Porque o verdadeiro luxo é de dentro para fora

Desde sempre que o conceito de luxo acarreta uma carga demasiado material e ligada a poder económico, mas na sua génese mais profunda o verdadeiro luxo é muito mais livre, independente e democrático do que a definição limitada que habitualmente se associa à palavra.

Permitirmo-nos ser humanos é um luxo, ser quem realmente somos é um luxo. A vida não pode ser só sobre utilidade – tem que ser também sobre emoção, imaginação, tem que ser sobre coisas para o próprio bem, sobre o que nos alimenta em todos os sentidos, de modo a que esta nossa jornada faça sentido e não seja simplesmente algo que transformamos numa forma tensa e ansiosa de passagem de dias, semanas, meses… O tempo é o derradeiro luxo e o que fazemos com ele o verdadeiro significado que damos à nossa vida.

O tempo de lazer e o prazer do tempo para nós próprios são parte essencial da construção desse sentido que procurarmos na vida. Podemos, e devemos, ser gratos pelos prazeres que da vida experienciamos, assim os saibamos reconhecer. Somos uma civilização que, de uma forma geral, vive um desapontamento crónico, porque a pressa e a ansiedade não permitem sequer o reconhecimento do prazer, muito menos do prazer da espera, que só com a devida calma pode ser realmente vivido.

Vive-se uma cultura de fetichismo da produtividade e cumprimento de objetivos, em que quase nos esquecemos da noção de “lazer” e de como é fundamental para espírito humano. E, no entanto, as grandes realizações humanas – das criações artísticas às ideias filosóficas passando pelas grandes descobertas tecnológicas – tiveram origem no lazer, nos momentos de completo abandono à contemplação, à reflexão, ao tempo, que no fundo qualquer ser humano precisa para si e consigo próprio a sentir o universo.

Mais de dois mil anos depois, a verdade é que, cada vez mais, nos esquecemos de cruzar o luxo do tempo com a devida gratidão que torna possível o seu verdadeiro propósito de contemplação. Uma visão moderna e distorcida que torna o conceito de luxo em algo puramente instagramável e sem significado. O vazio é o oposto do luxo, tanto na essência como na forma. E se nas suas materializações o luxo pode ser visto e sentido das mais diversas formas.

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