O Jornalismo e as histórias que ninguém vê

No passado dia 13 de Março, a Universidade Lusófona do Porto acolheu a aula aberta ”Jornalismo e as histórias que ninguém vê – Como podemos dar voz ao mundo ao redor?”, que contou com a presença de quatro oradores dispostos a debater o atual paradigma do Jornalismo.

Os jornalistas são, no fundo, os meus olhos.
– Diogo Rodrigues, aluno da ULP

O Diogo sonha ser jornalista. Está, neste momento, no primeiro ano do curso de Ciências da Comunicação. Foi ele que, na qualidade de orador, encetou a aula aberta, algo que já lhe é habitual- tomar a iniciativa-, como relata a sua professora Carla Cerqueira que, juntamente com a professora Vanessa Rodrigues, lecciona a disciplina de Ciberjornalismo na qual se inseriu a aula. Essa iniciativa inerente trouxe-lhe até à Universidade onde hoje estuda,  depois de lhe terem negado um lugar para estudar jornalismo numa universidade pública.

É cego desde os dois anos, aquando a remoção de um tumor cerebral, e sente dificuldades, como consumidor, em acompanhar as notícias, porque os meios de comunicação não oferecem as condições devidas às minorias.
Foram vários os exemplos testemunhados que espelham essa dificuldade no dia a dia; desde a escassez de elementos áudio descritivos nas televisões (fez menção à RTP por ter áudio descrição e estar empenhada em evoluir nesse sentido), do suporte em papel dos jornais e livros (referiu o Jornal de Notícias e a Visão por oferecerem, em formato digital, condições propícias embora ”a pessoa cega não deve ser excluída do contacto com o papel”) até ao acompanhamento em Museus e Teatros que ”ainda têm de trabalhar em certos aspetos”, acabando por mencionar a rádio como o meio que mais se preocupa com estas questões, contrastando com as televisões ”que descuram um pouco”.  É precisamente nesse aspeto que ele tenciona bater-se: pela igualdade.

“Eu pretendo abrir a porta para outras pessoas que me queiram seguir as pisadas”.

A ideia de que um deficiente visual não tem acesso ao conhecimento foi um dos motes para a organização da aula aberta, ideia que o Diogo tratou de desconstruir, sob o olhar atento dos espetadores, na sua intervenção e na vontade que exprimiu, ”se um dia tiver o privilégio de trabalhar em televisão e fazer diretos”, tentar quebrar os preconceitos ainda existentes e abrir mentalidades.

“O jornalismo não é para os governantes, é para os governados.” –  Paulo Pimenta, fotojornalista do Público

Paulo Pimenta trabalha ”naquilo que vivo todos dias, a fotografia e o jornalismo” e colabora, também, com o grupo de Teatro Crinabel desde que os viu apresentarem a peça ”Metamorfose” no teatro Helena Sá e Costa.
Sempre predisposto a dar voz ao mundo, manifestou o desagrado que confere à dificuldade de encontrar pessoas que procuram e fazem o trabalho jornalístico, não deixando de reforçar o privilégio ”por trabalhar no Público e com a Crinabel” que focam estas causas.

O olhar, o sentimento, a relação com a máquina fotográfica e com o que fotografa estão intrínsecos no sentido de ”fazer e alterar alguma coisa”. Algo que, para ele, com a Internet e as redes sociais, o desinvestimento e o facto de as pessoas passarem mais tempo em frente ao computador se torna mais complicado.

“Há um stress brutal nesta ansiedade dos clicks, os jornalistas estão preocupdos se o seu trabalho foi mais ou menos partilhado. Isto é o que me dói.”

A procura por histórias, o combate ao ócio permitido pela informação computadorizada, a vontade permanente de viajar entre os problemas, procurar além da agenda e o pouco interesse dado a essas pessoas, quando o certo deveria ser ”dar o máximo de voz e protagonismo”, foram algumas das questões desenvolvidas por Paulo Pimenta que, em desabafo, partilhou no ambiente do salão nobre da Universidade Lusófona do Porto.

“Nós somos todos diferentes e somos todos iguais. Estarmos atentos e não olhar para o lado, ir ao cerne da questão…isso é a diferença. A tua atitude, tu estares cá, não fazeres só aquilo que te mandam. A nossa vida é mais que isso.”

