“Entre tapas e beijos”

Todos temos taras e manias. E estas merecem uma categoria própria: fetiches sexuais.

Para muitas pessoas, o ato sexual serve ou para procriar ou para obter prazer sexual. É por esse motivo que a noção de que alguém possa obter satisfação sexual através de outra atividade, que não seja puramente sexual, é tão estranha para alguns. Em geral, cada pessoa tem um certo “tipo” e sente-se atraída por determinadas características físicas, sejam elas e altura, partes específicas do corpo, cor de cabelo ou silhueta. Também é totalmente normal ter certas preferências relativamente à prática do ato: gostar mais de posição de que outra, mais ou menos intensidade, dedicar (ou não) muito tempo a preliminares ou até gostar de o fazer com luzes acesas ou apagadas. Mas a mente humana é complexa e fascinante e, imagine-se, é possível encontrar prazer para lá de dois copos nus a tocarem-se.

No podcast de Corinne Fisher e Krystyna Hutchinson, duas comediantes norte-americanas, chamado “Guys We F****d”. O principal objetivo do programa é desmitificar não só o tema da sexualidade, mas também do preconceito que existe para com mulheres sexualmente ativas independentemente de terem ou não um parceiro fixo (slut shamming). Uma das entrevistas foi uma profissional humiliatrix, que ao contrário de uma dominatrix, é uma especialista na arte de humilhar pessoas, mas já estamos a adiantar no tema. De entre todas as histórias que contou, como a venda de cuecas usadas, a que mais surpreendeu foi a história de ter vendido uma amostras das suas próprias fezes por 4 mil dólares por duas vezes à mesma pessoa. A isto chama-se parafilia.

A parafilia é descrita no dicionário como um comportamento sexual que se desvia do que é geralmente aceite pelas convenções sociais, podendo englobar comportamentos muito diferentes e com diferentes graus de aceitabilidade social. O termo mais comum é fetiche. Existem os fetiches mais comerciais, como o sadomasoquismo, que envolve tudo o que seja amarrar e provocar dor ligeira, o golden shower, urinar no parceiro ou ser urinado, choking (sufocar) ou obsessão por pés. E, depois, existem aqueles mais estranhos de compreender ou processar, que são, principalmente, aqueles que não envolvem qualquer tipo de ação com conotação sexual e em que muitas vezes nem chega a existir contacto físico.

A jornalista e autora especialista em sexualidade Violet Blue, começa logo por dizer no seu livro “Fetish Sex: A Complete Guide to Sexual Fetish” que “não há nada inerente ‘errado’ com alguém que tem um fetiche. Apesar de os fetiches serem muitas vezes surpreendentes, pouco usuais e mal interpretados, fazendo com que os fetichistas sejam tratados como merecedores de humilhação ou a precisarem de ajuda psicológica. Nada podia estar mais longe de verdade. Ao contrário da maior parte das pessoas, os fetichistas compreendem verdadeiramente os seus comportamentos sexuais e têm praticado o controlo sexual durante a maior parte das suas vidas”.

Então o que é um fetiche? “De uma forma muito simples, um fetiche sexual é quando existe algo específico que tem efeito sexual a vários níveis que é mais eficaz a estimular sexualmente que qualquer outro estímulo”, explica Violet Blue. Basta a pessoa sentir um click no momento em que algo acontece e desperta o seu interesse. O conceito de fetiche é tão vasto e parece ser algo tão natural ao ser humano que a autora explica que pode ser descoberto a qualquer altura ou até mesmo cultivado até se tornar um fetiche com expressão significativa. Com o mundo da Internet, os fetiches têm crescido e sido explorados num espaço seguro, que permite às pessoas explorarem os seus limites de conforto e encontrarem, não só parceiros que possam ajudar a concretizá-los, como também com quem vivê-los e partilhá-los. Ou seja, parece que existe um clube para qualquer um de nós, só temos de escolher (ou descobrir) a qual pertencemos.

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