#Procura-se… Artesão

Na oficina de Fernando Marques, no cais da Estiva, acompanha-se o “levantar a âncora e o içar das velas” de veleiros a Rabelos. Há mais de 30 anos que Náná- como é conhecido entre amigos- transforma pedaços de madeira em barcos de coleção.

 

 

Ninguém fica indiferente ao barco de madeira sobre o Muro dos Bacalhoeiros, na Ribeira do Porto. É aí que se situa a oficina de Náná com uma vista privilegiada sobre o Douro. Todos são bem-vindos a bordo, nesta viagem que se faz desde o tempo do seu avô.

Náná, 73 anos, nascido e criado na Ribeira do Porto.

Náná aprendeu esta arte com o pai e o irmão quando era pequeno. “O meu pai fazia, o meu irmão fazia e até o meu avô já fazia, mas nunca foi negócio, era para oferecer a pessoas que mereciam e eu é que vim reformado, cansado de estar em casa, o meu irmão passou o estabelecimento a mim e fiquei a fazer barcos… É uma coisa que eu gosto.”

Uma função transformada em hobby e, agora, negócio, mas Náná “não fica a ver navios” quando lhe é questionada a capacidade de construir estes barcos. “Eu faço toda a qualidade de barcos, mas os mais vendidos são os Rabelos porque são daqui da zona. Os Rabelos mais pequenos demoram um dia a ser feitos.” No entanto, há alguns que demoram dois meses a serem feitos como no caso dos veleiros. “São os que eu mais gosto de fazer porque levam muitos fios e muitos pormenores.”

Barcos Rabelo, símbolo do vinho do Porto

À medida que conversa com os clientes, Náná vai colando madeira a madeira até montar a base de um Rabelo. “Há sempre o que fazer. Primeiro, imagina-se o barco, às vezes até consulto livros e revistas navais, depois desenha-se, faz-se um projeto, temos que nos colocar dentro do barco, ambientar-nos… Eu começo sempre pela base do barco e por aí adiante… Geralmente, são feitos com madeira de pinho.” Imaginação e técnica não faltam a este antigo marinheiro que agora é comandante de uma frota.

“Há barcos aqui que eu até já faço de olhos fechados!”

Durante oito anos, viajou pelo mundo, o que lhe permitiu conhecer todos os cantos de um navio. De todos os sítios que passou, o preferido é a cidade do Porto. Acompanhou o desenvolvimento da Ribeira, desde a construção do túnel até aos dias de hoje, mas admite que o turismo atingiu um nível exagerado e a essência da Ribeira tem-se perdido, “No outro dia fiz uma aposta com um amigo em que ele tinha que ir até à Ponte D.Luís e voltar, se ele ouvisse um português falar, eu pagava-lhe um fino… Imagine, não paguei nenhum.” Náná defende que a vida no Porto está muito cara, sobretudo para quem lá vive. “Quando vamos a um café, não vão ter em atenção se é português ou não, vai ter que pagar o mesmo que paga um turista com melhores condições económicas. É injusto.”

Náná não é contra o turismo no Porto até porque alguns dos seus clientes são estrangeiros, mas “Tudo o que é em exagero, é mau. Acho que deveriam ter isso em consideração. Ter em consideração as pessoas que são daqui.”

 

“Eu não faço isto para enriquecer, faço porque gosto. Estou aqui para conversar com quem passar. Da política à religião, falo de tudo.” A dedicação e a vontade de prolongar uma atividade de gerações ainda fazem Náná permanecer atracado no cais da Estiva e assim o espera durante mais alguns anos.