Somos o que comemos ou comemos para tornarmos aquilo que desejamos ser?

“De toda a árvore do jardim podes comer livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal; dessa, não comerás porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”

Ninguém tem certezas se o fruto proibido era ou não uma maçã, mas se até o pecado mais antigo é relacionado com comida, não admira que, atualmente, nos sintamos culpados por tudo o que levamos à boca. A saúde tornou-se um passatempo desde a idade, passando pelo stress e exercício físico, pelas terapias alternativas até aos cafés à prova de bala e às pedras do sal dos Himalaias. O wellness é o menu do dia da nova geração e promete um olhar mais clean e com menos glúten sobre a vida. Sem nos apercebemos, o wellness acertou-nos no ponto mais fraco: algures entre a nossa busca eterna pela perfeição, felicidade e emagrecimento (embora, hoje em dia, ninguém está de dieta, mas sim faz detox).

A ortorexia (ortho=correto e rexia=desejo) é uma preocupação – ou, antes, uma obsessão – com o saudável. Há quem a agrupe com os distúrbios alimentares, como a anorexia (embora neste segmento seja ser magro e não saudável), e outros, com os transtornos obsessivos, mas mesmo sem diagnóstico preciso, os sintomas são os mesmos: ansiedade, inflexibilidade, uma atenção com a saúde física que se sobrepõe a tudo, inclusive à vida social. Se este movimento de bem-estar moderno é sobre o amor à comida, cuidar de nós e do nosso corpo, não ficaríamos a salvo dos distúrbios alimentares? Há quem mantenha um estilo de vida saudável e há quem se reja por ele. A diferença parece ténue, mas está lá. “Atualmente, tem-se observado uma crescente preocupação por parte da população para a adoção de um padrão alimentar saudável.”, diz Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas. “Esta ‘preocupação’ só se torna ‘patológica’ quando existe, entre e/ou compulsivo, autopunição e restrição progressiva, aumentando o risco de distúrbios do comportamento alimentar. A alimentação deve ser um comportamento tão natural que não temos de pensar muito naquilo que podemos ou não comer.” Há quem tenha passado anos a ansiar por uma dieta, perdão, estilo de vida, socialmente aceite, que lhe prescrevesse uma vida de regras. E os distúrbios alimentares refletem a cultura: todos conhecemos alguém que deixou o glúten ou a lactose, viveu a líquidos por três dias (sobre o detox, a bastonária realça que o corpo humano já possui mecanismos eficientes para a eliminação de toxinas) ou persegue, a todo o custo, um lifestyle dentro de normas do “saudável”.

É difícil argumentar contra algo que nos diz para comermos bem, exercitarmo-nos, não fumarmos e bebermos com moderação. Porém, não ocorre a quem faz estas regras que somos todos diferentes? Os nossos gostos seguem-nos como uma sombra e dizem-nos quem somos. Por exemplo, todos nascemos a beber leite, mas depois nem todos gostamos de feijão. Na cultura atual, muitos parecem ter adquirido gostos homogéneos e isso seria como termos todos as mesmas impressões digitais. Outro exemplo: é certo que o óleo de coco é (ou não) mais saudável, mas, se for fazer uma lasanha, fará sentido usá-lo? Há infinitos caminhos para uma vida saudável e o wellness ou o crossfit não têm de ser os certos. “A harmonia é uma tendência atual, mas para a alcançar, é preciso levar a cabo um trabalho intensivo de pesquisa e de adaptação àquilo que realmente nos equilibra e nos dá energia. Corpo, mente e espírito devem estar alinhados de forma personalizada”, diz a especialista em bem-estar, Maria D’Orey.

Sermos nós próprios is the new black? Além do quadrado mágico que importa respeitarmos – sono, alimentação, exercício e rede de suporte -, “é importante apropriarmo-nos da nossa identidade”, acrescenta a psicóloga. Exercitarmos músculos emocionais, como a capacidade de nos autoelogiarmos ou criticarmos, pode ser determinante para nos colocarmos mais em contacto com a nossa “humanidade”. “Só podemos ser felizes em modo ‘pessoa’, isto é, com as redes sociais e a enorme quantidade de informação, mas é ainda mais importante fortalecermos a nossa identidade, procurando, dentro de nós uma coerência entre as nossas ações e os nossos valores, de forma a que não nos tornemos numa versão clonada de alguém.” One size fits all nunca resultou na Moda, não ia ser agora que ia vingar na área da saúde. Qual é segredo mais bem guardado do wellness? “Há mais sabedoria no seu corpo do que nas suas filosofias mais profundas.” (Nietzche)

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