocas infelizes” e, porque na altura não era comum a corrida nas estradas, viviam também sempre com o receio de acidentes.

“Hoje em dia não há problemas, mas na altura era muito complicado marchar (…)”

Com 34 anos de idade, acompanhou o atleta, na rua. Quando as competições se foram amontoando e este viu que o seu atleta tinha capacidades de fazer melhor, mas ainda estava um pouco à quem – também pela sua vergonha – José Magalhães, de forma a mostrar aos jovens uma esperança e confiança no seu trabalho, foi competir também ele: “também fui fazer as provas (…) quis mostrar aos jovens que era possível fazer bons resultados, mesmo com as dificuldades na vida”. Começa então a sua página do livro do desporto em marcha atlética.

A treinar sem condições e abandonado por algumas direções do clube, percorreu o caminho de chefia sozinho. Como se isso não chegasse, era ainda trabalhar a tempo inteiro, o único treinador e um aspirante a atleta de alta competição. “Eu apareci na alta competição, mesmo limitado (…) treinava os outros e, no intervalo, treinava a mim, sem condições Por equipas, ajudou o Atlético Clube Alfenense a ser sete vezes – consecutivas – campeão nacional de marcha atlética e a vencer sete vezes – consecutivas – a Taça de Portugal. Foi campeão nacional cinco vezes – em absolutos – e, já perdeu a conta a quantas vezes repetiu a proeza, como veterano. Envergou a camisola da Seleção Nacional dezassete vezes e venceu um Campeonato Mundial e três Europeus, em veteranos.

Aos 35 anos é campeão nacional, o que o leva a uma das melhores etapas da sua vida e da carreira de um atleta, “tive a pontinha de sorte, consegui o que qualquer atleta sonha e com 38 e 42 anos ir aos jogos”. O ponto alto da sua carreira foi a ida aos Jogos Olímpicos, em Barcelona 1992 e Atlanta 1996. Como na vida real, nem tudo é colorido, esta ida ao jogos foi, ao mesmo tempo, a sua maior vitória e um risco extremo “Corri o risco de ser despedido da minha própria casa, pelos investimentos que fiz para ir aos jogos”. Um homem que repete “só tive férias duas semanas, durante um ano (…) de resto, foi sempre a tralhar”. Para viver o seu sonho, teve de arriscar todos os restantes pilares da sua vida, conta, emocionado.

Vindo dos jogos, mais desafios foram impostos: novas propostas, novas decisões. Começaram a surgir convites – acompanhados de subsídios – tanto de clubes do continente como propostas da ilha da Madeira e dos Açores. Em Portugal continental, os convites surgiam de clubes como o Boavista F.C., o F.C. Porto e do S.L. Benfica – este com o melhor subsídio do que os dos outros clubes atrás referidos – algo que nunca foi possível no Alfenense.

“Não sei se me apaixonei ou não pelo alfenense, recusei as propostas do boavista, porto e benfica (…) recusei ganhar fora o que não ganho aqui (…) fiquei aqui no alfenense a pagar as minhas contas”.

De 1988 a 2002 representou Portugal – por 17 vezes – e, para além, dos jogos olímpicos teve presenças nos campeonatos do mundo de Gotemburgo – em 1995 – e Atenas, no ano de 1997, nos campeonatos da Europa de Budapeste 1998, bem como, em várias taças do mundo e da Europa. Tem como melhores marcas 3.57.30 h (1997) e 1.26.54 h (1994) nas distâncias olímpicas de 50 km e 20 km, respectivamente.

 De 2000 a 2005, enveredou pela participação em campeonatos internacionais de veteranos, sagrando-se campeão mundial de estrada (30 km, 2000), campeão europeu estrada por duas vezes (30 km, 2001 e 10 km, 2005) e de pista coberta (M45, 3.000 m, 2003).

Como treinador, teve a seu cargo o enquadramento de 11 atletas que representaram a seleção nacional em diversos certames internacionais entre 1988 e 2013.

Agora com 63 anos, acumula as funções de treinador, mantém a participação em competições, tendo sido na presente época campeão absoluto de pista da zona norte nos 10.000 metros marcha (56.08,42 em Guimarães).

“Enquanto achar que não estou errado, eu acho que cada desportista deve (…) há medida que demostra aquilo que é capaz, sem estar preocupado com as entrevistas, com o seu nome ser falado.”

Quando se fala do presente desporto nacional, em específico o atletismo, José mostra-se reticente à continuação de certas vertentes do atletismo, entre elas, aquelas que requerem mais sacrifico e não tanto a vertente técnica. “ (…) há dez anos para cá, Portugal está a perder qualidade no meio fundo e fundo, porque a juventude da rua desapareceu (…) a minha conclusão é precisamente a falta dos miúdos andarem a brincar na rua (…) quando começou a aparecer os telemóveis os miúdos começaram a acomodar-se muito em casa. “Pensei que hoje em dia seria mais fácil para trazer o pessoal para o desporto, para andar atrás de uma bola é fácil, mas pessoas com gana, sacrifico, é difícil.”

Como se trata de se falar de uma lenda viva do atletismo no nosso país, o atleta reconhece que “já fui algumas vezes homenageado, porque fiz algumas coisas engraçadas, mas nunca pedi nada para isso acontece”, contudo, aquilo que poucos sabem é que é, também, esquecido muitas vezes, numa parede de lembranças. Homem com 63 anos, 44 anos de Alfena e AC Alfenense, confessa algumas das mágoas que este caminho o fez ter: direções que o deixaram na rua a treinar, pessoas que não o reconhecem pela verdadeira conquista.

Ao longo desta entrevista, contou-nos algumas das peripécias. Entre elas, a mais atual: foi, mais uma vez, homenageado pelos mais altos escalões políticos do concelho e, quando subiu ao palco, foi chamado pela sua terceira categoria possível – campeão nacional. “Felizmente fui uma das 70 pessoas ilustres (…) falei pela primeira vez quando vinha a sair da sala quando uns colegas, também do atletismo, perguntaram a quantos jogos fui e eu disse: fui a dois (…)”, “(…) podia ter pedido o microfone e ter dito enganaram-se (…) só que vim embora todo contente “, acrescenta “e, pelo que vi, sou o único atleta olímpico do concelho”.

Um atleta com o campeonato nacional inúmeras vezes, campeonato europeus, mundiais e dois jogos olímpicos –  que carrega como suas memórias, as memórias que levam Portugal às bocas do mundo. José Magalhães promete continuar a fazer história enquanto as pernas lhe permitirem.

No #infomedia não deixaremos que a história destes heróis, morra.

 

 

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