Centenário da Primeira Guerra Mundial: Memórias de um Portugal Entrincheirado

O final do século XIX, após a Conferência de Berlim, é caracterizado pela corrida ao armamento. Neste período, conhecido por “Paz Armada”, várias nações instituíram o serviço militar obrigatório. Numa altura em que primavam ideais do Imperialismo, associado ao capitalismo monopolista, as grandes potências industriais adotaram a política expansionista para garantir o controlo sobre os mercados afro-asiáticos. No início do século XX, cinco países dominam o palco europeu: a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha, a Áustria-Hungria e a Rússia. A paz que parecia reinar no continente europeu escondia muitas tensões existentes. Exaltação do sentimento nacionalista,  o desenvolvimento da indústria armamentista e marcas do Revanchismo Francês, memórias de uma guerrilha Franco-Prussiana e a consequente política de alianças, eram lascas de madeira à espera de uma fagulha ardente.

O atentado de Sarajevo

A 28 de Julho, um acontecimento vem incendiar os ânimos e, fica de resto, como um marco histórico: os movimentos militares dão início a algo que até então a humanidade, não havia presenciado. Na sua génese, o assassinato do Arquiduque Francisco-Fernando, herdeiro do trono Austro-húngaro e a sua mulher, em Sarajevo -capital da Bósnia-Herzegovina, território anexado pelos Austro-húngaros. Estava lançada a bola de neve para a exaltação rumo aos campos de batalha das várias potências mundiais. Apelidada de Grande Guerra, durou quatro anos, de Agosto 1914 a Novembro de 1918. Comemora 100 anos e é, ainda hoje, uma ferida em cicatrização.

 Quatro longos anos de conflitos

Uma guerra d’ entre trincheiras e mar levam este conflito, à mundialização: No mar, sob a forma de bloqueios marítimo, guerra submarina e desbravamento de novos mares. Por terra, um vasto espaço sem vida, chamado no man’s land , terrenos -destruído pelos buracos da troca de arremessos e cobertos de arame farpado-, que separam as trincheiras das linhas inimigas. Os países europeus lançam-se numa corrida ao armamento: maior distância de tiro, mais rapidez, maior precisão. A mobilização da produção esvaziou os campos de cultivo e as fábricas enchem-se de operários. Os exércitos aperfeiçoam-se e adaptam estratégias, armamento e equipamento. Os uniformes são melhorados, os submarinos são modernizados, os lança-chamas e os tanques, fazem a sua primeira aparição nos campos de batalha. Os gases de combate, ainda que interditos, depressa despertam o interesse de todos os países. A grande guerra vai dar à aviação um novo impulso: as suas missões evoluem: observação, artilheria, fotografia aérea, bombardeamento e perseguição.

Os trabalhos de Fussel, Keegan e Leed ajudaram a criar uma interpretação trágica da Grande Guerra. Redefiniram-na como “um acontecimento que transformou a linguagem, quebrou barreiras entre esfera pública e privada, violou a distinção entre alvos civis e militares, desafiou divisões de género e abriu uma nova fase na história de guerra”.

A guerra também se faz na retaguarda

Face ao perigo, os partidos começam uma campanha de propaganda: a imprensa só pode transmitir os comunicados do exército e toda a informação contrária à visão de guerra, é proibida. Para fazer face às exigências de produção, no período da guerra, as mulheres, as crianças, os feridos, os prisioneiros e os habitantes das colónias, são chamados para contribuírem para o esforço de guerra.

Portugal na Grande Guerra

Quando a guerra mundial estala, em Agosto de 1914, ela insere-se numa guerra civil intermitente de um regime – recente e ainda fraco, a republica – que receia fortemente a situação internacional e teme, sobretudo, o afastamento do seu secular aliado – Inglaterra, está claro- do qual tudo depende, a começar na economia e a acabar no império.

Nas sombras de uma guerra civil intermitente, as discussões voltam-se para a posição perante a guerra. Surgem dois grandes blocos, que se assumem, logo em fins de 1914: os “guerristas”, com o Partido Democrático no seu centro e os “antiguerristas”: um bloco muito amplo, que vai da extrema-esquerda anarquista à extrema-direita integralista. Ao contrário do que os nomes indicam, os “antiguerristas” não são contra a guerra e os “guerristas” não são a favor dela.

“É necessário que ao chegarmos ao fim da guerra possamos manter intacto, se não aumentado, o nosso domínio colonial em África, e por toda a parte bem assinalado o nosso prestígio de Nação autónoma de Nação livre”, António José de Almeida, sexto presidente da República Portuguesa

A Grã-Bretanha conhecia melhor que ninguém a debilidade económica e militar nacional, pelo que não duvidava que as Forças Armadas eram incapazes de participar em qualquer teatro de guerra moderno: o Governo era incapaz de o financiar, a indústria nacional, incapaz de o sustentar. Contudo e porque Portugal, estava nas mãos de poder europeus, maiores, os ideais de patriotismo e aliança, tinham uma voz audível.

