Agnès Varda e Cate Blanchett dão a voz ao manifesto em Cannes

82 mulheres dirigiram-se em silêncio aos degraus que permitem a subida ao Palais des Festivals, na 71ª edição do Festival de Cannes, para lembrar que o caminho de todas as que trabalham à frente ou por trás das câmaras ainda é duro.

Foi pela voz de Agnès Varda, em francês, e de Cate Blanchett, em inglês, que as instituições ligadas à indústria do Cinema foram chamadas à atenção para a necessidade de criar condições de trabalho mais seguras e justas para as mulheres, e os governos para a criação de leis de pagamento igualitárias. O número de representantes não foi fruto do acaso – desde o primeiro ano do Festival (1946) apenas 82 realizadoras foram nomeadas para competição. Um número que nada pesa numa balança, onde o prato oposto conta 1645 nomeações a homens realizadores.
A presença de Varda carrega o peso da História. No princípio da sua carreira era a única mulher entre homens na Nouvelle Vague. A distinção foi-lhe sendo dada pelo mérito, inclusive através de uma Palma de Ouro Honorária, há 3 anos em Cannes – prémio que já tinha sido atribuído a cineastas como Woody Allen (2002), Manoel de Oliveira (2008) e Bernardo Bertolucci (2011), mas que, até 2015, nunca havia sido reconhecido a uma mulher.

Cate Blanchett é a presidente do júri este ano – constituído por uma maioria feminina, da qual fazem parte Kristen Stewart, Léa Seydoux, Ava DuVernay e Khadja Nin – e tinha já mostrado a sua posição relativamente a este assunto, dias antes.  Na conferência de imprensa de abertura do Festival deixou clara a sua vontade:

“Se eu gostava de ver mais mulheres em competição? Claro que sim.
Se eu espero e tenho esperança de que isso vá acontecer no futuro? Espero que sim. Mas estamos a lidar com o que temos este ano, e o nosso papel nas próximas quase duas semanas é lidar com o que está à nossa frente”.

A memória do Festival francês conta que apenas uma mulher ganhou a Palma de Ouro através de nomeação: em 1993 a neozelandesa Jane Campion subiu ao palco para ser premiada pelo filme “The Piano”. Nos últimos 25 anos, poucas foram as nomeações e nenhuma deu vitória. Este ano estão nomeadas três realizadoras, entre 21 participantes; Eva Husson com Girls of the Sun, Nadine Labaki com Capernaum e Alice Rohrwacher com Lazzaro Felice.
A discrepância é notória e serviu de mote para que o movimento 5050×2020 conduzisse o protesto. Esta é uma das suas causas, se não “a” causa: acabar com a desigualdade no cinema até ao ano de 2020. Em Cannes ou em Hollywood a luta é a mesma.

Infografia de: 5050×2020

“As escadas da nossa indústria devem ser acessíveis a todas. Vamos subi-las!” – foi o apelo final de Varda e Blanchett num discurso que certamente ficará inscrito na História do Festival de Cannes e que já pode ser consultado na íntegra:

 

Deixa um comentário