Somos Portugal

Ser portuguesinho é, no fundo, querer escolher o champô que o outro deve usar.

Ser portuguesinho é achar que as mulheres não percebem um chavo de futebol; é julgar que os homens não têm competência nos jardins de infância; é ser amigo do cego, mas deixá-lo às escuras.
Desde que nasci que olho para o céu, mas, mesmo assim, não sou capaz de dizer se amanhã chove, ou faz sol.

Acordar, fazer a cama, trabalhar, um café entre vários, regressar a casa, comer e dormir. O protótipo de pessoa decente. Isto, todos os dias, em loop.
A outra é sempre a maluca. Ou, se não o é, é vagabunda.
Não domina a confeção de bolos, não tem a mania das limpezas e ainda não casou, nem teve filhos. Coitada da mãe que desespera por ser avó e a filha, quis Deus numa piada de mau gosto, escolheu ser artista. E é artista mesmo.

Pinta em bairros sociais e a família pensa que ela “dá no cavalo”, mas ela não gosta de drogas.
A sua paixão é só mesmo pintar aquilo que observa e esse é o seu combustível para o dia seguinte.
Não tem carro, tem sim um número razoável de quilómetros nas pernas. Possui dinheiro suficiente para pagar as contas e, com o que poupa, viaja para pintar outros mundos.
Não gosta de edifícios, nem das estruturas gigantes que, por vezes, invadem a sua paisagem e, por isso, não perde tempo em mostrar aos amigos o grande monumento que visitou no Peru, porque também não o faz em Portugal.
Infelizmente, a mãe pensa que a filha não é feliz. A filha não se preocupa com nada disso. No fim da história, ambas morrem, uma primeiro que a outra.

Assim como todos nós morremos.
A arte não passa de uma brincadeira que querem que acabe quando chegamos a adultos.
Cultura acima de zero.

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