Catarina Santos: não há nada que justifique ceder aos pilares-base do jornalismo

A propósito da aula aberta “Jornalismo Canivete-Suíço” o #Infomedia entrevistou, quase em jeito de conversa informal, Catarina Santos – jornalista da Rádio Renascença. Após partilhar a sua experiência em campo com a turma do terceiro ano de Ciências da Comunicação, falou sobre as suas preocupações e o estado atual do ciberjornalismo.

Quais são os desafios do ciberjornalismo?

Quando se ouve falar no termo canivete-suíço – eu uso-o como provocação, mas quando comecei a usar este termo era num sentido negativo – pensa-se naquela coisa do malabarismo, de ter que estar a fazer tudo ao mesmo tempo. Eu depois percebi que havia uma forma de não ter que ser assim, mas um dos maiores desafios é esse. E é um desafio permanente, conseguir esse equilíbrio em que o facto de estarmos a fazer várias tarefas, mesmo que elas não sejam em simultâneo, não prejudique a qualidade final do trabalho – esse é um dos maiores desafios. Outro dos maiores desafios – gigantescos – que temos neste momento é que isto abriu-nos portas para contar as estórias de outra maneira, de uma maneira mais completa, de uma maneira muito mais imersiva e interessante de forma a captarmos as pessoas para dentro da história, mas nada disso importa muito se não chegarmos às pessoas. E, por isso, isto vai de encontro a uma das questões que me colocaram hoje, que é a pergunta de um milhão de dólares neste momento: como é que se faz com que as pessoas vejam e passem tempo a consumir estes trabalhos? E aí, eu acho que estamos todos à procura destas respostas; eu não tenho a solução mágica. Acho que quanto menos tempo perdermos em questões absolutamente laterais, como, se a culpa é da internet ou não é, se a internet é o futuro ou já é o passado, ou se foi a internet que veio matar o jornalismo realmente bom que se fazia. Acho que quanto menos tempo perdermos com essas questões e mais estivermos à procura de soluções para fazer, de chegar às pessoas e de estar onde elas estão, melhor. Porque isso é que é fundamental; é continuarmos com a mesma exigência, que sempre tivemos que ter, na forma como fazemos o nosso trabalho, aproveitando aquilo que os novos meios nos deram e que é gigantesco, que é brutal. Eu sinto-me mesmo privilegiada por poder trabalhar e descobrir todos os dias formas novas de contar as estórias, mas ao mesmo tempo considero isso com alguma eficácia a chegar às pessoas, a estar onde as pessoas estão, fazer com que as pessoas consumam. Fazer estes trabalhos e ninguém os ver não serve de absolutamente nada. Esses são os desafios diários com que qualquer pessoa que trabalhe nesta área se está a confrontar.

Ao mesmo tempo essas visualizações não a fazem questionar? Não a levam a pensar “será que vale a pena continuar a fazer isto”? 

Sim…mas enquanto me fizerem questionar a mim está tudo bem, o problema é quando começarem a fazer questionar quem me permite que isto seja feito. Acontece muitas vezes existirem projetos bastante promissores e que perdem a capacidade de seguir em frente. Porque nós estamos todos à procura – e aí não deviam ser os jornalistas a estar à procura, mas as empresas que permitem que o trabalho jornalístico sobreviva e seja feito – de um novo modelo de negócio. O que tínhamos esgotou-se. Portanto neste momento é aquilo de que estamos todos à procura, é de uma forma de conseguir mais visualizações e que as pessoas consumam aquilo que vamos fazendo e em que vamos investido o nosso tempo e os nossos recursos. Claro que há sempre essa dúvida, se calhar mais do que deveria haver, em cima da cabeça dos jornalistas, que é: “se isto não for visto se calhar não me vão dar outra oportunidade, que implica perder dois meses ou três para eu conseguir ter um trabalho com esta qualidade e com este cuidado”, mas acho que isso também é tão transversal, está a acontecer em todo o lado, estamos mesmo todos à procura de novas formas de sustentar isto. Portanto é uma preocupação constante, mas quando eu abro um trabalho como o da Time que ganhou o prémio de inovação deste ano, acho que é sempre possível dar a volta a isso. Porque, lá está, o essencial continua ser ter “aquela ideia”; “aquela ideia” que às vezes pode ser a coisa mais simples da história mas que vai fazer com as pessoas pensem “olha, ainda não tinha visto esta história. Se calhar é um tema que já tinha visto mil e quinhentas vezes, mas nunca contado desta maneira e isto merece que eu passe um bocado mais de tempo aqui e que preste atenção a esta história”. E isso tudo é um campo tão aberto de possibilidades que, ao mesmo tempo, cada vez que tropeço num trabalho destes ou que me dão a possibilidade de me sentar a pensar como é que vou contar uma história, a última coisa que tenho na cabeça é a quantidade de visualizações que aquilo vai ter. A preocupação que tenho é chegar ao maior número de pessoas possível, mas não dessa maneira matemática. Por exemplo, em relação  ao meu último trabalho na Turquia, uma das coisas que foi fundamental quando nos sentámos a pensar como é que íamos fazer o trabalho foi “se não tivermos tempo, isto até pode não ficar com as melhores ilustrações do Mundo, pode não ficar com tudo a nível de animação como nós queríamos, mas tem de funcionar em mobile”. É fundamental que o trabalho funcione integralmente e rápido e seja muito funcional nos telemóveis, porque é lá que as pessoas estão. E não adianta estarmos a falar ou pôr um anúncio a dizer “isto foi otimizado para ser visto em desktop”, porque as pessoas estão no telemóvel, é lá que vão ver. E isto não tem a ver com o número de clicks em termos matemáticos, tem a ver com aquilo que é o fundamental do nosso trabalho enquanto jornalistas, que é falar para as pessoas, chegar às pessoas; se nós escrevemos e produzimos coisas é para chegar a alguém, para chegar aos ouvintes, para informar o máximo de pessoas possíveis. E portanto, nessa lógica, nós também temos de ir à procura de estar na plataforma onde as pessoas estão.

