“No Tempo Todo”: revisitar Lapa nunca é demais

Da Literatura às Belas Artes, da Filosofia à Estética, de Évora ao Porto – os locais por onde passa durante a sua vida vão encontrando pontos de convergência e sendo matéria das narrativas que vai criando na tela, no papel, na vida.
No Tempo Todo é a maior retrospetiva alguma vez feita ao artista Álvaro Lapa e a primeira exposição com João Ribas na direção, patente em Serralves de 8 de fevereiro a 20 de maio de 2018.
Ao percorrer as salas do Museu vamos conhecendo um pouco mais do universo de Lapa. Na zona do bengaleiro, cartazes das suas primeiras exposições, um exemplar do jornal académico que integrou, alguns catálogos, retratos de Álvaro Lapa da autoria de Ângelo de Sousa, fotografias da intervenção do artista no metro de Odivelas e o documentário Álvaro Lapa: A Literatura, de Jorge Silva Melo. Esta primeira sala serve quase de apresentação biográfica de Lapa, um preâmbulo para mergulharmos na sua obra; e é aqui que surge o primeiro contra-senso a nível curatorial: sendo Lapa um artista que pinta com as palavras e, antes de mais, um escritor, todos os documentos textuais presentes na sua retrospetiva encontram-se dentro de vitrinas, sem que o visitante possa experienciar uma das suas dimensões mais importantes – a escrita – a não ser quando inscrita em tela, direta ou indiretamente.
É na série Cadernos que temos contacto com as referências literárias, como Homero, Rimbaud, Kafka, James Joyce, Freud e Han-Shan. Em jeito de estudo, a tinta da china, ou materializados em objeto final mais composto, os Cadernos são apresentados em grupo ao visitante. O mesmo acontece com Campéstico – o conjunto de pinturas que se situam (no) e retratam o Campo que encontra o Doméstico – e com as Profecias de Abdul Varetti.
Miguel von Haff Pérez, o curador da exposição, optou por apresentar a obra de Álvaro Lapa de forma agrupada, organizada por temáticas, ignorando parcialmente o fator cronológico. Não as expõe segundo a data da criação, mas não arrisca muito na disposição que lhes atribui; não cria momentos de tensão. Essa tensão pode estar já na obra de Lapa, mas não basta— a curadoria de von Haff Peréz não rima com as quase 300 peças em exposição.
Pensar uma exposição no século XXI não se equipara a pensá-la no século XX. É preciso desconstruir a ideia de que todo o sujeito disposto a fruir a arte nos museus não se cansa e percorre salas e corredores com mais de 200 pinturas, sem parar, sem o sentir no corpo e na mente. Pensar a retrospetiva de Lapa é pensar no todo; No Tempo Todo, no espaço todo.
Revisitar Lapa nunca é demais. Serão sempre novos os detalhes que nos saltarão à vista e as questões que nos colocaremos (ou que a obra nos coloca). Mais do que uma figura central da cena artística portuguesa do século passado, Álvaro Lapa é um filósofo-escritor-pintor cujo trabalho parte de si, mas não se fecha no seu universo ou no seu tempo — termina na mente do seu interlocutor.

 

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