Quanto mais raspo, mais gosto de ti: o vício dos jogos instantâneos

É o “troca-troca.” Segundo dados fornecidos pela Santa Casa, a raspadinha é o jogo social mais procurado, seguido do Euromilhões.  Os valores dos prémios e a rapidez de acesso aos resultados são algumas das causas para a sua popularidade.
A rua Sampaio Bruno é um dos locais com mais casas de jogo na cidade do Porto. Todos os dias, desde apostadores a cauteleiros jogam com a “esperança” de ganhar prémios.

 

 

Em entrevista ao Infomedia, Bruno Bento, responsável pela Linha de Apoio ao Jogador, esclareceu algumas dúvidas e curiosidades acerca do prazer do jogo e do vício de “raspar”.

Como é que os jogos instantâneos se tornam tão viciantes?

Algumas pessoas questionam-nos, a nós, comunidade científica, o que é que torna alguns indivíduos tão dependentes de jogos como a raspadinha. Classificamos em três fatores: situacionais, estruturais e individuais.
Na dependência de jogo instantâneo, o fator predominante é o estrutural, devido às características do próprio jogo. A partir do momento em que a pessoa compra a raspadinha e faz a sua aposta, passa muito pouco tempo para saber o resultado, ao contrário da lotaria que demora alguns dias. A frequência de eventos é bastante rápida, o que gera mais vontade em participar.
Para além dos fatores estruturais existem os situacionais que tem a ver com um determinado jogo “estar na moda” ou a uma divulgação acentuada nos meios de comunicação. Os fatores individuais têm a ver com as características dos jogadores, ser alguém mais impulsivo ou competitivo, por exemplo.

Como é que alguém passa a ser considerado viciado em jogos instantâneos?

Existem alguns critérios que permitem avaliar o estado de uma pessoa dependente: um deles é se a pessoa vai aumentando a frequência com que joga e a quantia que é investida no jogo é maior ao longo do tempo; tentar controlar o jogo e parar de jogar, mas sem sucesso; estados de inquietação e irritação ou pensa muito no jogo, mesmo não estando a jogar. Por vezes, o jogo pode ser entendido como uma forma de escape, devido a situações problemáticas ou angústias e acabam por se refugiar no jogo. Acabam por pensar que o jogo é uma solução para esses problemas, mas, na realidade, acabam por piorar as situações. Quando se é dependente do jogo, o pensamento central dessas pessoas é: como e quando é que vão jogar ou arranjar dinheiro para o fazer.

Existem pessoas com maior aptidão para a dependência do jogo do que outras?

Não existe um perfil fixo para uma pessoa dependente no jogo, mas existem algumas características que podem influenciar esse comportamento como a impulsividade, isolamento social, frustração, problemas de ansiedade e stress, tendências mais competitivas ou a procura constante da adrenalina em situações. A baixa auto-estima também pode influenciar nestas questões.

Quais os procedimentos e tratamentos existentes para “curar” a dependência do jogo?

Os tratamentos dependem dos casos que vão aparecendo, mas grande parte obedece a um procedimento. Em primeiro lugar, uma reunião. Não só com o paciente, mas também com a sua família, visto que este problema não traz apenas transtornos ao individuo. Sugerimos esta primeira reunião para tentar criar algum apoio ao jogador durante o tratamento.
Em segundo, são feitas as consultas, normalmente em três fases: a primeira fase é para compreender a vida da pessoa e os seus comportamentos de jogo; a segunda é compreender as limitações e as dificuldades que têm com os outros, e a partir daí tentamos desenvolver estratégias internas para que estes possam lidar melhor com essas situações e não recorram ao jogo. As estratégias internas passam por consultas de psicologia ou psicoterapia.

Quais são as estratégias para sejam minimizadas as probabilidades de dependência no jogo instantâneo?

As estratégias recomendadas são: em primeiro lugar, pensar no montante que está disposto a gastar no jogo, mas no sentido de se divertir e, evidentemente, de perder. Em segundo, pensar em qual é o tempo que se pretende gastar para jogar. Dez minutos ou meia-hora? O planeamento do jogo é sempre importante e sinal de controlo. Nós não condenamos o jogo, mas a relação que as pessoas estabelecem com ele.

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