Uma coisa que sentimos no Infomedia é que as pessoas vêem que somos miúdos e não nos ligam assim tanto, então acabamos por ter de arranjar outras alternativas. Temos medo que essas alternativas para ter mais clicks ajudem a criar um retrocesso no jornalismo; serem tão diferentes que ameacem os pilares-base do jornalismo.

Isso é também uma preocupação diária. Enquanto estávamos todos à procura de maneiras de fazer as coisas – e continuamos à procura da maneira de fazer com que isto funcione – no novo contexto há erros diários que vamos cometendo, muitas vezes com a pressa. Às vezes saem aqueles manuais a dizer que não podemos ter vídeos com mais de um minuto online ou que tem de ser tudo muito colorido e bombástico e sexy e cheio de fogo de artifício porque se não as pessoas não vêem. Depois vamos percebendo que se calhar não é tanto assim e que se calhar as pessoas também se cansam mais facilmente de coisas que sejam mais básicas e mais óbvias, que apelem só àqueles nossos instintos mais básicos. Agora sim, pelo caminho vai-se cometendo muitos desses erros e há um risco grande de se estar a esquecer aquilo que devia ser essencial em detrimento da forma e, muitas vezes, até da forma errada.
Eu acho que foi sendo mais ou menos sempre assim e que estamos a viver um momento especialmente interessante, mas também com dificuldades muito particulares. No fundo, se nós formos ver, aquilo que foi acontecendo, a transformação dos Órgãos (de Comunicação Social) ao longo do tempo aconteceu de uma forma mais espaçada e menos intensa, mas foi tendo isto,  estas dúvidas todas; quando surgiu a televisão, quando surgiu a rádio, foram sempre momentos em que houve esse risco, em que estávamos todos a fazer mais disparates porque estávamos pressionados por um novo contexto que nos desafiava e abanava ali um bocadinho aquela estrutura que estava montada, e que estava preparadinha e funcionava muito bem. Aí, o que nós podemos fazer é resistir. Há uma tentação gigante e vai haver uma pressão enorme mesmo quando vocês chegarem a uma redação, há uma enorme probabilidade de haver uma pressão sobre vocês para produzirem, se calhar às vezes pondo um bocadinho de lado aquilo que é fundamental na profissão e da vossa parte, e aquilo que vos cabe é ter sempre muito presente essas bases, seja o que for o que vos estejam a pedir. Eu tenho discussões diárias – eu, os meus colegas, a minha equipa – e é suposto termos essas discussões diárias sobre o que devemos ou não devemos fazer. É muito saudável quando pode haver esse espaço de discussão e quando podemos ser firmes naquilo que achámos que não devemos abdicar. Não há nada que justifique ceder a esses pilares, a essas coisas básicas que definem o que é ser jornalista ou não.
Muitas vezes perguntam-me o que é bom ou mau jornalismo, e eu acho que não existe mau jornalismo. Existe ser jornalismo ou não ser jornalismo.

O ciberespaço às vezes acaba por contribuir para essa crítica do bom ou mau jornalismo. Com a criação de páginas no Facebook que detectam fake news, como Os Truques da Imprensa, algumas pessoas assumem que esses são os espaços que ditam o que é bom ou mau…

É um desafio muito grande. E explicar aos miúdos até, desde pequeninos, porque é que é importante as pessoas serem mais críticas e os próprios leitores e espectadores serem mais críticos do que aquilo que são neste momento. É difícil, mas nós não podemos perder a consciência de que há certas coisas a que não podemos ceder porque se não, aí sim, somos nós que nos estamos  a matar, não são as fake news nem os contextos difíceis, nem a falência do modelo de negócio; aí somos nós, se cedermos e se abdicarmos daquilo que são os nossos princípios básicos.

