A arte do insulto

O objetivo cordial do insulto é “picar” a pessoa em questão. Armadilhar-lhe a consciência, alcatroando-a, em rodopio constante, até ao sono. Por isso, o insulto é subvalorizado.

Fartos estamos todos, pelo menos, até morrer alguém… Depois torna-se boa pessoa. Ouço várias vezes que “os animais são melhores que os humanos”. Não posso confirmar esta teoria, apenas tive uma tartaruga que, em meio ano, foi para o lixo. Não deu para desenvolver grande relação. Mas desconfio que seja verdade. Há pessoas que são muito boas, porém estragam tudo quando falam. A grande parte dos animais, só por isso, entra a ganhar.

Eu estou farto de procurar o insulto ideal ou o melhor insulto possível. A técnica que mais me apraz é a do duplo insulto – o insulto inteligente. Aquele que a pessoa para quem ele se dirige fica atordoada, não entende. Tem esse misto de sentimento porque, não obstante a intenção de a insultar, ela sente-se burra por não saber o que significa. O objetivo cordial do insulto é “picar” a pessoa em questão. Armadilhar-lhe a consciência, alcatroando-a, em rodopio constante, até ao sono. Por isso, o insulto é subvalorizado.

Os insultos são as armas de emergência do povo português. Estão perto do coração, tão perto que a boca não cala. E saem assim, disparados em raiva, prontos a fuzilar uma alma alheia. Muitos caem por terra e é por isso que o insulto é um problema maior.

Não se pensa num insulto, na melhor maneira de magoar a outra pessoa, de lhe entregar uma sombra negra para o resto do dia, não há estratégia, nem criatividade. As pessoas perdem rapidamente o interesse nesses insultos. São bacocos, repetitivos e obsoletos. São a caricatura de um povo que não pensa no melhor insulto e que o liberta, num ato animal, à primeira tentativa.

Há uma paixão efémera pelo insulto, não pela construção dele. Palavras abjetas, pouco racionais, que saciam a ignorância. Um mau insulto é um problema real. A outra pessoa dorme sempre bem.

Recomendações:

BoJack Horseman – Série inspirada, em parte, na vida e obra de Charles Bukowski. Não há mais nada a dizer.
Arctic Monkeys Tranquility Base Hotel & Casino – Novo álbum dos AM. Diferente do registo habitual, parecido à discografia do “Submarine”, pelo Alex Turner. Estou a tentar gostar.