Marco Paiva: “A escola onde tenho aprendido a ir sendo e não a ser.”

Há quase vinte anos, Marco Paiva sobe o pano e desvenda à luz dos holofotes talentos do teatro nacional. O Projeto Crinabel Teatro comemora trinta anos. Aquele que começou por ser um projeto pioneiro em Portugal continua a potencializar capacidades artísticas, pessoais e sociais. Através de um trabalho que tem feito pelo fim da discriminação no campo das artes performativas, Marco Paiva foi convidado pela Universidade Lusófona do Porto para expor as suas experiências na aula aberta “Jornalismo e as histórias que ninguém vê – Como podemos dar voz ao mundo ao redor?” e debater a invisibilidade e pouca divulgação mediática em relação à diferença.

Em conversa com o Infomedia, Marco Paiva mostra a relevância do teatro como atividade inclusiva e expõem alguns fatores que têm condicionado as artes performativas.

 

Como é que o teatro consegue ser uma atividade inclusiva para as pessoas portadoras com deficiência?

 A prática teatral vincula uma cumplicidade e uma proximidade entre artistas e públicos, procurando no essencial, o desaparecimento de qualquer fronteira entre estes dois agentes. A prática inclusiva acontece quando encontram pontos de convergência. E por convergência, não se deve entender, total aceitação, concordância ou entendimento. Muitas vezes essa convergência acontece por meio de uma estranheza, de um conjunto de dúvidas, receios e baralhações. Concordância, porque ficamos juntos num território que deve ser de busca e não de certezas, porque decidimos – artistas e públicos – ser um coletivo que não abandona, que não desiste.

 

De que forma é que a Companhia Crinabel tem conseguido trabalhar essa inclusão?

 O projeto Crinabel teatro tem procurado essa inclusão através de uma continuada prática criativa, de uma provocação constante à norma e ao paradigma, procurando derrubar essa mesma norma, esse mesmo paradigma. O trabalho que temos desenvolvido procura essa ideia de inclusão, não pela aceitação da formalidade do conceito social de Inclusão, mas sim pelo combate a esse mesmo conceito. Procuramos, insistentemente, suprimir a palavra inclusão e utilizar a palavra diálogo. Nós não nos queremos incluir, queremos construir em coletivo, o todo.

 

Como coordenador deste projeto, o que mudou na sua visão em relação ao teatro?

 O projeto já existia antes de eu chegar! O projeto nasceu em 1986 e eu só cheguei em 2000. Na verdade, não mudou porque eu só comecei a interessar-me por teatro dentro deste projeto. Esta foi a minha primeira escola. A escola onde tenho aprendido a ir sendo e não a ser.

Como é a recetividade do público ao assistir os espetáculos da companhia?

 Nos últimos anos (e fruto de uma aproximação do projeto Crinabel Teatro a co-produtores de maior dimensão) o trabalho que desenvolvemos tem chegado a um público mais diversificado. O público vai acompanhando o nosso trabalho e vai mantendo um diálogo constante com as propostas que vamos fazendo. É importante para nós estender esse diálogo, procurando manter viva e presente a premissa de encontrar outras formas de olhar para o que nos rodeia, tentando sempre provar a ideia de procura, de inquietação e de comunhão.

 Como é que os portugueses, na sua opinião, encaram o teatro inclusivo?

 Não reconhecendo o termo, não sei responder. No entanto, os desafios da arte que necessitam de escuta, de proximidade, de diálogo, enfrentam os desafios de qualquer outra atividade com estas mesmas necessidades. Numa sociedade que funciona à velocidade da luz, é difícil pedir a alguém para parar e escutar, para se pôr em causa, para observar. É residual a importância que a maior parte dos portugueses dá à criação artística. É mais fácil o entretenimento.

Que fatores têm condicionado a indústria cinematográfica e musical, assim como no teatro para a inclusão de indivíduos portadores de deficiência?

 Bom, em primeiro lugar, será talvez importante refletir se em Portugal existe a ideia de indústria artística. Arrisco a dizer que não. O condicionamento advém da necessidade destas práticas continuarem a responder ao cânone paradigmático que as formalizam. No entanto, há artistas que trabalham sobre a destruição desses cânones e procuram desenhar espaços de criação mais livres e desequilibrados; zonas de trabalho que procuram novas formas de olhar para o mundo, para as técnicas, para a criação artística em geral.

O que é que falta para que o teatro seja mais apoiado?

 A criação artística em Portugal é deficitariamente apoiada pelo Estado porque na verdade não é uma prioridade nem para o Estado, nem para a maioria da população portuguesa. O Estado afeta 0,2% do seu Orçamento de Estado ao setor cultural: destes 0,2% sai uma pequena migalha para a criação artística. Falta tudo. Falta num primeiríssimo plano, entender a prática artística como eixo valorizador de uma sociedade inteira.

 Como é possível ultrapassar a pouca visibilidade que os media nacionais dão a estes eventos?

 Os media, em geral, dão pouco valor, relevância e espaço contínuo a qualquer evento que não envolva muita gente e muito dinheiro. É difícil convocar os media para acompanhar trabalhos que exigem dedicar tempo e que levantam mais questões que certezas. O que poderá ajudar, será um trabalho mais direto com os agentes dos media, tentando envolvê-los pessoalmente na prática criativa e artística, sensibilizando-os para a mais valia de mostrar ao público os diferentes olhares sobre o mundo. Relativamente aos grandes grupos de media, não há muito a fazer. São estruturas montadas para gerar dinheiro.

 

A convite de um amigo, Marco Paiva entrou para o projeto Crinabel Teatro em 2000. Após quatro anos, ficou responsável pelas encenações e em 2008, começou a coordenar este projeto pedagógico e artístico.

A música ficou para trás, mas a vontade de contribuir para os sonhos de pessoas portadoras de deficiência ganhou o papel principal. Como diretor artístico do grupo Crinabel, Marco Paiva refere que a diferença é “aquilo que está para além do óbvio”.

 

Leonor Ferraz e Susana Leão

 

 

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