A Guerra dos Tempos Modernos

É a guerra mais importante do nosso tempo. Discutimos hoje a guerra da verdade. Ao longo dos últimos dias, foram reveladas estratégias de manipulação profunda que terão tido influência nos resultados nas eleições norte-americanas para eleger Donald Trump, em eleições de outros países democráticos e no referendo sobre o Brexit, no Reino Unido. Tudo isto só foi possível por uma única razão – cada um de nós deposita toda a informação sobre si próprio nas redes sociais. Por esse motivo, o Facebook encontra-se, atualmente, no epicentro da maior manipulação política de que à memória. Pela primeira vez, podemos afirmar com um grau de certeza muito grande que o resultado de uma eleição foi produto de uma manipulação do qual os alvos dessa mesma manipulação nunca estiveram cientes. Explicamos como as nossas intenções são subvertidas e sabotadas por alguém que se apropria dos dados que os utilizadores depositam voluntariamente nas redes sociais e na utilização imoral, mas não ilegal, desses mesmos dados.

A notícia sobre o Cambridge Analytica já era sussurrada desde a eleição de Trump. Veio reforçar tudo aquilo que vários distópicos previam, como George Orwell, por exemplo. Todos viram confirmar que existe uma tendência para alguns se apropriarem da capacidade de manipulação das pessoas, das pessoas enquanto eleitores, porque esse é o caminho para o poder. Sempre houve mecanismos legítimos de persuasão na política, mas a esses devemos aplicar o filtro do nosso próprio critério e do nosso livre-arbítrio. Porém, quando estamos a ser manipulados sem o sabermos, estamos a ser alvos de uma violação ética profunda, com resultados que não controlamos, e para os quais contribuímos sem disso nos darmos conta.

Começámos por tentar perceber a diferença entre os dois mundos que convivem, hoje em dia, ao nível da persuasão, onde convive o velho mundo de meios de Estados que tentam convencer, através dos media tradicionais, um vasto número de pessoas que realmente estão a ser manipuladas ou a darem as notícias que querem que sejam as notícias verdadeiras e que elas assimilem como tal, que convive com esta capacidade real, muito mais sofisticada, baseada em dados na sua análise, na sua manipulação psicológica, na sua afinação e no seu “tiro perfeito” a alvos determinados para que o efeito desejado seja aquele que os seus mentores procuram. Nos Estados Unidos, acontece uma coisa chamada “Televisão Sindicada”, que pertence a uma de seis organizações que realmente controlam todo o circuito noticioso nos Estados Unidos. Quando uma notícia é largada editorialmente, ela é mandada para todas as redes de televisão filiadas dessa organização, repetindo entre os diferentes noticiários, onde os jornalistas repetem em diversas entoações. Para exemplificar esta ideia, utilizamos o exemplo da televisão russa, a Russian TV, canal falado em inglês, que explica aos norte-americanos que estão a ser manipulados, de como as notícias são feitas nos Estados Unidos. A jornalista pivô comunica no noticiário que os americanos estão a ser manipulados por seis organizações que detêm os principais órgãos de comunicação, cujo o único objetivo é o lucro, isto acompanhada por imagens gráficas de seis árvores genealógicas com o nome da organização, na base, e os órgãos de comunicação que ela gere, em cima. O mesmo acontece em Portugal, com quatro organizações que controlam os media nacionais.

É a partir desse exemplo, que passamos para a empresa Facebook. A diferença entre o Facebook e as organizações que controlam os media tradicionais é que o Facebook atua a nível mundial. Atualmente, o Facebook tem dois mil milhões que, quase todos os dias, vêm o news feed, notícias que lhe chegam feitas à medida, de acordo, com as suas preferências e escolhas e com aquilo que os algoritmos desenvolvidos pelas equipas de programadores do Facebook e das empresas associadas a ele conseguem fazer através dos comportamentos digitais das pessoas. É por isso, que somos confrontados, habitualmente, com anúncios de viagens se andarmos a pesquisar sobre voos em um site.