Teixeira Gomes, então embaixador em Londres, afirmou “Toda a nossa vida social, a nossa estabilidade política, a nossa nacionalidade, a conservação das nossas colónias, tudo depende absolutamente da Inglaterra!”.

O pretexto são os navios alemães que se acolheram em portos portugueses quando a guerra começou. Ainda são muitos: mais de 80, quase todos a vapor e modernos que, no conjunto, representam qualquer coisa como o dobro da Marinha Mercante Portuguesa, de então.

Em fins de 1915, a França entra no processo de forma inesperada: limita-se a informar Londres que precisa destes navios e que tenciona pedir a sua apreensão a Portugal – o que provocaria a guerra. A posição francesa é clara: ou vocês pedem os navios, ou nós apresentamos um pedido próprio, sendo a questão colocada como uma decisão já tomada e não sujeita a qualquer discussão.

Afonso Costa, que era então o Presidente do Conselho, exige que o pedido de apreensão dos navios seja feito em nome da Aliança e acompanhado por garantias secretas que, se provocar a beligerância, o Aliado apoia materialmente Portugal. A Grã-Bretanha cede.

Situação económico-social

É de notar que a partir de meados de 1915 Portugal começa a sentir, duramente, os efeitos da guerra. Os fretes marítimos estavam reduzidos para menos de metade, o que significa que faltavam alimentos e energia (carvão); faltavam igualmente divisas, o que impedia as compras no exterior; tendo como consequência, um descontentamento crescente na população.

  “Vivia-se n’uma atmosfera de ódios,
De enredos e de intrigas, em que mal
Se podia respirar”, Manuel de Arriaga, primeiro presidente constitucional da República Portuguesa.

 

 

 

Provocação que levam os portugueses às trincheiras

Os navios alemães são apreendidos de surpresa numa operação bem montada, que é acompanhada por o imediato arriar da bandeira nacional. A resposta alemã é a esperada: declara a guerra a Portugal, em março de 1916.

Ademais, o governo português tinha conseguido duas outras coisas que pareciam impossíveis: iludir a opinião pública, interna, dando a entender que Portugal se limitava a obedecer a um pedido do aliado e fazer com

que fosse a Alemanha a declarar a guerra.

Portugal tem o destino de organizar a sua maior força expedicionária, de sempre, para a Europa. Composto por duas divisões de Infantaria e um Corpo de Artilharia Pesada Independente, num total de 55.000 homens. Ficou integrado num corpo de exército britânico, debaixo do comando superior do General inglês, Douglas Haig. O CEP dependia em tudo do apoio da Grã-Bretanha: financiamento, transporte, armamento, logística, treino, enquadramento, meios pesados, apoio aéreo, informações, comando. A força expedicionária fora enviada para França, mal preparada, mal armada, não apoiada nem sustentada por meios próprios.

 

Segundo a Revista Militar, Portugal combateu nesta guerra em quatro frentes, ou teatros de operações.

– Angola, desde 1914;

– Moçambique, desde 1914;

– No mar – no Atlântico Central e Sul, e no Índico, desde 1914;

– Na Flandres (França/Bélgica), desde 1917.

 

 

1918, ano decisivo

Após a assinatura de paz germano-Rússia, a Alemanha pode virar-se para a frente Oeste e preparar a sua ofensiva, antes que os americanos cheguem. Os ataques sucedem-se, mas os alemães não conseguem fazer face à superioridade do inimigo. Em Outubro de 1918, a frente balcânica colapsa. A Alemanha não consegue acalmar o descontentamento popular e a revolta ameaça o poder. O imperador Guilherme II abdica e foge para a Holanda. A 11 de Novembro, os alemães assinam o armistício. Nos três dias que precedem a assinatura do armistício, Aliados e Alemães negoceiam um contrato- Tratado de Versalhes.

Em 1919, a Sociedade das Nações, antepassada da ONU, é criada para desanuviar as relações internacionais e privilegiar as relações de paz. Mas as cláusulas do armistício são muito duras para a Alemanha, enfraquecida. A crise económica e o crash da bolsa em 1929, abrem a porta a inúmeras contestações, onde se destaca e cresce o movimento nacional-socialista, ou movimento nazi. 20 Anos separam os conflitos bélicos, à escala mundial.

O soldado na trincheira, não passa duma toupeira
Vive debaixo do chão.
Só pode ter a alegria de espreitar a luz do dia
Pela boca de um canhão.
Mas quando chegar a hora dele arrancar por aí fora
Ao som da marcha de guerra,

Seus olhos são duas brasas e as toupeiras ganham asas
Como as águias lá da serra.”

Fernando Farinha – Fado Das Trincheiras

 

 

Archives Diplomatiques – Paris.

Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros – Lisboa.

National Archives – College Park e Washington DC. Public Record Office.

National Archives – Kew, Londres.