Todo o ciclo tem o seu fim. E o da água, também!

As grandes metrópoles estão a sofrer a ameaça de falta de água. A Cidade do Cabo é a primeira a receber o aviso. O que está a acontecer e o que está a ser feito? São as perguntas que colocamos.

“Ponto de não retorno”. Foi assim que, a 17 de janeiro deste ano, Patrícia de Lille, mayor da Cidade do Cabo, se referiu ao estado das reservas de água da cidade. De acordo com De Lille, o Day Zero – o dia em que a água deixará de correr nas torneiras – tinha deixado de ser uma probabilidade para se transformar numa iminência a acontecer no espaço de poucas semanas. O tom não podia ser mais duro: “É inacreditável que a maioria das pessoas não pareça importar-se e nos esteja a empurrar precipitadamente para o Day Zero. Já não podemos pedir às pessoas para deixarem de desperdiçar água, temos de forçá-las.” Menos de dois meses despois, a 7 de março, o discurso de Mmusi Maimane, líder da Aliança Democrática, cujo principal bastião político é a região do Cabo Ocidental, não podia estar mais nos antípodas do de De Lille. “Estou feliz por anunciar que, se continuarmos a consumir água aos níveis atuais, e se as chuvas de inverno forem significativas, o Day Zero não irá acontecer em 2018. Isto significa que as torneiras irão manter-se abertas em 2018.” E, de repente, toda a crise terminou. Ou talvez não.

Com a cidade a ameaçar entrar em colapso, o discurso de Maimane teve o efeito de um miraculoso balão de oxigénio – de tal forma que, no espaço de uma semana, o consumo doméstico aumentou em cerca de 54 milhões de litros de água por dia. Mas, afinal, qual foi o milagre que evitou o desastre iminente? Ao que tudo indica, apenas um, e fabricado: mudança de estratégia política. Isto porque, e apesar de todas as teorias da conspiração que, entretanto, brotaram na Internet, os níveis de água nas barragens que abastecem a Cidade do Cabo permanecem em mínimos históricos, não tem chovido e cidade continua a atravessar uma seca severa – assim como todo o país, uma situação já declarada desastre nacional pelo Governo sul-africano. Dias depois da declaração de Maimane, Christine Colvin, da WWF – Fundo Mundial para a Natureza, foi perentória ao afirmar que “há tanta probabilidade de o Day Zero acontecer como havia há uma semana”.

Entre especialistas na área do ambiente e da economia, mas também políticos, a explicação para a suavização do discurso é clara: mesmo que as probabilidades de o Day Zero vir a acontecer este ano permaneçam as mesmas, a Cidade do Cabo não podia continuar a afastar investidores e turistas. “Enquanto a mensagem do Day Zero nos ajudou a alcançar os nossos objetivos de poupança de água, também teve algumas consequências muito negativas. A ideia do Day Zero a pairar no horizonte tem tido efeitos muito negativos no grande pilar da nossa economia, o turismo. Os visitantes mantêm-se longe de uma cidade em risco de ficar sem água”, explicou, num artigo no Daily Maverick, Helen Zille, chefe de estado da província do Cabo Ocidental. Apesar de todas as justificações económicas para a “suspensão” do Day Zero, é unânime entre a comunidade científica que o problema é a longo prazo que as “chuvas significativas” que Maimane mencionou, e pelas quais todos esperam ansiosamente, podem não vir acontecer. Selma Guerreiro, investigadora da Universidade de Newcastle e especialista em Hidrologia e Alterações Climáticas, explicou a dimensão do problema: “A Cidade do Cabo tem um clima mediterrânico, tal como Portugal, o que implica verões secos e quentes, mas também uma grande variedade da chuva de ano para ano. Zonas com este tipo de clima estão sujeitas a secas frequentes e tendem a ter reservatórios (barragens) de modo a não ter problemas durante as secas. No entretanto, a seca nesta zona da África do Sul já dura há três anos e o sistema não está preparado”. Dados que, para muitos especialistas, como é caso de Christine Colvin, significam que a nova estratégia pode vir a revelar-se um enorme erro: “Toda a ciência nos diz que nós vamos ter um futuro seco no Cabo Ocidental. É uma pena que o Day Zero tenha sido posto de lado. Foi um indicador brusco, mas muito útil e as pessoas habituaram-se a ele. Peço-lhes que não tirem os olhos do problema. Nós estamos nisto a longo termo.”

Para Samuele Silva, um morador da Cidade do Cabo, todo este alarmismo poderia ter sido evitado se os governantes tivessem informado a população há mais tempo. “Acho que a maioria da população da Cidade do Cabo não tinha mesmo ideia deste problema quando os jornais começaram a falar do assunto todos os dias. Há alguns anos, vários estudos já haviam identificado que o problema da falta de água iria afetar a Cidade do Cabo, mas, aparentemente, nada foi feito e a população não foi informada”, elabora. A viver na Cidade do Cabo com a mulher e os seus dois filhos, Samuele tem agora de adaptar o seu quotidiano ao limite diário de 50 litros de água por pessoa – apesar do “adiamento” do Day Zero, a limitação à quantidade de água usada por cada habitante permanece igual, ou seja, no nível 6B. E o que significa na prática? Duches que não devem ultrapassar os 90 segundos, água reutilizada para as descargas de autoclismo e a utilização do lava-louças só em casos esporádicos. “Também reduzimos o consumo de massa (a cozedura de alimentos é desaconselhada) … O que, para nós, italianos, foi mesmo difícil.”

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