#Throwback

Entramos na cápsula do tempo para recordar as versões portuguesas dos desenhos animados mais icónicos dos anos 70,80 e 90.

As TARTARUGAS NINJA

A história das quatro tartarugas ninja mutantes viciadas em pizza e treinadas por um homem-rato nos esgotos de Nova Iorque começou a ser contada em BD, em 1984. Três anos depois, ganhou a versão em desenhos animados, mas só nos anos 90, com o lançamento do primeiro filme, é que conquistou a popularidade merecida – e a turtlemania passou a ser uma espécie de religião propagada por cadernetas de cromos, figuras de ação e jogos de arcade. Por cá, vimos Leonardo, Miguel Ângelo, Rafael e Donatello, pela primeira vez na RTP na sua versão original com legendas e, só em 1994, com sotaque português, no programa da SIC Buéréré, com as vozes de Joel Constantino, António Feio, Jorge Sequeira e Rui de Sá.

Foi numa noite de 1980 que Kevin Eastman desenhou a primeira tartaruga ninja. Fez o amigo Peter Laird rir e desenharam a segunda. No dia seguinte, escreveram a história.

ABELHA MAIA

Ainda hoje a canção do genérico ecoa com facilidade em algumas cabeças. Quem a cantava era To Zé Brito e uma Ágata de 19 anos ainda conhecida por Fernanda de Sousa. A sua participação ficava por aí e quem dava voz à “pequena Abelha Maia” era a atriz Carmen Santos. Numa entrevista, Carmen Santos afirmou que “em 1978, não se faziam castings de voz, tanto quanto me lembro. Havia o conhecimento das vozes, sobretudo pela prática radiofónica e não só os profissionais se reconheciam, como o próprio público, os senhores ouvintes, também. No meu caso, tinha já uma prática frequente de interpretar personagens infantis.” Tanto que também emprestou voz à Heidi, ao Marco e ao Cid das Aventuras de Tom Sawyer. O tempo vai passando, mas nem por isso deixam de lhe reconhecer a voz. “A geração dos quarentas conserva ainda a memória da Abelha”, conta. Da hora das gravações, lembra: “Era uma festa diária!”

Abelha Maia de Carmen Santos.

DRAGON BALL

“Continua chamando-me assim, bubu”, “deixa-me rir agora, que amanhã posso ter cieiro”, “melhor que o Big Show SIC” e “silêncio que eu vou cantar o fado” não estavam no guião japonês, mas a versão portuguesa do Dragon Ball não ficou famosa por cumprir regras. A SIC, que foi a estação que em 1995 ficou com os direitos da série japonesa, queira torná-la mais familiar e menos violenta e, por isso, deu liberdade aos atores para darem um novo tom às batalhas que chegavam a durar semanas. Isso e o facto de o boneco continuar a mexer a boca quando se lhe dava uma voz portuguesa exigiu que o elenco acrescentasse um ponto aqui e ali, sempre com uma dose de humor e uma série de referências ao universo pop culture português dos anos 90 – menções a uma qualquer Miss Portugal incluídas. O sucesso foi tal que os primeiros clubes de fãs nem sequer foram criados por miúdos, mas sim por membros da GNR e alunos da Universidade Nova de Lisboa. “O elenco e o diretor de dobragens tornaram a versão portuguesa espacial. O que muda nas séries que passam nos outros países são as vozes e nós queríamos muito que a nossa versão fosse cómica”, conta numa entrevista Cristina Cavalinhos, a atriz que deu a voz à Bulma, à C18, à Pan, ao Puar e a muitas outras que foram aparecendo. “A diversão era uma constante nestas gravações. Gravávamos por cima do japonês e isso dificultava bastante o trabalho, porque não conhecíamos a língua e não tínhamos referências. O Tó Semedo [o diretor de dobragens] começou a promover um espírito de equipa positivo e de boa disposição e um dos divertimentos era relacionarmos as notícias da atualidade com a série. Por exemplo, a personagens Tartaruga Genial falava muito das atrizes e apresentadoras da altura. Nos intervalos falávamos da série como seda nossa vida se tratasse e, nesses termos, surgiu a expressão: ‘Não perca o próximo episódio, porque nós também não.’” O próprio Henrique Feist, que dava voz ao Goku, ao Trunks e a outros, chegava a gravar os episódios para os ver quando chegasse a casa. Como muito de nós.