Depois, com orgulho, recordou histórias que acompanhou na Crinabel, como a Ana Rosa que todos dias escreve, ou o António que ”é fascinante vê-lo quando está em pleno ensaio ou a preparar-se para a peça”. Para reforçar, uma vez mais, a necessidade do jornalista ter que marcar, pensar, ir à procura, falar e sentir as pessoas para também se sentir útil, contrariando a nova vaga que ”prefere estar à frente do computador a fazer a função pública”.

Foto de Paulo Pimenta com o grupo Crinabel

“Qualquer ser humano transporta uma história.” – Marco Paiva, Crinabel

Marco Paiva chegou ao projeto Crinabel em 2000,  grupo de teatro que funciona há mais de 30 anos, com uma missão, agir como um grupo com valores e objetivos nas práticas linguísticas. O projeto foca-se na ideia de que a arte deve ser global e acessível a qualquer ser humano.
Num testemunho, via Skype, alertou que as questões, ali abordadas na aula aberta, deveriam transcender para qualquer redação jornalística. Marco faz parte da direção artística desde 2008 e revela que ”este tipo de movimento é fundamental para mudar as alterações práticas e políticas culturais e sociais”. Mencionou Paulo Pimenta uma vez que as imagens que fotografou do projeto se diferenciavam do resto, pois ele ”fotografou junto aos artistas”, numa altura em que é ”muito difícil em Portugal divulgares o artista e muito menos iniciativas ligadas ao espetáculo”, onde é preferível cobrir eventos de outra dimensão porque vendem.

“Quando tu provocas esta discussão, não contemplam que um bailarino possa ser um bailarino com uma cadeira de rodas.”

Após várias atuações em escolas, o grupo decidiu expandir-se e atuar em teatros e a discrepância de atuar para dois pólos diferentes sentiu-se. Enquanto que nas escolas conversavam e interagiam diretamente com os alunos, a forma como os teatros abordam a questão de atuar, por vezes, aborrece Marco na medida em que se preocupam demasiado com condições especiais para o grupo atuar. Esquecendo assim que aqueles atores apenas querem mostrar a sua peça e incentivar a ida de toda gente a espaços culturais.

“Não queremos falar de ciclos, nem de reabilitações. A discussão é intercalar a forma artística para todos.”

A discussão constante entre o trabalho do seu grupo e a pouca cobertura dos media, em pessoas como as que compõem a Crinabel, foi um dos pontos assentes da sua intervenção.
A responsabilidade que tem em mãos de inquietar e sensibilizar o público é exigente, porém a vontade é sempre a mesma: ”Queremos estar nas programações. Queremos um público mais informado e atuar para públicos maiores”.

Não pode haver a lógica do coitadinho ou do super-herói. Sofia Pires, mentora da revista Plural & Singular.

O projeto Plural e Singular foi lançado a 3 de Dezembro de 2012, em busca ”da voz e dignidade para estas minorias”. é uma revista baseada em artigos de profundidade e  de reportagens alargadas. Uma das questões debatidas pela Sofia foi, aquando o início do projeto, se deparou que não era possível fazer uma revista em braile, pelo tamanho absurdo que teria e pelo preço excessivo. Esta problemática levou a que apostasse no formato digital, tema que desencandeou algumas ideias sobre aquilo que deverá ser o futuro para tornar o ”acesso à informação mais inclusivo”: o digital.
Neste momento a Plural e Singular, que age com a premissa de se sustentabilizar e chegar a todos, tem três projetos para além da revista.


Um concurso internacional de fotografia que, desde 2014, assinala o dia internacional das pessoas com deficiência. A secção informativa Sexualidade e Afetos que, dentro de vários objetivos, engloba a troca e a partilha de experiências por parte de pessoas quer tenham, ou não deficiência. E a parceria com o programa Erasmus+, um programa onde é possível que pessoas com deficiência possam fazer Erasmus com acompanhamento.

“É um mito dizer-se que pessoas com deficiências não conseguem ou não têm vontade de se relacionar sexualmente com outras pessoas, é mentira.”

Dizer-se ”surdos mudos” é errado. Todos os surdos têm capacidade, caso seja estimulada desde cedo, para falar ou, a ideia de que pessoas com deficiência não se educam culturalmente é igualmente errónea. Foram dois de vários mitos que Sofia tratou de desconstruir.
Por fim, terminou o seu testemunho ao apelar para uma linguagem mais inclusiva, apresentando vários termos para uma boa prática jornalística.

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