A história do biquíni

Louis Réard disse uma vez que que um fato de banho não era realmente um biquíni até conseguir passas através de uma aliança de casamento. É que para o biquíni menos sempre foi mais.

O descontentamento com a restrição e a vontade de libertação deu lugar a múltiplas metamorfoses ao longo dos séculos, de acrescentos, aumentos, cortes e reduções, foi feita a busca pela verdadeira epifania. De umas peças é feito o início e o desfecho desta história.

Greco-Romano

Aqui nasceu o que podemos considerar como o primeiro biquíni. Na Grécia antiga e no Império Romano, não para ir a banhos, mas para fazer desporto era usado, de forma a proporcionar conforto e destreza plena no movimento. Composto por duas tiras de tecido, uma envolvida em torno do peito e a outra à cintura cobrindo a pélvis. O conceito estava lá.

Detalhe do mosaico da Villa do Castele, em Itália, que retrata duas mulheres atletas no início do século IV a.C.

1890, vamos à la playa

Era vitoriana, as praias enchem-se e ganham uma nova expressão, passando agora a ser considerada uma atividade que fomenta a saúde e proporciona bem-estar. O que usar torna-se uma preocupação – ou talvez não. Pois das ruas para a praia apenas são deixados pra trás os chapéus de grandes lançadas, flores e penas, bem como os sapatos. Claro está, há una pequenos ajustes aqui e ali. De vestido e cintura definida, mas agora de mangas curtas sem perder o balão e comprimento até ao joelho. São ainda adicionadas umas calças, deixado ao critério da utilizadora o uso da touca, lenço ou fita na cabeça, pois assim o período o requeria: uma mulher modesta, que do corpo não exprimisse naturalidade ou feminilidade. Não fosse a mulher estar pouco restringida para um dia de praia e um bronze nada apelativo garantido. Os chamados “fatos de banho” eram feitos de tecidos grossos e pesados, como a flanela, e para que não houvesse qualquer possibilidade de leg work eram ainda cozidos pesos às bainhas dos vestidos. Desafio: não só conseguir flutuar, bem como não desistir de ir à praia.

 Trocar de roupa

Numa procura incessante pela privacidade foram ainda criadas umas estruturas chamadas brathing machine. Pequenos provadores sobre rodas, onde os banhistas trocavam de roupa, entravam da rua para o provador, saindo somente à beira-mar ou até mesmo no mar e já prontos para um mergulho. O inverso sucedia de volta à rua, levantado a questão: então e o bronze?

Praia repleta de bathing machines

A primeira

Só no fim do anterior e no início do século XX, quando a natação se torna um desporto académico e olímpico, é finalmente contestada a anatomia e a funcionalidade dos fatos de banho. Annette Kellerman, nadadora profissional e atriz australiana, é a primeira mulher a usar o que se pode chamar fato de banho, um desafio e provocação às ideologias da época, o que fez com que fosse detida na praia, em 1907. Não por isso desistiu de usar as suas múltiplas versões, de corpo inteiro ou até mesmo de braços e parte de coxas expostas, justo ao corpo e de materiais leves, com o objetivo de melhorar a sua performance. Chegou mesmo a criar uma marca própria de fatos de banho.

Annette Kellerman, 1930

Ano da sorte

Em 1910 podemos dizer que os fatos de banho se tornaram definitivamente menos restritivos, começando a mostrar os braços na sua totalidade e s coxas em parte. A tendência certamente só poderia vir a ser uma: continuarem a diminuir em tamanho, e começarem a ser o melhor revelador do corpo feminino. A Vogue e a sociedade de Hollywood vêm polarizar a ideia em 1920. A emancipação feroz do conceito, em 1922, traz consigo a swimsuit police ou polícia dos fatos de banho, em tradução literal. Surge então um braço de ferro entre aderentes à new wave e polícias que às regras querem fazer jus. De fita métrica em punho, tentavam obrigar mulheres a usar fatos de banho que mais se assemelhavam a vestidos. Nunca deveriam ser mais curtos que uns religiosos 15 centímetros acima dos joelhos e se usados com meias para cobrir a restante perna, então perfeito.

