Paulo Pimenta: “O mais importante é o respeito pelo outro”

Contador de estórias há mais de duas décadas, Paulo Pimenta vê o fotojornalismo como uma missão. A convite da Universidade Lusófona do Porto partilhou na aula aberta “Jornalismo e as histórias que ninguém vê – Como podemos dar voz ao mundo ao redor?” qual a importância de um jornalista ter sensibilidade e por que se devem criar agendas paralelas nas redações.
Em entrevista ao Infomedia mostra-se certo quanto ao mais importante na hora de fotografar: o respeito pelo outro.

 

Como é que surgiu esta necessidade de criar esta agenda pessoal, que depois acabou por transportar para os órgãos de comunicação nos quais tem vindo a trabalhar?

A minha necessidade de criar a minha agenda é que acima de tudo eu vivo muito intensamente a fotografia. Adoro fotografar, adoro jornalismo. E gosto de ser jornalista. Então junto as duas coisas, a fotografia e o jornalismo. E em relação à agenda é mesmo isso: há coisas que por vezes não há tempo, ou os meus colegas não podem, ou passa ao lado e há cenários, ou temas, que muitas vezes não são abordados. Acima de tudo, agora como não há muito tempo e muitas coisas vão diretamente para a internet e para o site, dá-me possibilidade de eu fazer ainda mais trabalho sem estar muito dependente de outros colegas meus para irem escrever ou terem de se deslocar. Porque há muita coisa que eu ainda faço, como fotogalerias (como em peças de teatro, peças de dança) e a outra agenda de trabalhos que vou propondo e trabalhos que eu acho que são importantes de se fazer, que são notícia também e que são reportagens que se devem fazer e, como é óbvio, vou sempre propondo em conjunto com outros colegas. Há colegas meus que vão trabalhando comigo, que estão muito disponíveis, ou são eles a propor-me a mim ou sou eu a propor-lhes a eles, e a seguir passo para o jornal.

Sobre a abordagem das temáticas que estivemos a falar agora na aula aberta, é necessário criar-se uma distância com estas pessoas que vai fotografar? Ou, bem pelo contrário, é necessário criar uma ligação com as pessoas para conseguir captar a essência delas ao fotografá-las? 

Acima de tudo é o que eu há bocado dizia, em tudo o que nós fazemos, ou que eu faço, tento sempre pôr-me no lado do outro; estar no lado do outro. Tenho que pensar que tenho de ter o respeito pelo outro e tenho que saber, perfeitamente, o que é que eu estou a fazer e porque é que estou ali. E, acima de tudo, tenho de estar bastante informado em relação ao grupo ou à pessoa. O mais importante é o respeito pelo outro. É percebermos até onde é que podemos ir e a relação é essa, é sabermos estar, sabermos ouvir, compreender, saber estar com o grupo e as pessoas.  Porque é importante nós entrarmos nos cenários, sejam eles de tragédia, ou “normais” e a nossa postura ser de tentar ao máximo compreender o outro, ou compreender a situação. Sabermos por que estamos ali e no momento em que estamos lá. E há situações muito complicadas. Como por exemplo, estou a lembrar-me do caso de Pedrogão, quando foi o dia da tragédia. Quando eu cheguei ao local e tive de abordar as pessoas, pessoas que acabaram de ficar sem familiares, que ficaram sem uma família inteira; antes de tudo tenho de me comportar como uma pessoa, não como um jornalista, mas como uma pessoa que está ali a tentar perceber o que aconteceu e estar com o olhar cuidado e perceber se posso estar ali ou não, se posso fotografar ou não. Convém perguntar se posso fotografar, se podem falar comigo, se posso estar ali naquele momento e respeitar. Se a pessoa diz que não quer, que não pode, que não está interessada, a única coisa que tenho de fazer é ir embora e deixar em paz. Porque são situações mesmo muito complicadas e que eu próprio me sinto mal por estar lá porque são momentos muito delicados.

Como é que se fotografa essas situações sem que depois a leitura feita por quem vê seja a de um olhar de pena?  Como é que se faz essa gestão? 

É assim, há situações que uma pessoa tem que ter noção. Estar a fotografar uma tragédia é diferente de estar a fotografar uma peça de teatro, e a maneira como nós devemos de estar, não há formas, há a maneira como nós sentimos o momento, como eu sinto o momento. E a situação é essa, é ter sempre em atenção o respeito pelo outro, a dignidade do outro. Não o usar, não abusar, não ultrapassar a barreira do sofrimento. É termos mesmo respeito, é perceber que aquele momento que estamos a fazer é um momento em que aconteceu uma tragédia, que foi complicado, que está a ser complicado. Temos que dar a notícia, mas a maneira como damos a notícia, ou a imagem, deve ser humana e devemos pôr-nos do outro lado. Claro que em situações limite não ia gostar muito que alguém estivesse a fotografar-me, ou a filmar-me num momento em que perdi alguém muito querido, ou próximo de mim. Mas não precisamos de fazer o óbvio, não precisamos de estar em cima das pessoas, de explorar esse lado de sofrimento, mas pode-se abordar e registar a mesma pessoa, o mesmo momento, o mesmo sofrimento sem nunca estar a explorar diretamente.

