#Procura-se… Vitralista

“É uma arte que está em extinção, em absoluta extinção!” Uma arte corrosiva, mas que se tem desgastado com o tempo. Há 54 anos, Fernando Martins é gravador artístico de ácido em vidros. É o único vitralista disponível no Grande Porto. 

Na Rua dos Mártires da Liberdade, Fernando Martins, 68 anos, preenche o seu tempo com uma arte que tem vindo a praticar desde os 14 anos. Natural de Ponte de Lima, preferiu mudar-se para o Porto para adquirir uma maior aprendizagem nesta área: fazer vitrais com ácido. “Sou do tempo em que não se escolhiam profissões, vim para o Porto, convenci os meus pais a deixar-me, o que não era fácil…”. Começou por trabalhar numa oficina de vitrais, mas ao fim de 17 anos, acabou por abrir o seu ateliê que se encontra aberto até aos dias de hoje. Um espaço mais convidativo que o sofá e a televisão “Eu, hoje, não sou pessoa de chegar a casa, jantar e sentar-me no sofá a ver televisão. Eu tenho que vir para o meu ateliê. Posso dizer-lhe que estou aqui quase todos os dias até às onze e meia, meia-noite.”

Num armazém apenas iluminado pela luz do dia, Fernando vai pincelando minuciosamente traços  com tinta de verniz preta sobre um vidro,”Quando a gente vê uma coisa e gosta, desperta-nos, depois de vermos o trabalho a nascer, cria-nos um bichinhos difícil de explicar…” O gosto por esta arte obrigou-o a várias “diretas”, mas a última que fez foi há 6 ou 7 anos atrás, “uma encomenda de um vitral para um hotel. Uma silhueta de um monumento em Lisboa.”

Na sua oficina é possível observar vários tipos de vitrais que são propostos por Fernando como pelos clientes. “Faço todo o tipo de vitrais desde que envolvam desenhos.” As técnicas da gravação de ácido em vidros são “ingratas”, visto que não é possível visualizar o trabalho, enquanto se está a fazê-lo, desta forma, Fernando refere: “Tudo depende do ácido, se ele não passar para o outro lado do vidro como deve ser, chegamos ao resultado final e não está nada como o esperado.” O procedimento passa pela projeção do desenho, o corte do vidro, o decalque do desenho no vidro com tinta resistente ao ácido, por fim, é gravado o ácido no vitral. O tempo de conclusão da obra depende da tonalidade que é dada à tinta, a dimensão da obra e os pormenores presentes. “É um trabalho demoroso, muito! Acabei há quinze dias um trabalho que andei com ele cerca de mês e meio.”

Fernando Martins desabafa que, atualmente, a arte do vitral é pouco conhecida, apesar de começar a ganhar alguma notoriedade. Os efeitos da crise no seu ateliê fizeram-se sentir, “Já cheguei a ter sete empregados e quando os tinha cheguei a entregar trabalhos com dois anos de atraso. Hoje, estou reduzido a mim. Não tenho ninguém a trabalhar comigo.” Chegou a formar alguns alunos da Escola de Belas Artes do Porto e trabalhou com alguns escultores como José Rodrigues. “Antigamente, os mais velhos não gostavam de ensinar, escondiam tudo… Desde a forma de fazer os vitrais aos componentes que precisavam.” A aprendizagem em fazer um vitral consiste no erro e tentar superar as dificuldades, “Quando algo não está bem, à segunda temos de tentar que fique melhor…”

“É pena!” Fernando acredita que pouco tem sido feito por esta arte dos vitrais e existe pouco interesse por parte dos jovens em querer aprender. “Tenho uma filha que aprecia muito este tipo de trabalho, às vezes até me pedia para aprender a fazer, mas neste momento, está em Inglaterra. É enfermeira.” A idade e a saúde são os únicos perigos para o ateliê fechar as portas, “O problema não é partir o vidro, o problema começa a ser a coluna, baixamo-nos e depois temos que ir dar uma “voltinha” para endurecê-la.”

Quanto ao futuro desta oficina, Fernando espera que alguém mais jovem possa aparecer por lá.”Eu estarei pronto para ensinar a quem quiser. Só precisa de gostar.”

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