Polícia a fiscalizar as medidas dos fatos de banho

1930/1940

São erradicadas de vez as inúmeras camadas e comprimentos excessivos. E porquê? Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos da América, consigo traz o racionamento de bens em várias áreas e o setor têxtil era um deles. A distribuição e a quantidade do tecido utilizado para fazer fatos de banho deveria reduzir em 10%, pois as malhas sintéticas eram necessárias para produzir para-quedas. Coloquialmente dizendo, o que tem de ser, tem muita força. Começariam assim a surgir e a ser criados os primeiros two-piece e, com eles, a vontade e a preocupação de valorizar a anatomia feminina. Para ajudar, os decotes em coração e os plissados. Conhecem-se os contornos do peito e os volumes manipulam-se. Deixa-se de pedir ‘mamã dá licença’ quanto aos centímetros e as coxas estão out and about. Mas calma, ainda não está ganho – apenas a região o diafragma está exposto e a costura da parte de baixo nunca abaixo do umbigo.

Bomba

Atol de Bikini nas ilhas Marshall, Oceânia, lugar de ensaios atómicos, viria a dar nome a uma igualmente explosiva criação pela sua ousadia: o biquíni. Louis Réard, francês, engenheiro de automóveis e designer de Moda por necessidade e interesse, quando se tornou responsável pelo negócio da mãe, confeção de roupa interior. Tornou sua prioridade entender o corpo feminino, as suas necessidades e naturalidade. Foi em St. Tropez que uma ideia se fizeram moldes: banhistas numa busca incessante pelo perfeito bronze de verão enrolavam a parte de baixo dos seus fatos de banho até a anca expor, como que num ato involuntário. A 5 de julho de 1946 Paris torna-se epicentro do que viria a ser um ponto de viragem na história da roupa de banho. Piscine Molitor, localizada nos arredores de Paris, e se no dicionário atual, de sinónimos teria luxúria, excesso, exuberância e ostentação. De uma imponência e grandiosidade arrebatadora, as fundições Art Decó, meca de celebridades e atores. É o local escolhido para a apresentação do biquíni à imprensa, o fato de banho mais pequeno até então, possível de se guardar numa caixa de fósforos.

Lagoa de Bikini Atol, 1946

Missão impossível

Tal era a disparidade da silhueta que se revelou impossível conseguir modelo que o vestisse. Micheline Bernardini, bailarina exótica, desprovida de complexos e preconceitos, foi então a escolhida para o momento, tornando-se a primeira mulher na história a usar aquilo que hoje chamamos biquíni. O biquíni foi considerado um pecado, que valia por todos os sete. O Papa Pio XII achava-o um ultraje à decência humana. Os media não se abstiveram da censura e a sociedade estranhou a quantidade de pele que realmente era possível mostrar. Mas como se costuma dizer, primeiro estranha-se e depois entranha-se. Em 1950, já era uma opção mundial.

Micheline Bernardini na apresentação do biquiní à imprensa na Piscina Molitor, Paris, 5 de julho de 1946

Miss Mundo

As controvérsias continuam e também ao nível mundial. Em 1951, foi proibido o uso em concursos de beleza, após o primeiro Miss Mundo, em Londres, onde misses preferiam o biquíni ao fato de banho.

50’s

Nos anos 50, e continuando a consecutiva onda de choque, Brigitte Bardot protagoniza o filme Manina, The Girl in the Bikini, popularizando mais ainda o biquíni. Tinha 17 anos.

60’s

Brian Hyland, com música Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka-dot Bikini, vem imortalizar, em 1960, o ‘nosso’ protagonista da forma mais cheesy e em jeito de lengalenga (a que ninguém escapou saber de cor). Ursula Andress como Honey Rider, em Agente Secreto 007, filme de 1962 e o primeiro dos 24 de James Bond, faz brotar sedução das águas jamaicanas e torna a sua entrada memorável – não estivesse ela de biquíni. É também em 62 que a Playboy põe um biquíni na capa pela primeira vez, passando a modelo a mero elemento secundário. Dois anos depois, a revista americana Sports Illustrated faz a sua primeira capa da icónica edição anual de fatos de banho com Babette March em biquíni.

Brian Hyland, em cima. Em baixo Ursula Andress em Dr. No, 1962

Edição de junho da Playboy, 1962, em cima. Em baixo: Edição de janeiro da Sports Illustrated, 1964

80’s

Galáctica foi a projeção de Carrie Fisher no papel de Princesa Leia ao aparecer de biquíni em Star Wars: Episódio VI – O Regresso de Jedi, de 1983.

90’s

A primavera da Chanel nos anos 90 fez do biquíni uma segunda pele, do mais teenie weenie aos que escondiam o umbigo, do tweed às malhas sintéticas, com cristais, correntes ou missangas. A naturalidade com que é usado era contagiaste.

Desfile Chanel, 1994

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