Nesta cultura do jornalismo imediato praticada no jornalismo diário, que foi também discutida durante a aula, existe capacidade de inserção e espaço para temáticas que envolvam pessoas portadoras de deficiência? 

Existe espaço, se existir vontade. Existe espaço sempre que o jornalismo toma iniciativa e que queira fazer, que queira trabalhar, que queira procurar. Eu falo pelo meu jornal, ainda no ano passado fiz um trabalho que fui eu que propus ao Jornal, sobre os paralímpicos em que eu andei durante uma semana a acompanhar pessoas das sete modalidades que iam; foram 7 histórias que fizemos, 7 paralíticos e durante uma semana saiu uma história de cada um deles no meu jornal. Isso foi fantástico. E há espaço, mas é preciso incentivo, é preciso propor, é preciso estarmos atentos.

O problema está na receptividade ou na falta de iniciativa? 

Eu acho que às vezes está em ambas. Porque hoje em dia um dos problemas é, de facto, haver poucas pessoas, as pessoas não têm tempo, não há investimento. É mais fácil estar dentro da redação, passar o dia na redação porque tens que estar a alimentar o site e as notícias. E depois também, hoje em dia, as coisas saem muito rápido, acontecem muito rápido e também duram muito pouco tempo, é o “ao minuto”.

Acredita que a sensibilidade e o interesse por estas temáticas se constrói? Acha que a Academia desempenha um papel importante nesta mudança de paradigmas e de práticas? 

Acho que é bastante importante. Ainda agora tivemos este exemplo, uma aula aberta em que falamos desta área. Eu acho que é importante, e então nos cursos de jornalismo, como em tudo. Mas acima daquilo que se está a passar é importante a Academia ter noção de que lá fora é uma coisa; cá dentro as teorias, as práticas são uma coisa, mas quando passamos lá para fora a situação é outra. E acho que é muito importante quem está a ensinar, e quem está a aprender também, ter essa noção. E acima de tudo quem está a ensinar não dar só um bocadinho daquilo que se passa lá fora e também pôr os futuros jornalistas em contacto com as várias realidades, com os vários órgãos de informação, e perceber bem o que é que se está a passar. Porque eu, às vezes, o que eu fico admirado…e há bocado mandavam a boca do estagiário que vai para a redação e praticamente não existe, ninguém lhe liga, não tem voz. Mas a verdade é que eu, com a quantidade de estagiários que já passaram pelo Jornal, os que ficam na memória ou aqueles que ficaram a trabalhar lá foram aqueles que foram até à exaustão de trabalho e de propostas, mesmo estando a cumprir o programa de estágio e o serviço de agenda. Mas havia e há malta que não se limitam a ficar no seu lugar, a receber as informações e as ordens e as dicas do jornalista daquilo que está a acontecer. Há muita gente que vai fazendo, que vai propondo, e isso é que marca a diferença. Depois é outra coisa que é saber agarrar a oportunidade, que é: mesmo sabendo que posso não ficar no sítio, aproveitar. O estar num determinado Jornal durante três meses é carregar essa carga de consciência de que está num jornal em que é preciso ser-se exigente, que é preciso ir à luta, e não ficar só à espera do que o jornalista manda fazer. E mesmo assim, se só ficar a fazer isso tudo bem, é uma opção, mas tem que dar sempre o seu melhor. E essa deve ser a sua missão. Se foi opção ir para jornalismo, então não pode ser um problema, tem de ser sempre um prazer. Mesmo estando a sofrer, com ansiedade, com todas as dificuldades que uma pessoa tem. Eu vivo isso todos os dias também: a ansiedade, os medos – todos os dias parece que estou a começar, e já passaram muitos anos, e todos os dias estou recetivo a aprender. E é um privilégio para nós fazer aquilo que gostamos! Hoje em dia cada vez há mais pessoas que não fazem o que gostam, é um martírio, é uma seca… então se estás a fazer aquilo que gostas e se ainda te pagam, e seres tu a controlar a tua agenda e o que queres mesmo passar cá para fora porque é a tua história – és tu que estás a fazer história, estás a fazer o teu momento – melhor do que isso não há.

 

Fotojornalista do Público há mais de vinte anos, Paulo Pimenta alimenta ainda dois blogues pessoais – “Paulo Pimenta Diários” e “Fotopress” – nos quais partilha a agenda que mantém paralela à da redação. Foi em 2006 que se deu o encontro com o Grupo de teatro Crinabel, do qual nunca mais se separou.
Paulo Pimenta não hesita em afirmar que quando há vontade e iniciativa existe espaço para o que jornalista quer fazer. A mensagem deixada aos estudantes de jornalismo é clara: propor, fazer, trabalhar, marcar a diferença e pensar como seria se estivessem no lugar do outro.

 

Entrevista realizada por Bárbara Dixe Ramos e Carolina Franco.

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