#Jornalismo Frankenstein: Entrevista a Duarte Guerreiro

Duarte Guerreiro aprendeu tudo o que há para saber sobre as realidades do jornalismo independente quando levou pela primeira vez uma câmara para uma manifestação, foi apanhado numa carga policial, filmou a fotojornalista Patrícia Melo a levar uma marretada da PSP e depois de publicar as suas imagens online, teve todas as principais televisões do país a roubar-lhe o seu trabalho sem atribuição ou recompensa. A sua opinião sobre o jornalismo mainstream só tem piorado desde então. Está na Guilhotina.info desde que a plataforma começou em 2013, altura em que esta não passava de um bando de anarquistas sedentos de sangue. Desde então filmou muitas mais marretadas da PSP, escreveu principalmente sobre eventos internacionais e, para seu grande espanto, foi convidado para uma conferência na Lusófona do Porto. Perguntamos tudo aquilo que quisemos.

1. Pensa alguma vez voltar/começar a trabalhar para o Jornalismo mainstream?

Nem por isso. É difícil abrir a mão da liberdade que temos com um projecto independente.

2. Sente-se um revolucionário do Jornalismo?

Não. O nosso jornalismo busca a verdade, como qualquer bom jornalismo, e tenta aprender com quem veio antes e quem faz o mesmo caminho. Os nossos ideais é que são revolucionários.

3. Na sua opinião, qual é a perceção do público, em relação às notícias que são publicadas no Guilhotina?

Qual deles? Imagino que o público que partilha ideais revolucionários aprecie o trabalho que fazemos, que o público politicamente acrítico nos ache estranhos e provocatórios e que o público reacionário nos abomine. Espero que façamos por tal, mas quem sabe? Nunca fizemos nenhum levantamento.

4. Qual foi a sua reação quando descobriu que as suas imagens da manifestação, onde a fotojornalista Patrícia Melo levou uma marretada de um agente da PSP, apareceram nos media mainstream, sem qualquer tipo de renumeração ou reconhecimento pelo seu trabalho?

Choque com o desplante. Nem havia uma legenda a dizer “Roubado do Youtube”. A questão da remuneração nem me preocupava particularmente, achava mais importante que as imagens tivessem circulação e suponho que esse objectivo foi concretizado, mas a falta de atribuição pareceu-me o mais grave. O que esse episódio me provou é que as coisas se fazem com a mesma balda na redação de uma RTP, SIC ou TVI como numa qualquer página de Facebook que mete as suas marcas de água em memes que encontra por aí. Foi um primeiro episódio que me fez perder imenso respeito pelo jornalismo mainstream sério e respeitável.

5. Qual é o perfil do leitor da Guilhotina?

Os deuses saberão! Há desde o tradicional jovem anarquista de cara tapada e cocktail molotov na mão até senhoras de 80 anos com lindas cabeleiras brancas. Presumimos que ela ou ele não goste particularmente de capitalismo, machismo, racismo, imperialismo e outras coisas que tais, ou tenha curiosidade por críticas a tais temas. Ou que goste dos nossos desenhos bonitos.

6. O Guilhotina já é reconhecido como um media em que os leitores procuram se informar e que os media nacionais (mainstream) reconhecem o seu valor?

A primeira parte penso que sim, tanto que quando ainda não tínhamos site recebíamos várias mensagens a perguntar quando é que saíamos do Facebook, que o pessoal tava farto de ter lá conta só para nos seguir. A segunda parte, não sei nem nos interessa particularmente esse reconhecimento. Já fomos para aí citados em televisões e jornais quando tivemos conteúdos exclusivos em que havia interesse mainstream e não se podiam escapulir a dar-nos autoria, mas vemos esses episódios como uma espécie de farsa cómica feita para nos divertir exclusivamente a nós e que por algum motivo passa na televisão. Não queremos o reconhecimento do mainstream, queremos ser contrapoder.

7. Como são abordadas as questões como igualdade, género ou a representação dos grupos minoritários na Guilhotina?

Como todas as outras, por uma perspectiva revolucionária e com consciência de classe, que reconhece nas pressões exercidas pelo capitalismo, para se preservar e renovar, a origem das desigualdades raciais, de género, de sexualidade, entre outras; a sua preocupação é embaratecer o trabalho do negro e do imigrante através da sua degradação, jogando depois populações umas contra as outras para servirem de bode expiatório aos crimes do próprio capitalismo; em mercantilizar o corpo da mulher para a vender aos homens como produto ou fechá-la em casa a servir de incubadora para uma nova geração numerosa de trabalhadores em competição entre si por postos de trabalho escassos e portanto mal remunerados; em criminalizar sexualidades que não sirvam este ideal parideiro, condenando pessoas a vidas inteiras de miséria pessoal, no melhor dos casos, etc. Achamos que sem esta perspectiva estrutural e ancorada em teoria, apenas restam impressões mal vislumbradas da realidade, que reduzem tudo a más intenções de indivíduos.

8. O Guilhotina tem algum media onde se espelha para realizar o seu trabalho?

Há vários de que gostamos bastante e seguimos com frequência. Não diria que espelhamos, porque temos a nossa dinâmica muito própria, que é um dos motivos que nos dá tanto gozo construir a Guilhotina, mas estamos sempre a tentar aprender com outros media cujo trabalho admiramos. Pessoalmente, sou parcial ao The Real News Network, Naked Capitalism e The War Nerd, que são os que sigo com mais frequência.

9. Na hora de fazer uma reportagem qual é o compromisso ético que o Duarte assume?

Mostrar a realidade, não apenas no que é aparente à frente dos nossos olhos, mas também nas suas subtilezas estruturais, que é necessário compreender para perceber realmente o que se está a passar. Dar voz aos explorados, aos exploradores já lhes sobra tempo de antena.

10. Haverá alguma possibilidade de criar uma aliança com os media mainstream? O que é que os media alternativos podem aprender com os media mainstream?

Como se configuram agora, não. Com eles podem aprender a mentir, vender guerras e seguir as aventuras entediantes de figuras políticas nacionais extremamente medíocres.

 

  • as respostas estão de acordo com o antigo acordo ortográfico, por decisão do entrevistado

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