O problema que se coloca em questão é a quando aquilo que nós vemos é aquilo que alguém quer que nós vejamos. E foi servindo desse mecanismo que a empresa Cambridge Analytica conseguiu manipular o resultado de duas eleições que falamos no início desta reportagem. A pergunta é: como isto aconteceu, como estas pessoas se encontraram, quem elas são e qual o interesse que cada uma delas têm, no resultado que daí se veio a produzir. Um cientista que analisa dados, que trabalhou para a Cambridge Analytica,  compunha os dados de uma forma útil, revelou sobre como é feito esse processo. A empresa com o dinheiro de Robert Mercer –  um bilionário gestor de fundos que financiou a Cambridge Analytica com 15 milhões de dólares – pagou à empresa de Alexander Nix – fundador da SCL Group, empresa especializada em influenciar eleições – recortou o senhor Aleksandr Kogan para terem acesso a mais de 50 milhões de perfis de utilizadores de Facebook (Kogan juntamente com Christopher Wylie percebe que não basta ter acesso aos dados, mas que recorrendo aos princípios da psicologia consegue que um determinado número de mensagem se altera-se o comportamento das pessoas).

Christopher Wylie explica num vídeo como funciona este processo. De acordo com mesmo, o professor Kogan tinha aplicações com autorização do Facebook, de fazerem a colheita de informação do perfil de determinados utilizadores, mas não apenas dessa informação, como da informação dos amigos e dos amigos dos amigos desse utilizador, ou seja, se o primeiro cedia informação voluntariamente, já os amigos não cediam informação nenhuma. Estavam a fazê-lo, porque legalmente o professor Kogan tinha acesso a esses perfis de Facebook. A verdade é que com cerca de 200 mil pessoas conseguiu-se chegar a 50 milhões de pessoas, e partir daí chegar quase à totalidade de habitantes nos Estados Unidos.

Este caso tem sido investigado por vários jornais. O jornal “The Guardian” publicou uma imagem de apresentação de powerpoint de como este exemplo de manipulação dos cidadãos americanos foi utilizado como estudo de caso para conquistar novos compradores noutros países e noutras áreas de atividade ou de negócio, para além da política, onde explicaram rigorosamente o que fizeram. Essa apresentação foi usada em reuniões de trabalho, com possíveis novos compradores, inclusive, foi apresentada ao Donald Trump, numa dessas reuniões, onde depois foi utilizada para venderem o seu caso extraordinário para ver se ganhavam novos clientes. Um desses slides está uma pesquisa típica no Google, onde encontramos escrito como “Hillary vota a favor da Guerra no Iraque – Donald Trump opõem-se”, aqui temos uma indicação onde está escrita “controle a primeira impressão do seu público de alvo”. Isto numa pesquisa feita no Google com as palavras “Trump Guerra Iraque”. No segundo exemplo, temos uma pesquisa no Google, onde a indicação do slide afirma expor negativamente posições da Hillary e escândalos, por exemplo, “Hillary apoia Nafta” com uma frase a dizer que Hillary queria mandar empregos para fora dos Estados Unidos. No último exemplo, levar o tráfico da Internet para páginas com conteúdo relevante para eles, ou seja, estas páginas foram cridas pela Cambridge Analytica para que as pessoas encontrassem quando fizessem a sua pesquisa.

Porém, nem todas as páginas eram apoiantes de Trump. Uma das maneiras para captar pessoas, mostravam um slide de uma pessoa com uma arma na mão, com um título “Defenda a Segunda Emenda”, pedia aos utilizadores para classificar de um a dez como essa imagem era relevante. Se o utilizador classificava como dez, a partir daquele momento recebia, sobretudo, notícias em defesa da Segunda Emenda. Depois, recebiam mensagens subjacentes que completavam o quadro como Trump presidente.

Após este escândalo, o Mark Zuckerberg já veio a público fazer uma declaração, onde afirma que o Facebook devia ser regulamentado, apelando ao Estado que o regulamente para assim o Facebook possa recuperar a credibilidade e a confiança perdidas, sobretudo para os mais jovens.

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