Henrique Feist dá a voz a Son Goku desde 1995. Na versão original, quem o faz é a atriz japonesa Masako Nozawa, de 81 anos.

POKÉMON

Estávamos em 1999 quando Ash Ketchum e Pikachu chegaram às nossas televisões. Desde então já foram para o ar 20 temporadas e uma série de filmes do anime baseado nos videojogos de 1995 de Staoshi Tajiri e os atores que lhe davam voz foram mudando a cada estreia. Do elenco original é difícil esquecer o Ash de Maria João Luís e depois Sandra Faleiro, a Misty de Helena Montez, o Brock e o Gary Oak de Peter Michael, a Jessie de Teresa Madruga e o Meowth de Rui Luís Brás. É ele, o pokémon felino do Team Rocket, que relembra em uma entrevista que já se passaram mais de 20 anos. “Ainda tenho memória do meu pânico a cada novo guincho dele… Temia pelas minhas cordas vocais”. E, tal como acontecia no Dragon Ball, também lhe chegava às mãos uma versão adaptada do guião japonês e não esquece a diversão que se vivia nos estúdios coesa e já muito oleada que trabalhava com muita eficácia e muito rigor, mas que não prescindia de manter um enorme nível de humor dentro do estúdio. É um trabalho tecnicamente muito exigente e, na altura, dobrávamos das 9h às 24h e, como tal, exigia-se um clima de boa disposição.” Naquela altura, as gravações eram feitas em conjunto (agora são gravadas de forma digital em separado) e quando alguém se enganava era preciso recomeçar do início. Para quem quiser jogar ao jogo das diferenças, a 19ª temporada do Pokémon está em exibição no canal Biggs.

Nas 20 temporadas de Pókemon, Ash Ketchum teve sempre a voz de ‘menina’.

OS MOTORATOS DE MARTE

Também foi o Buéréré de 1994 que nos apresentou a Bugias, Modo e Vinnie, os roedores de Marte que andavam de moto e fugiram do seu planeta para escapar aos plutarquianos, uma espécie de extraterrestres com cara de peixe. Com este enredo, a dobragem só podia ser cómica e, à semelhança do que acontecia em Dragon Ball, a cada episódio havia referências à atualidade portuguesa, com direito a improvisar, mencionar personalidades conhecidas pelo público e fazer comentários humorísticos sobre as notícias do dia. Tudo isto com um elenco à altura que incluiu Joaquim Monchique, Rogério Samora e António Semedo.

Os três ratos, que trocaram Marte por Chicago, tinham vozes de Joaquim Monchique, Rogério Samora e António Semedo.

DARTACÃO E OS TRÊS MOSCÃOTEIROS 

Alexandre Dumas nunca imaginaria que Os Três Mosqueteiros poderia ter uma versão canina, mas nos anos 80 tudo era possível. Quem se lembra, sabe que história, que nos era contada pela RTP aos sábados de manhã de 1983, não era muito diferente do original, com a diferença de que todas as personagens tinham quatro patas. Havia um muito determinado Dartacão que chegava a França para se tornar moscãoteiro e que, pelo meio, se apaixonava pela aia da rainha, neste caso Julieta, e se tornava amigo dos já moscãoteiros Dogos, Mordos e Arãomis e do rato Pom. A dar-lhes voz havia João Lourenço, Manuel Cavaco, João Perry, António Montez e Isabel Ribas. O genérico não mentia e “os famosos moscãoteiros” ficaram tão famosos que viraram cadernetas de cromos, cabeças de gelados e bonecos para coleção. Voltaram aos nossos ecrãs para várias vezes, primeiro nos anos 90, com a repetição da TVI, e depois dos 2000 para a frente, em canais para miúdos. Entretanto, o miúdo que há em nós fica a aguardar pela próxima leva.

Dartacão e os seus companheiros, ou João Lourenço, Manuel Cavaco, João Perry e António Montez.

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