Água com Vida

Primeiro, caiu do céu, depois, jorrou das profundezas. É um mineral chamado Ringwoodite que, veio a saber-se anos mais tarde, existe em abundância e contém água. Será possível que a solução para a falta de água resida 500 quilómetros abaixo do chão?

Há quase 50 anos, foi descoberto um mineral caído do céu que tem características, muito especiais. Por exemplo, contém água dentro dele. O autor da descoberta, em 1969, foi o geólogo australiano Ted Ringwood, que encontrou a ringwoodite – foi assim que batizaram o mineral, em homenagem ao seu descobridor – num pedaço de meteorito.

Na época, não se sabia ainda que características particulares tinha o ringwoodite, tal como se desconhecia, por exemplo, que o mineral não cai apenas do céu, a bordo de meteoritos, mas também emana das entranhas da Terra em erupções vulcânicas. Mas agira sabemos isso e mais algumas coisas. Sabendo que o mineral contem água e que existe no nosso planeta, será legítimo acreditar que a extração da ringwoodite pode ser, no futuro, uma solução para escassez de água?

O que é a Ringwoodite?   

A ringwoodite é um nesossilicato resultante das transformações de pressão e temperatura sobre a olivinas na zona de transição do manto, do interior da Terra. Os nesossilicatos são um dos grupos dos silicatos, uma classe de minerais constituintes das rochas. O seu nome deriva de serem constituídos por átomos de silício em conjunção com átomos de oxigénio. São altamente densos e compactos. As olivinas constituem um grupo dentro dos nesossilicatos.

Agora que esclarecemos o que são olivinas e nesossilicatos, expliquemos como se deu a descoberta. Ted Ringwood, o tal geólogo que deu nome a este mineral, encontrou um fragmento de meteorito e percebeu que, na sua composição, havia este nesossilicato. Desde então e até 2014, a ringwoodite foi identificada em mais ocasiões, mas sempre em fragmentos de meteoritos. Algumas equipas de cientistas tentaram reproduzir a ringwoodite artificialmente e perceberam que as condições para sua formação teriam de ser extraordinárias no que respeita à temperatura e à pressão. Então, presumiu-se que o mineral não existia no planeta Terra, chegando cá apenas à boleia dos meteoritos, embora não se pusesse de parte a possibilidade de existir ringwoodite no manto terrestre, a grande possibilidade.

Em 2014, deu-se uma descoberta que acabou por confirmar que era assim mesmo. A equipa do investigador Graham Pearson encontrou, no interior de um pequeno diamante com cerca de 3 milímetros de diâmetro, ringwoodite. A descoberta aconteceu na localidade de Juína, no estado brasileiro do Mato Grosso, e veio confirmar que, de facto, existe ringwoodite na Terra.

Onde está a Ringwoodite?

            Alexandre Ovídio, idóneo conhecedor desta e de outras matérias, explica que o material se encontra na “zona de transição entre o manto superior e o inferior, entre os 410 e os 660 quilómetros de profundidade”. O manto é a camada terrestre imediatamente abaixo da crosta e chega quase aos 3 mil metros de profundidade, onde começa o núcleo externo e, depois deste, o núcleo interno. O manto pode ser dividido em duas partes, a superior e inferior, unidas pela tal zona de transição, onde se encontra a ringwoodite.

Os especialistas acreditam que 60% desta zona do manto seja constituída por ringwoodite, ou seja, o mineral existe em grande abundância no interior da Terra e pode chegar à superfície em erupções vulcânicas. Lembremo-nos que a ringwoodite contém água sob a forma de hidróxidos, numa quantidade que rondará 1,5% da sua matéria. De que modo está essa água presente no mineral? “Sob a forma de hidróxido, ou seja, HO”, explica Ovídio. “Se adicionarmos um átomo de hidrogénio (H), obtemos H2O, isto é água”. Para percebermos melhor como funciona o processo, damos um exemplo concreto. “Um caso de uma transformação de um hidróxido em água, talvez o exemplo mais frequente à face da Terra, é o do hidróxido de cálcio Ca(OH)2 – ou seja, dois iões OH – ‘casados’ com um C2+ – reage com o dióxido de carbono da atmosfera (CO2) e produz carbonato de cálcio (CaCO3), ou seja, calcite e água (H20)”.

Há, portanto, muita água – pelo menos, em potência – sob os nossos pés, bem lá em baixo, a 500 quilómetros de profundidade. Os cientistas estimam que a quantidade de água contida na ringwoodite seja equivalente a entre uma e três vezes a quantidade de água que existe em todos os oceanos da Terra. Ovídio ressalva que “uma vez que é impossível furar até qualquer profundidade perto do manto terrestre, qualquer ideia que possamos fazer sobre o interior da terra é baseada em interferências, com base nestas fontes: material expelido por vulcões; análise de meteoritos; dados da Geofísica. Portanto é perfeitamente possível que o que sabemos hoje seja desmentido amanhã com base em novos dados. Mas, com base no que sabemos, atendendo à quantidade expectável da olivina ringwoodite nas camadas de transição em que tem condições de pressão e temperatura para se formar, e à quantidade de água presente no seu interior, tendo por base a amostra que chegou até nós, as estimativas são de que haja no manto uma quantidade de água entre uma e três vezes a que se encontra atualmente à superfície da Terra”.

É possível extrair a Ringwoodite?

Alexandre Ovídio é taxativo, atualmente é impossível e nem vale a pena pensar no assunto. “A única forma de chegarem até nós amostras de ringwoodite com água no seu interior é através dessas ‘janelas para o manto’ que são as erupções vulcânicas, demasiado esporádicas e imprevisíveis para proporcionarem um fornecimento suficiente para essa extração”. Ovídio acrescenta que nem sequer é possível contabilizar, mesmo especulativamente, os custos que a extração do mineral acarretaria, tanto ao nível financeiro quanto ambiental. “Neste momento, a questão nem se coloca, porque essa extração é completamente impossível, seja a que escala for. O furo mais profundo jamais feito pelo Homem atingiu pouco mais de 12 quilómetro (12.262 metros em Kola, Rússia).

Abaixo desta profundidade, cada metro perfurado é um feito de engenharia e de resistência humana e dos materiais, devido às intensas pressões e temperaturas. Portanto, só a ideia de se chegar até à zona entre os 400-600 km de profundidade onde se pensa existir a ringwoodite é completamente inconcebível com a tecnologia atual”, diz Alexandre, e lança, em seguida, várias questões. “Imaginando, de alguma forma, que essas dificuldades eram vencidas, podemos ainda especular sobre os custos ambientais. Para extrair água em quantidade suficiente para qualquer uso humano, seriam necessários milhões de toneladas de olivinas, que seriam depois prensadas, ou esmagadas de alguma forma para extrair a água no seu interior. O que aconteceria ao nosso planeta com tamanha quantidade de material incandescente do manto transportando para a superfície? E o que fazer aos milhares de quilómetros cúbicos de escórias da olivina às quais se extraiu a água?”

Em suma, a água está lá em baixo, mas não conseguimos aceder-lhe, “no estado atual da tecnologia, não, de forma alguma”. “A não ser que haja um salto tecnológico que permita extrair material dessas profundidades, retirar dele a água e voltar e guardá-lo no manto, simplesmente nunca iremos extrair a água do minério, nem, tão pouco, o minério do manto”, conclui. Mas nunca se sabe, o Homem já conseguiu feitos que seriam impensáveis centenas ou mesmo dezenas de anos antes.

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