A morte entrou num funeral e saiu a rir

Foi o primeiro funeral a que assisti, in loco, a todos os capítulos: desde o velório até ao enterro. (Desculpa CMTV, sei que me deste essa oportunidade no direto da cerimónia fúnebre do Mário Soares).

Recebi, na segunda-feira pela manhã, a notícia de que o meu avô morreu. Uma das últimas coisas que lhe disse foi que ainda ia a tempo de ver o seu Porto campeão. Espero que, pelo menos, o golo do Herrera, horas antes de ter partido, lhe tenha dado a sensação de que a minha promessa foi cumprida. Como se eu tivesse alguma influência.

Foi o primeiro funeral a que assisti, in loco, a todos os capítulos: desde o velório até ao enterro. (Desculpa CMTV, sei que me deste essa oportunidade no direto da cerimónia fúnebre do Mário Soares).
Os funerais davam um bom sketch. É um ritual manhoso que se transforma num concurso para apurar quem está mais embrenhado no luto. Desde as lágrimas, interruptas por lenços de papel Renova (aquele pacote em azul, um clássico), até à indumentária escolhida, todos vestidos de preto. Está aqui um bom mote para os góticos organizarem um movimento social, será que não se sentem ofendidos ao verem que as pessoas consideram roupa preta para representar um momento, supostamente, triste? Se algum gótico me estiver a ler e levar a cabo esta sugestão, apelo para que se lembrem dos direitos de autor. Ouvi dizer que alguns movimentos sociais e, também, fundações podem ser rentáveis e sempre quis ganhar dinheiro por dar ideias.
Voltando ao concurso, para mim, quem vence é sempre aquela pessoa que precisa de ajuda para caminhar. Há sempre uma pessoa que perde as forças e ameaça cair, essa devia levar a taça.
A última imagem a que o morto devia ter direito era a do seu funeral. Aposto que morria a rir.

O destino do meu avô já estava traçado há algum tempo. Claro que todos nós sabemos o nosso destino, mas, a ele, deram-lhe uma estimativa e não foi a Maya.
A previsão foi baseada no cancro dos pulmões que ele tinha. A receita para o cancro é fácil de adivinhar, três maços de tabaco por dia, num dia mau. Provavelmente o meu caminho será semelhante, estou a esforçar-me.

Outra novidade para mim, foi que vi o meu nome colocado num cartaz (como neto). Nunca pensei que seria desta forma, mas os supermercados e cafés da zona foram invadidos por panfletos onde o meu nome constava. Não é um grande festival, mas é um começo. No entanto, a notícia não se espalhou dessa maneira tradicional.
O Facebook teve um papel preponderante, a agência funerária partilhou o cartaz e desde logo se tornou trend. Pessoas da terceira idade já não lêem o jornal para saber quem morreu, nem vão para a porta dos supermercados, simplesmente fazem scroll no seu feed e partilham, o que torna a coisa muito mais interativa.
“Oh amiga, já viste quem morreu? Vai lá ao meu facebook que eu partilhei.” -disse a senhora Aurora, de 76 anos, nos correios, enquanto esperava para receber a reforma.

O meu avô contribuiu essencialmente para o meu (bom) gosto musical, se hoje sou fã do Augusto Canário isso deve-se a ele.
Quando quiser lembrar-me da sua presença, vejo o vídeo da desgarrada que eu e os meus amigos, no meu 18º aniversário, fizemos, alcoolizados. Ele estava feliz e é assim que o recordo, meu amigo e amigo dos meus amigos.
E se, por alguma razão (que eu não acredito), ele estiver lá em cima, sempre que olhar para as nuvens sei que, metade delas, são o fumo dos seus cigarros.