Sente que os estagiários já vão formatados para praticar um determinado tipo de jornalismo ou vão com vontade de ir além do que é esperado?

São, por acaso, e infelizmente, raros os exemplos que lá aparecem (na Rádio Renascença) com muita vontade de fazer e propor coisas, e de aprender. Não sei porque é que isso acontece, mas principalmente nos últimos anos nota-se que as pessoas chegam mais formatadas. A posição de estagiário também não é fácil, às vezes estão três meses num sítio e já lhes encheram a cabeça a dizer que não vão ficar ali aconteça o que acontecer; não há um contexto, se calhar, que os puxe para serem um bocadinho mais atrevidos e mostrarem entusiasmo. Mas nas redações posso garantir que independentemente do contexto, independentemente da hipótese que haja maior ou menor ou nula de lá ficarem, a atitude que os estagiários têm durante aquele tempo faz uma diferença gigantesca. Eu consigo lembrar-me de dois ou três que durante os últimos anos chegaram lá com uma atitude um bocado diferente e com vontade de aprender, não ter medo de errar. Mas sim, não consigo perceber muito bem porquê, mas a esmagadora maioria vem formatada. Provavelmente tem a ver com o sistema de ensino, como são encaminhados para o estágio ou aquilo que aprendem. A vontade pode estar lá, mas eles não chegam a mostrá-la.

Nota alguma diferença entre os estudantes que saem do ensino privado e os do ensino público?

O que noto nos estagiários que tenho visto lá é que nem tem tanto a ver com isso. Há dois ou três que se destacaram porque independentemente da forma como os formataram, acima disso tudo estava uma enorme curiosidade, uma enorme vontade de aprender, uma enorme vontade de fazer coisas e não ter medo de errar. E isso aconteceu com pessoas que vinham dos mais diversos contextos, como acontece, na esmagadora maioria, de serem mais fechados e acanhados, e não proporem e às vezes até estão ali na rádio e nem têm muita curiosidade de ver o que estamos a fazer na equipa multimédia, nem têm muita noção. Às vezes nem consultam o site durante os três meses que lá estão e eu vejo-os a desperdiçar oportunidades de aprenderem um bocadinho mais.

E qual é que acha que é o papel que o ensino tem, para que se possa fazer diferente? O que é que seria fundamental ensinar a futuros jornalistas? 

Acho que era ótimo para todos se nós estivéssemos mais próximos – as redações da Academia. Há uma enorme distância e se esses dois mundos estiverem muito descasados corremos o risco de estar a ensinar uma teoria perfeita, espetacular, como as coisas deviam ser, mas que já não tem nada a ver com o que as pessoas vão encontrar quando forem para o mercado de trabalho. E por outro lado, acho que nós podíamos estar a tirar partido da Academia e daquilo que é pensado. E se calhar há um afastamento que prejudica ambos. Os alunos são quem sai mais prejudicado no meio disto. Portanto, a Academia eu diria que devia estar o mais próxima possível daquilo que se passa realmente nas redações e no terreno, porque isso mesmo enquanto eu era estudante era uma realidade – apercebi-me de que aprendi mais em 3 meses de estágio do que o que tinha aprendido durante o curso todo. O que é normal, porque estamos num contexto prático, mas que refletia de facto essa distância. Se calhar hoje há ainda mais porque houve uma mudança muito rápida, que fez com que fosse ainda mais necessário estarmos próximos e a preparar os alunos para aquilo que vão efetivamente encontrar.
Eu sei que é muito bonito eu estar aqui a dizer para resistirem sempre e dizerem que não, mas é preciso que as pessoas vão com alguma carapaça para puderem fazer isto. Se calhar não quando são estagiários, porque aí estão num contexto um bocadinho diferente, mas quando têm a primeira oferta de emprego em que vão ser pagos miseravelmente e vão estar a recibos verdes, numa situação extremamente frágil, tenham a bagagem suficiente para saber quando é que é o limite e quando é que têm mesmo de dizer “não”, sob pena de estarem a inquinar o resto da carreira toda enquanto jornalistas, daquilo deixar de valer a pena logo no início porque estão a começar tudo errado. E isso acho que é fundamental: que a Academia prepare para esse tipo de coisas, que dê conhecimento para as pessoas saberem como resistir e como melhorar as redações que depois vão integrar e serem flexíveis, mas só naquilo em que podem ser flexíveis. É isso que acho que a Academia deve ensinar, porque o resto – a parte técnica –  as pessoas, melhor ou pior, aprendem.

 

Entrevista realizada por Carolina Franco e Fábio Santos.

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